segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Pequenas crônicas obscuras

*

Por Germano Xavier


mesmo em segundos

ele não sabe (e nunca saberá) que foi ele que me fez perder quatro anos de trabalho árduo. sim, porque tentar amar (a quem você não ama) é trabalho árduo, inútil e desonesto. ele me fez perder quando apareceu. quando reapareceu e fez-se ele para mim. então, a minha vida passou a ser a esperança de tê-lo, mesmo em segundos, em minha boca.


na corrida, no tempo

naquele dia, ela correu como se fosse dois. ela o trazia tão perto de si, tão dentro, que chegava a sentir o seu cheiro, a sua respiração, a sua calma, seus pensamentos. definitivamente, ele estava ali. no correr dela. no tempo.


se ainda...

não vais me responder se ainda me...?


teus silêncios

teu silêncio, minha pessoa
engolfa-me em tenebrosa escuridão
quebra minha pena
sufoca minha garganta
em ondas de sofrer
(perco a respiração da alma)
quando tu te encobres
de mim, em silêncios de não


receitinha

receita ardida
você em mim
desperdício de mim

post scriptum. perdoe-me por não saber calar a genial estupidez do amor.


insônia

faça-me dormir
ou diga apenas que sente muito
ou fale somente a verdade


intuição indesejada

e não importa o que não me digas
te conhecer é o meu quinhão
(furtado) sei que tu sabes que eu estava certa
sobre aquilo...

post scriptum. é preciso conhecer para amar... ou amar para conhecer? só sei que te saber é o que me mantém querendo.


conclusão

não veio o sono
nem o bom senso
nem a revelação


(suponho que pensarás em me odiar pela manhã. mas desistirás por condescendência e piedade. também não acentue a indiferença e nem coloque mais tijolos no muro de gelo que criei. conceda-me (ou renove) uma ilimitada licença poética. seja bom como só sabem ser os animais e os poetas (e nem pense em me mandar para o psiquiatra. o tipo de que preciso ainda não inventaram.). mas esqueça tudo e faça o que a vontade mandar.

vieram a vergonha
o arrependimento
e os olhos vermelhos

post scriptum. isso também é ficção?


o modelo a seguir

você não me leva a sério
e isso até me deixa feliz
assim fica mais fácil te imitar


uma sentença inocente

"na verdade, só houve duas mulheres que me "tiraram do chão" na vida. uma era o meu amor da vida toda. aquele!", disse ele com cara de gato manhoso que não pode ter todo o leite que deseja. deitada, despojadamente ao seu lado, numa cama pequena de um hotel modesto, ela sente um piano caindo em sua cabeça e esmagando toda a sua existência. por um instante, seu rosto congela num retrato de humilhação eterna. "puta que pariu!, como ele pode ser tão sensível e tão insensível ao mesmo tempo!?", ela pensa. "como ele, tão experiente e evoluído, tão superior e raro, pode não saber que não se fala uma coisa dessas a uma mulher que o ame? como pode não saber que dizer a uma mulher que ela não foi a sua maior aquisição amorosa (a verdade aqui é irrelevante, nesse caso) é tão cruel quanto jogar vinagre numa ferida? (não que ela não soubesse. ela sempre soube o que não era pra ele. o que era é um conceito ainda em construção). mas ele me fala isso com a inocência de quem oferece um pote de sorvete". chocada e ainda meio catatônica, ela tenta se recompor e balbucia o mais convincentemente possível:

- eu entendo. isso acontece com todo mundo. todos temos a nossa "pessoa" na vida. a pessoa acima de todas. aquela que levaremos para o resto da vida e que pensaremos nela em todos os momentos de extrema dor ou de extremo contentamento (não obstante todos os nossos esforços contrários) e que, muito raramente, conseguimos ficar com ela na vida real. na vida real, geralmente ficamos com quem a vida nos impôs". o discurso foi bonito e era nisso que ela acreditava mesmo. piamente. ele, aquele homem-deus deitado ao seu lado naquela cama tão distante de sua casa e que é capaz de fazê-la quebrar-se com uma simples sentença, é a sua pessoa. para toda a vida. ele concorda, aparentemente indiferente ao desastre emocional que causou. e, logo em seguida, tão inocente quanto todos os inocentes, dormiu em paz.


perdoe-me

perdoe-me. a alma sangrou mais do que de costume hoje.
bom dia.

post scriptum. perdoe-me sempre. sinto-me vazando. torneira aberta. um iceberg derretendo ao calor de um sentimento inoportuno, porém vital.

e por favor, não me ache desprezível e servil. sou apenas amor por ti.


ainda aqui, em delírios sãos

começaram a chegar os e-mails, mas nenhum era você. quer mesmo que eu continue com essa torturante exposição do sentir amor perdido? temo que nem mesmo você consiga fazer parar isso. temo estar programada para chafurdar pra sempre nesse amor que me assalta a razão e me classifica no mais baixo escalão do ridículo e da estupidez.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/With-the-young-i-m-not-580625577

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