quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Um olhar sobre colocação pronominal

*
Por Germano Xavier


VIEIRA, S. R.; BRANDÃO, S. F.. Ensino de gramática: descrição e uso. São Paulo: Contexto, 2007, p.121-146.


A problemática envolvendo a questão da COLOCAÇÃO PRONOMINAL, principalmente com relação ao seu uso/ensino, termina por revelar de antemão a grande ligação existente entre a Fonologia e a Morfossintaxe, do mesmo modo que serve de ponto de apoio para identificar reais aproximações e/ou divergências no tocante ao uso da língua portuguesa tanto no Brasil quanto em Portugal.

A colocação pronominal obedece não só a fatores estruturais, mas também a aspectos estilísticos e rítmicos. De tal forma, um trabalho que envolva a temática da colocação pronominal vai sempre passear por três vertentes: a sintática, a morfológica e, por fim, a fonológica, não sendo possível deixar de lado alguma destas características em caso de se efetuar um estudo mais aprofundado acerca do assunto.

Dada a relevância do tema, e visto que se agrega em campos da pesquisa de caráter interdisciplinar, um olhar sobre o uso das colocações pronominais sempre se mostrará pertinente e, diria, fundamental para a lida diária de profissionais e pesquisadores que perpassam esta área do conhecimento.

Destarte, alguns pontos definidos com base em pesquisas recentes merecem destaque:

• A abordagem tradicional tenciona que há mesmo uma situação conflituosa envolvendo a colocação pronominal no português brasileiro e no de Portugal e que, num olhar aglutinante, a ênclise seria a regra geral;

• A abordagem descritiva em duas gramáticas estudadas indicam que ou a ênclise é o padrão básico, não marcado, ou os clíticos se colocam sempre anteriormente antes do núcleo do predicado (verbo);

• A abordagem sociolinguística aponta que há um equilíbrio na ocorrência de próclise e ênclise em lexias verbais simples nas duas variedades do português (modalidade oral), inexistindo casos de mesóclise. Quanto à escrita, há um leve aparecimento de casos envolvendo mesóclise na variedade europeia do português. De resto, mantém-se o equilíbrio quanto ao seu referido uso;

• No português europeu (oral), e com relação aos elementos condicionadores da ordem do clítico pronominal, observa-se maior ocorrência da variante intra-CV (Complexo Verbal), sendo que no caso do português brasileiro este índice pode chegar a 90% dos casos;

• O tipo de clítico, a forma do verbo não-flexionado e a constituição do complexo verbal são fatores importantíssimos para o condicionamento da ordem dos pronomes, tanto na variedade do português brasileiro quanto na variedade europeia;

• Quanto ao tipo de clítico, fica evidenciada a marcação maioral da posposição do clítico acusativo de 3º pessoa aos complexos verbais;

• Quanto ao tipo de complexo verbal, o comportamento do português brasileiro diferencia-se da variedade europeia pelo fato de apresentar o pronome anteposto à segunda forma verbal, como no exemplo: pode me dar;

• Quanto à forma do verbo não-flexionado, percebe-se que a forma do particípio não recebe bem o pronome. A variante pós-CV é, assim, bloqueada pelo particípio e desfavorecida pelo gerúndio;

• Com relação à análise prosódica, percebe-se que o pronome átono do PB assume feições de sílaba pretônica vocabular e o seu parâmetro de ligação fonológica é inclinado à esquerda, sendo que duração e intensidade são os fatores que mais influenciam na cliticização do pronome à esquerda;

• Dentro do ambiente da colocação pronominal brasileira, a caracterização sociolinguística a partir das pesquisas empenhadas infere que a próclise é a variante preferida, mesmo na escrita, ficando a ênclise destinada a alguns casos especiais em contextos morfossintáticos (a ênclise pode figurar significativamente na oralidade);

• O profissional/linguista deve estar ciente da co-atuação de variáveis extralinguísticas (modalidade e registro) e linguísticas (tipo de clítico e presença/ausência de “atratores”) no contexto da fabricação da regra variável;

• O ensino da colocação pronominal, observando os fatores da regra variável, promove diversas habilidades em leitura, desenvolvendo também o raciocínio científico do aluno sobre a língua;

• Para um melhor progresso na relação de ensinagem, faz-se preciso que o professor revele ao aluno cada contexto variável em função das variedades e das modalidades linguísticas em uso, apresentando assim todas as possibilidades inerentes aos diferentes níveis gramaticais, indo desde a ordem dos pronomes em relação ao verbo até a averiguação acerca da função sintática que os referidos pronomes exercem nos enunciados;

• Num olhar geral, a orientação denominada de “sociolinguística inovadora” é a que se apresenta melhor equipada para os desafios da ensinagem, pois viabiliza ao estudante o contato com o maior número possível de opções, valorizando para isso os contínuos da variação e não negando o estatuto social da linguagem, padronizador e mutável ao mesmo tempo.


* Imagem: http://edusampaio.com/2012/01/03/colocacao-pronominal/
Resumo: texto em formato de recortes.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

A seco, o molhado

*
Por Germano Xavier


atravessamos
colecionando chegadas
desviando partidas
salvando os agoras
essa dança de ser gente


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Koi-Forest-568563330

Desencaixados

*
Por Germano Xavier


não cabemos na caixa
só nus encaixamos
dentro de nós


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/rings-of-smoke-157729339

sábado, 24 de outubro de 2015

O julgamento das almas largas (Parte II)

*

Por Germano Xavier e Camilla Tebet


“Nenhum homem é uma ilha.”
John Donne


SOBRE AS CONDICIONANTES


No meu coração bate vento e não passa mais nada no vão. Fui a uma festa que não acabou. Bebi demais. Não evaporou. Encostei numa parede qualquer, mexi no cabelo, cruzei um pé no outro e ouvia a música. As pessoas não pararam de dançar só porque eu me sentia estranha. Na verdade eu não tinha com quem falar. Minha meia calça rasgou no banheiro e minha bolsa era velha. Esses dias aprendi a fazer maquiagem, mas acho que exagerei. Tudo um exagero. Meu coração venta e tem bocas e vozes saem dele. Umas gritam. Alguém disse que é um grito. Eu tirintilo. Mas a pouca luz me conforta. Como se a qualquer momento pudesse fechar os olhos e viver a vida real. Há, quantas vidas eu vivo! E tem gente que acha que não vivi nenhuma. Essa estrada me leva em busca da falta que me move. Do estudo que ainda não fiz de mim. Da célula desgarrada. Sim, porque eu quero um caminho. Linha reta e gozar curvas. Minhas pernas tremem porque respeito as palavras.

dura realidade. a de não existir. não existindo, deixamos de amar. a realidade é uma foice. inda não caímos na real. não a compreendemos. um dia? somos guardadores de realidade. estocamos realidade. isto é ruim. isto é bom. isto é todavia. para onde nos esgarçaremos mais? estaremos como seres tisnados, carvão nos pulsos, extremamente poluídos de tudo. meninos carvoeiros. meninas carvoeiras. a realidade é incauta. somos incautos. o que inferir? beber a água que nos resta? forçar a chuva ácida? um arrocho. a realidade. existência é linguagem. sem linguagem, não há mundo nem ser. nem as coisas inteiras. só as coisas pela metade. e vida não pede metade. e vida pede inteireza. riscaremos o aglomerado dos indignificados símbolos da vida do mapa. somente através, atravessar. calada noite preta. imediata. zeugo: há música, porém. afinal, você tirintila. você inda lembra? você inda lembra de você?


*  Imagem: http://www.deviantart.com/art/Night-Path-568052559

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Sobre as regas

*
Por Germano Xavier

regar as flores
mesmo se plásticas
regar as flores


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Flower-field-241167105

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Estágio

*
Por Germano Xavier


nem perto
nem longe
ao alcance da vontade


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Ghosts-497460447

domingo, 11 de outubro de 2015

Poesia para driblar distópicas esquinas

*
Por Germano Xavier


Lisa Alves é a autora do livro de poemas ARAME FARPADO, conjunto de escritos poéticos produzido sob a égide do Coletivo Púcaro e da Lug Editora/Nyx Poética. Para quem conhece um pouco de todo o seu movimento-percurso dentro dos campos da literatura – e que não é de agora, diga-se de passagem -, sabe muito bem que o verbo produzido por Lisa é material de se respeitar em demasia.

A mineira, radicada na capital federal há mais de uma década, estabelece em seu cortante ARAME FARPADO, um diálogo íntimo-comum de base existencial onde algumas das expressões mais pontuais parecem partir do seguinte questionamento: como manter-se vivo diante de tão imantada sociedade, de base distópica e essencialmente opressora?

A poetisa traça um percurso elucidativo – poesia elucida? – formatado em seis partes díspares, mas que se colidem fortemente em termos de conjunção temática, tratando de entrelaçar discussões acerca da formação do eu (ou dos eus, eus-nossos), de suas vivências afetivas, das experimentações mundanas e, por fim, das intermináveis conclusões destinadas ao império da palavra.

ARAME FARPADO é também um pequeno postulado sobre a utopia. Sim, sobre a utopia. Sem que seja vista, aqui, com aquele valor pejorativo ligado ao garimpo das impossibilidades vãs, mas sim a utopia de quem realmente possui dentro de si uma certa medida de esperança que não se dilui com o passar do tempo. Ressalta-se, pois, o desejo pelo enfrentamento. De lado, somente as crenças em forma de gás viajando ao vento.

Lisa Alves nos desafia a pular as cercas limítrofes do olhar, que terminam por inverter o real e nos promovem em tortuosidades e delitos. A partir da modulação em que todas as verdades são julgadas, a autora opera uma atitude bastante lúcida acerca das invisíveis superações diárias que brotam de nossas vontades. Denunciar o mal que desune para abrir espaço ao bem que agrega, eis a mensagem.


ARAME FARPADO em cinco inquietações:


1. Na primeira parte de seu ARAME FARPADO, há uma voz que ecoa várias (in)definições acerca de um (in)determinado EU. Dentro e fora, percebemos muitos eus. Qual o prognóstico de toda esta (des)composição, Lisa?

R: São tantos Eus que o futuro só a eles compete. Quando escrevo, principalmente quando componho um poema, desconecto desse Eu que transporto vinte quatro horas. Escrever dentro do meu processo criativo é gerar outras vozes. Não me desvinculo ao ponto de se tratar de algo psicográfico, não me compreenda mal! É que o Eu original é insignificante em Arame Farpado.


2. Inencontráveis são os limites e as fronteiras. Entre tais elementos, parece sempre haver um cercado ou um alambrado com arame farpado a impedir o encontro. Entre os remendos de um caos distópico e os encaixes da alvorada no céu das realidades, qual o território da poética de Lisa Alves em ARAME FARPADO?

R: As fronteiras estão por toda parte e nem sempre são externas ou palpáveis. O território que exploro em Arame Farpado está dentro e fora. Quantas vezes não conseguimos escapar de nós mesmos? Escapar de preconceitos, de ideias fortemente enraizadas pela cultura, pela religião e pelas filosofias de vida. Quantas vezes deixamos de prosseguir ou correr atrás de um sonho por medo? Há sempre um arame farpado dentro de nós e o lado de fora é só uma materialização do que somos. Eu não me espantei quando vi aqueles arames farpados no corredor dos Balcãs, entre a Turquia e a Hungria (em agosto passado), o que de fato me assustou foi pensar que aquelas barreiras foram projetadas antes dentro de sujeitos de uma mesma espécie. Há um arame farpado projetado dentro de nós. “Não Ultrapasse” parece ser uma palavra de ordem desse sistema.


3. Um arame farpado é o que separa a vida da morte em nossos dias?

R: O que está sitiado mesmo vivo (no sentido orgânico) está morto e o que está fora da cerca mesmo morto está vivo. E quem está fora da cerca? Ainda não conheci um sujeito completamente livre e percebo nossa humanidade como uma grande legião de zumbis, ninguém quer saber do antídoto e toda energia que nos resta é gasta na tola tentativa de devorar o outro. Infelizmente destruir o arame farpado não é cogitado.


4. Referências à maquinaria tecnológica moderna que enclausura o ser humano a todo instante estão muito evidentes no livro. ARAME FARPADO parece funcionar tal qual um grito opositor aos homens dotados de “corações de silício”. Um grito muito consciente, vale salientar. Procede?

R: Na verdade não é bem uma oposição, talvez uma constatação ou uma leitura poética dessa simbiose inevitável. Quando falamos de obsolescência programada, sou totalmente contra, apesar de amar tecnologia. Apesar disso não entro no jogo suicida da indústria e nem na dança do descarte irresponsável. Eu tenho o mesmo computador há anos e se o que preciso é de um processador bom ou um novo sistema operacional eu mesma troco isso sem precisar comprar outro hardware. Há uma maneira ética de se conviver com a tecnologia. A tecnologia faz parte do desenvolvimento da humanidade e o que faço é sempre me questionar: “Qual é a verdadeira necessidade de se consumir isso?” Mas voltando à pergunta, de fato há uma construção de um grito consciente em poemas como Corações de Silício, Cartilha do Missionário e Próximo que aponta bem isso:

(...)
Nosso apetite alargou:
temos fome de fibra óptica,
fome de silício,
fome de plasma,
fome de ver a realidade
projetada através de um elemento artificial.



5. Lisa Alves, “como você suporta”?

R: (...)
sou igual à multidão – resiliente.



ARAME FARPADO (LUG EDITORA, 2015), de Lisa Alves.
* Imagens: Acervo da autora.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Feuerbach em molho de cegueira

*
Por Germano Xavier


"Se te derem papel pautado, escreve de trás para frente".
Juan Ramon Jiménez


ao pé do limoeiro, pensei:
- o que nos ensina o sentimento?

atendido em vazamentos solares,
pele abrasada sob um vitral citadino,
fiz morrer em mim a prática sem prática.

e amar as pequenas coisas
como a amar a potencial revolução
(das coisas) passou de total ausência em mim
para indicador de amostras de luta.

dependemos do coração que abraça o resíduo,
das mãos que condicionam a água-crítica,
dos punhos que parametrizam
o rateio das forças.

para como dor, sentir amor.
e como fé, modificá-lo.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Flowers-45-564701742

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Em que me movia o risco

*
Por Germano Xavier


embora melhor seria o certo lance
embora o torto libere doutas relações
embora o mesmo impresso traço nos exile
embora o cárcere nos articule gestações
embora sintamos que em círculos vagamos
embora em mistas lacunas nos encontremos
embora a dor participe dos acasos
embora o nada realize linguagens
embora a vida negue a pretensa vez
embora a hora manipule a palavra
embora o passo seja a fase ou o fosso
embora aquilo de escolher querer ser
embora tantos tenhos e poucos sóis
embora haja emprego para azedumes
embora a lenta pureza dos carrosséis
embora continuemos antes do mundo
embora o ensaio processe o fim
embora a mágoa preceda a nódoa
embora em mim se comova a ânsia
embora a rota se altere em desdes
embora o sonho nos alongue sedes


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/return-564430489

sábado, 3 de outubro de 2015

A farsa

*
Por Germano Xavier

para o professor Elcy Luiz da Cruz,
desorientador de caminhos vagos
(todo o meu respeito)


pensando bem,
depois de Kafka veio a euforia.
a mão trêmula. a bandeira e o mastro.
a guia é a bomba morta que aviva o breu.
a palavra é o pássaro com altura de precipício.

pensando bem,
o desajuste necessário cabe
em não entender do mesmo jeito.
devemos, pois, tentar bagunçar o bolo
e lançar mãos de todo reinado.

uma vaga para o próximo domingo
livrar-nos-á o enterro das relutâncias.
geme a miserável pedra da história.

e aos democráticos,
e aos liberais,
e aos pacifistas,
e aos libidinosos,
e apesar dos humildes associais,
aqui jaz a pluralidade.

mas

como na cena de sua voz trôpega
a dor é sempre maior que um mero fato,
começo a contar o começo das covas rasas.

(não que morrer em branco lembre-nos um vegetal futuro)

o caso é:
extenso é o mal
e todo sonho é um manual de sobrevivência.

- Podemos nos consumir agora?


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/The-Tree-of-Life-150216752

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Todas as ilhas nos deixarão partidas

*

Por Germano Xavier


(ou Um olhar sobre a poética de cosimentos de Daniela Delias)

O quê fazer para que se “entenda os desertos” de uma geografia poético-atemporal criada à beira dos silêncios universais de uma casa-mulher que abriga a liberta narrativa espacial das várias bonecas russas que continuam a se desdobrar entre mistérios e simples segredos em nossos locais-de-mais-dentro? De onde beber onde não há o vinho-fonte, a bebida em si nem o lacre, a taberna, mas somente a ilha que banha o imaginário sublime do que é humano? A ilha de Odisseu de onde partimos e aportamos numa viagem vital, única e amaldiçoada pelas brumas do destino que nem sempre manipula... E se bêbados, arautos das insones perturbações, para onde levar as embarcações que podem sofrer, à deriva, a constatação da inexistência das rotas? Para Feácia? A quem esperar, para quem todos os esforços dirigir quando a busca é a fuga possível?

NUNCA ESTIVEMOS EM ÍTACA (Patuá, 2015) é o título da mais nova provocação em forma de livro escrita por Daniela Delias, extrema poetisa do sul extremo brasileiro. Em sua mais recente obra, como que “tocada pelo fogo”, a mão que teceu o belíssimo BONECA RUSSA EM CASA DE SILÊNCIOS (Patuá, 2012) agora dedica a voz de sua poesia ao encontrar-se dos centros e dos inícios das margens que abotoam as nódoas que calcinam toda uma pele do tempo. E ainda que haja ao menos uma centena de olhares possíveis para a obra, é sobre a nívea e augusta dor de ser que Delias embrulha seus indestinos de agora. Deslumbra-se, a palavra, nas mãos alvas de seda da autora nascida em Pelotas-RS, psicóloga e professora universitária. Com a mesma sutileza dos curtos poemas de seu primeiro compêndio, mas repetindo os exageros de consciência poética, Delias definha-se outra vez em confissões ínclitas as mais relevantes possíveis para nos alertar de que tudo neste nossa vida “é quase uma ilha”.

Tal qual a romana deusa Voluptas, “nos olhos antigas ternuras” são repassadas até a fronte do leitor a partir de uma poesia que se inscreve muito diante de um nunca-estar, mas que demonstra um autoconhecimento de impressionante relevo. Delias, num ofício de pescadora, escolhe o mar “e oferece a única face” possível: “um céu de onde se ir” na direção do puir das azuis durezas e das mínimas alegrias que nos formam caminhantes inveterados e incansáveis. O verbo torna-se cigano, ente errante, morador das rústicas torres e gigantes muralhas. A memória de trajetória presente em NUNCA ESTIVEMOS EM ÍTACA não contempla uma parcimônia de Penélope, pois é antes a dança das ondas de uma odisseia por demais particular.

Se “as coisas são o que são”, como escreve a poetisa no poema PLANO ABERTO, forja-se a ideia de que dor e beleza, coevos elementos, bifurcam-se logo no começo das estradas para terminarem sendo os rajares e as estrias que nos impulsionam as pernas peregrinas. Posto que, apesar de “as dores mesmas ainda que belas” não ajudarem a identificar os planos das experimentações e dos limites, “nada sabemos sobre deuses”, já que “não há certezas” nem oferendas místicas que nos impulsione acolhimentos de uma dada eternidade real, tão somente “há essa palavra aberta” onde “duramos além do gesto” e que nos oportuniza a dissecação do sensível.

Às moras do contexto, eis que “o amor deu de nomear as coisas”, todas elas, até as imprestáveis – estamos aqui a falar de crescimentos e maturações. E tal qual um maná que nos chega em formato de chuva divinal, ao sentir “a infância traída pelo deserto” fecundar o solo daninho e fazer “dobrar o riso” dos sorrisos tristes, “o barro antes das mãos” modela um fenômeno lauto de amor nos corações de todos os nossos mergulhos. O afetuoso canto das sereias é dado íngreme, mas reconfortante, pelas linhas de costura da maviosa imaginação da escritora.

Zéfiro, este vento que nos move para-além, ensina-nos que é necessário “morrer de amor” em ênfase diuturna, com força de provação, sem medos nem deludires. Delias, por sua vez, “toma a palavra exército” para alquebrar e alar-nos e “guardar os olhos de Aldebarã” para o ritual das iluminações profundas, já que o sentido mais rude de nossa estelar cegueira “é quando creio em tudo que fere”, como ela escreve em A NOITE.

E diante de abissal pélago, a poética de cosimentos de Daniela Delias encaminha-nos a escolher entre “um beijo de água-viva” ou “uma dança antes do salto”. Como que a lograr a imensidão das descobertas, abrasar toda espécie de desvio, afugentar histórias de perfídia ou impostoras bases... “e seríamos qualquer coisa entre o belo e o absurdo”, definidas dríadas enraizadas ao pé de nossas fomes mais possessas. Diante das adversidades, manter perto a calma, já que “de nossa sede não diremos”. Sê firme, “repara nas fendas”, pois “é só um desfiladeiro” a mais para que vençamos o desafio das nossas travessias.

Em NUNCA ESTIVEMOS EM ÍTACA, a poeta diz “eu gosto dos vermelhos”, “como se toda leveza pedisse janelas” ou fosse “um haicai de Bashô”. Confessa: “eu traçava pequenas cartografias” e tal ato “abrasa equívocos”, como se unicamente desejasse “um gesto que engolisse a boca” ou que tudo findasse livre como em “uma varanda de flores lentas”. Ah, “mas você veria diamantes”, espanta-se, amorosa a voz das intimidades sedutoras, com “uma letra selvagem” a vontade de “despertencer” dos equadores náufragos que dificultam as mais finas especiarias para, como a achar-se hipotenusa, “molhar teu nome” e ir, e ir.

Costureira das redes maternais de seu tempo-instante, Delias sugere: “é preciso respirar pela raiz” e ser “promessa de flor”. Insiste em abrir nossos olhos: “é preciso tão pouco”; “à altura de meus segredos” um “céu aqui” seria o monumento maior das gratidões: seu Zepelim que tudo transpassa. Após contemplar-se na saudade, reflete: “já não quebro espelhos”. Cacos de nós todos “à pedra não pese a palavra”, nem tudo são senões, “há esses rios que secam” e “meu bailar sem peso algum” pode não significar coisa alguma. É “o tempo vestido de antes”, “a desrazão ordenada” e “dessa falta que leva ao fundo” ou “aos desejos do fundo”, “a moça tece embaraços” para “surpreender os vazios” e para tornar “os silêncios mais sentidos”, mesmo “soprando a noite pelas bordas”.

Aparelhada em dedais, poetiza à la Manoel de Barros: “cato minúcias”, “que a madeira cansada contrai” e assim, para sempre em-sempres, “lá vai o homem” que somos, que nunca seremos, que descartamos ou que ainda esperamos ver nascer. O sentido de Ulisses, em NUNCA ESTIVEMOS EM ÍTACA, reforma sua alma ao ver escrito que “a vida coabitava janelas” e que “a fúria dos calendários” é o novelo das “linhas que intentam frágeis costuras”. Por sua vez, Penélope, que há anos o esperou, “pensa na reta que liga” o “tudo ali inexistindo”, “o inventário de uma fuga” num estatuto onde “não há cercas nem cárceres” de onde “não dançamos aquele blues” nem foi preciso “repetir domesticidades”. Penélope é a própria Ítaca desabitada, assim como Ulisses, como eu e como você. Ítaca é a manjedoura que aquece o dorso das crianças que nunca deixaremos de ser.

Ao fim da jornada impressa em suas páginas, NUNCA ESTIVEMOS EM ÍTACA simboliza o grito de uma Penélope ameaçada pelas falácias do mundo, mas que não desiste de enxergar o que o mar pode lhe trazer no próximo leque de espuma branca. Como a beber em Konstantinos Kaváfis, Delias enaltece o caminho, como a dizer-nos QUE VIVAMOS TUDO O QUE FOR POSSÍVEL VIVER!, pois mesmo que o caminhar siga “repetindo aquelas doces mentiras” que ora nos travam ou nos emparedam, “há um nome dentro do meu nome”, um nome feito de esperança - “e dançamos à margem do dia”, estás a lembrar? -, e “há que tomar as vendas” e “alimentar os dragões” da bondade para que os meninos de todas as dinamitadas Gazas nasçam sem o horrível medo do mar. Afinal, todas as ilhas nos deixarão partidas.

Ou chegadas.

NUNCA ESTIVEMOS EM ÍTACA (Patuá, 2015), de Daniela Delias.

Daniela Delias escreve em Sombra, Silêncio ou Espuma