domingo, 29 de novembro de 2015

Varrimentos

*

para o sensei Assis


BARAI

pés em base,
varredura em giros,
imitação de eixo-sol


GYAKU

inverter o centro,
ser a lua no dia claro,
reescrever o verbo


KAKATO

defender-se das flechas,
respeitar nossa vulnerável
mitologia de Aquiles


KIHON

fundir-se ao chão,
cursar o rio das brisas,
amar o que se move


MAWASHI

fazer redemoinho
com o pó das forças,
ser o ponto circular


KUMITE

avançar com fé,
ser a livre cautela,
compreender a pausa


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Karate-Gi-95278788

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Nada muito sobre filmes (Parte XXI)

*
Por Germano Xavier


NARCOS

Quando pequeno, escutava sempre nos jornais alguma notícia sobre os famosos cartéis de Medellin e de Cali. Sem suspeitar direito de quase nada daquilo que era veiculado pela mídia da época, as notícias entravam por um ouvido e saiam por outro. Ao assistir a primeira temporada da série NARCOS, do diretor José Padilha, que conta em giros um pouco da história do traficante colombiano Pablo Escobar (Wagner Moura), pude perceber a magnitude da trama que era motivo para todas aquelas notícias. Ficção ou não, decerto que dá para se aprender um tantinho mais sobre América Latina assistindo ao referido material. Recomendo a todos os mortais!


ATARI: GAME OVER

Fiz parte da geração Atari (ainda tenho guardado em casa um modelo 2600, em perfeito estado de conservação). Antes da entrada da Sega e da Nintendo no país, jogávamos Pac Man e Space Invaders, clássicos ali no fim dos anos 80 e início dos 90. Éramos extremamente felizes com aqueles parcos bits de entretenimento. Muita gente aqui sabe do que estou falando. O documentário ATARI: GAME OVER (2014) mostra o famoso caso do enterro dos cartuchos do jogo "ET - O extraterrestre" na cidade de Alamogordo, no estado do Novo México, maior fiasco da empresa e, como apontam, o motivo que levou a Atari à falência pouco tempo depois de seu lançamento. Para os que viveram um pouco desta febre, vale a pena dar uma olhada. Sigamos, bucaneiros!


A MARCHA DOS PINGUINS

De uma beleza impactante é o documentário A MARCHA DOS PINGUINS (2004), dirigido por Luc Jacquetcada. A película mostra a saga anual vivida pelos pinguins imperadores durante o período do inverno na Antártica, um dos locais mais inabitáveis do planeta Terra. Para fins de perpetuação da espécie, os pinguins marcham em fila indiana por longos meses e quilômetros em busca de um local seguro para a procriação e lá permanecem (os machos) por quatro meses praticamente imóveis vencendo uma temperatura de -70 graus, enquanto que as fêmeas fazem o percurso de volta em busca de alimento para os filhotes que irão nascer sob os auspícios dos machos. A natureza e sua extrema poesia. Assistam, bucaneiros! Recomendo a todos os mortais!


UMA PROVA DE AMOR

UMA PROVA DE AMOR (2009), de Nick Cassavetes, é daquele tipo de filme que faz embrulhar tudo por dentro da gente, em rompantes de tristeza e redenção. Emocionante, dramático, belo e ao mesmo tempo singelo. O direito à vida num enlace de duas razões diversas. O "politicamente correto" colocado em questão quando das perspectivas de usufruto de nosso próprio corpo. Está longe de ser uma obra de arte, mas vale muito a pena dar uma conferida. Sofia Vassilieva em atuação digna de louros. Recomendo a todos os mortais!


TARJA BRANCA – A REVOLUÇÃO QUE FALTAVA

De Cacau Rhoden, o documentário TARJA BRANCA - A REVOLUÇÃO QUE FALTAVA (2013) percorre um canal ímpar de depoimentos de pessoas já "grandinhas" para esclarecer um pouco da boniteza que tem o ato de brincar. Se você se encaixa naquele grupo que jamais permitirá que a sua "criança-interior" morra dentro de si, a presente película o levará a fortificar tal engajamento. Para muitos, pode ser transformador. Não deixem para depois, bucaneiros! E um feliz Dia das Crianças a todos nós, seres brincantes em essência!


MAGIA ALÉM DAS PALAVRAS: A HISTÓRIA DE J. K. ROWLING

MAGIA ALÉM DAS PALAVRAS: A HISTÓRIA DE J. K. ROWLING (2011), é uma produção cinematográfica em tons de biografia. O filme narra um pouco da história da escritora britânica, criadora da saga Harry Potter. Mesmo sendo uma produção de qualidade duvidável, com atores que não inspiram segurança, assisti-lo pode se tornar interessante, especialmente para quem é fã do mágico bruxinho, que a fez vender milhões de livros em todo o mundo. J. K. Rowling é um ícone de nossos tempos e sua obra merece um olhar atento, sob diversos ângulos. Que tal começar por aqui? Paul A. Kaufman é o diretor.


HISTÓRIAS MÍNIMAS

HISTÓRIAS MÍNIMAS (2002) é um drama argentino dirigido por Carlos Sorín. No filme, três narrativas (três personagens) se entrecruzam pelos arredores da Patagônia. Oriundos de um pequeno distrito ajuizado no "fim dos mundos", uma moça sai com seu filho pequeno em busca de um prêmio que ganhou num programa de TV, um ancião foge de casa em busca de uma reconciliação com seu cão e um vendedor de adesivos para emagrecimento instaura uma pequena jornada em prol de um novo despertar amoroso. Cada qual descobre um pouco de beleza na força de seus ingênuos e incertos passos. A felicidade vista como uma questão de tentativa, de não desertar. É um filme bonito, daqueles de inflar o peito da gente. Recomendo a todos os mortais!


GÊNIO INDOMÁVEL

GÊNIO INDOMÁVEL (1997), do diretor Gus Van Sant, é um cativante drama que se passa na cidade norte-americana de Boston. O filme centra-se na figura de um rapaz de aproximadamente 20 anos, personagem encenado por Matt Damon, cuja natureza rebelde e confusa parece não permitir que ele se "encontre" no mundo. De repente, um professor da universidade onde ele trabalha como servente, descobre que o jovem é um gênio da matemática. O professor tenta acompanhá-lo e incluí-lo no mundo científico, mas é na companhia de um analista que Will começa a se descobrir de verdade. Para ver e rever. Recomendo a todos os mortais!


* Imagem: http://www.guiadasemana.com.br/cinema/noticia/classicos-do-cinema-mudo

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

As árvores amorosas (Parte XXIX)

*
Por Germano Xavier

poema para a mulher que amava a nonna 


luar de luz, mata adentrada,
reino inteiro de vaga-lumes
cavalgado no redestino.

tu abraças a nonna, em despedida,
alteias a aurora em boca seivada
- dominâncias de flor furtada.

és altiva, em seus locais de quem,
moradeira de gostos e tambéns,
risco pontudo no centro de um sol.

inventemos o amanhã dos julhos

após o fogo nos descalços pés,
tarde engolindo remadrugadas,
muco extraindo tórridas horas.

de mim,

terás (sempre) a verdade dos tímpanos,
a doçura das desnaturezas,
a amarga saudade das incertezas.

de ti,

o desejo para o fel dos potes,
lama ácida de tuas fugas, prestes
a doar-me à infausta noite escura.


*Imagem: http://www.deviantart.com/art/Magical-tree-412733201

Ciabotti e a pressa dos hojes

*
Por Germano Xavier

Zé Alfredo Ciabotti possui um fraseado célere, permeado com as nuances cotidianas visíveis das grandes cidades. Descreve, nas páginas do seu recente O AMOR PODE TER FIM e outros contos, uma porção dos pequenos grandes acontecimentos do mundo. Como a nos indicar sentenças de vida a cada fato disfarçado de natureza morta, o autor mineiro escaneia a outra face das vidas comuns a nos reportar sobre o fantástico de nossas caminhaduras.

Um breve papeado com o uberabense Ciabotti:


1. O que nos contam suas “personas ordinárias” em “O AMOR PODE TER FIM e outros contos”, Ciabotti?

Contam o que o mundo apressado de hoje não quer parar para ouvir, ver ou sentir.


2. Por que o conto, Ciabotti?

Uma forma mais rápida de me comunicar com o leitor e, sobretudo, um bom jeito para formar leitores, pela dinamicidade e velocidade da linguagem do conto.


3. A realidade é quase o todo da mancha gráfica em “O AMOR PODE TER FIM”. O moinho de sua literatura roda nesta direção, Zé?

Sem dúvidas. A vida real e crua, com uma pitada das minhas inquietações. O que escrevo é parte do que vejo e ouço por aí, somado à minha indignação.


4. Seu livro projeta ares de produção e distribuição alternativas. Seria esta a solução para o escritor que deseja ser lido?

Sim.


5. Qual o lugar da literatura neste nosso mundo, Zé?

Provocar e libertar.




*
Imagens: Google e Arquivo Pessoal do autor.

domingo, 22 de novembro de 2015

Um turno comigo

*
Por Germano Xavier

manhã descoberta, um sol tardio
- assaz comigo me desapareço.
de marfim o dia ao meio é feito.
o desgaste de me pensar onde pernas
se dobram e o ademais é perigo.

pensar que não posso comigo
é perder o posto de homem.

equinócio
(nem tudo se iguala)
- dentro de mim, quando me desavir,
o outro que sou me desconhece.

se ir me fosse posto, duro castigo,
se de mim me fosse quisto um rotar fugido,
partir-me, hemisférico, seria o dito
de que me trago a mim
(esta parte outra)
como a um inimigo?


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Lines-of-life-573770383

domingo, 15 de novembro de 2015

Lambedouro

*

Por Germano Xavier
#soschapadadiamantina



"Candombá, dá providença!
Faz o teu fogo quemá
Ô pulo meno isquentá
Dos guverno a indiferença
Quema os papé das pendença
Dos vidraçado salão
Reduz a cinza os ladrão
E mostra no teu luzi
Que nos mapa do Brasi
Tomém inxeste o sertão!"

(Tude Celestino de Souza, 
trecho do poema CANDOMBÁ)


No punhal do diabo, o golpe insano,
no homem humano, um choro-botão.
Lambedouro de chagas, fogaréu-mucugês,
canbombás ressequidos teimam morrer.

Sincorá do Espinhaço, forte e centro baiano,
Marimbus moribundo e uma Mixila sangrando.
Fumacinha, Mosquitos, Paridas, Morro Branco...
de um verdume doente e de um mal a roer.

Foi homem, foi homem? Quem foi a lançar
a brasa-desgraça a crepitar o Capão?
Lacrau deslavrado, um solo de mortos,
a dor mina o rio e minh’alma caatinga.

Bacia, serra dos mitos, Pai Inácio das lendas...
Ramalho, Camelo, doces Campos de São João,
em cada episódio as chamas, Andaraí
e Paty, varrem fundo meu coração.

Minha Iraquara das grutas, nossos Lençóis
diamantes, brigada de luta nos abafos guerreiros.
Espera o Guiné por um sol bem melhor, ou por
um rio Preto inteiro em prior do céu despencar.

Ibicoaras e mocós em dança-esperança,
Igatu e Palmeiras, sem veias, sem vida.
Bravo fogo castiga nossa mata, intenção,
e é a morte tão viva em cada alma-estação.

Mas somos da alta-corte dos quebra-ventos,
meu garimpo é escravo de uma fé sem prisão.
Nacionais forasteiros e de um todo mundano,
Roncador sopra o fogo e põe no Caldeirão.

Águas Claras marinam o foco da turba,
dantesco infernal no dorso do Cardoso.
Andorinhas e Três Barras, os Cristais viajantes,
Véu de Noiva esconde o Buracão em sufoco.

Barbárvores encravadas nas pedras erguem-se
em livramento. Rochas calcárias, terras glaciais,
vozes de imortalidade ouriçam as gentes,
e a Chapada, clemente, renasce por nossas mãos!


*

Imagens: Chapada Diamantina/Google.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Danação

*
Por Germano Xavier


o que pode um escritor é pouco
o que pode um pouco pode tudo
a palavra é uma escola de universos
o texto é o osso do que pulsa
onde dentro de subgêneros musicamos
o preto & branco

o que pode uma narrativa é oceano
oficinamos (nela) nossa própria colocação
de ser - ser o melhor poema é pouco
o que pode o poema pode doer
pode não ter tempo
pode não ter espaço
e o que fica bom não passa de ideal

somos o dom
somos o dom que trabalha

o que pode ser tem aura de ouro
o que foi feito pode ser desfeito
como numa face a definir vários nãos

o que pode um verbo é muito
o que pode muito pode quase
(lembremos o vasto mundo, vasto vasto)
minha aptidão diz: - Escolha ser Rei.
então, curvo-me a escrever:

Oh, danação!


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Drowning-571791162

domingo, 8 de novembro de 2015

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte IX)

*

Meu amigo querido,

Desde a nossa última conversa (Céus, como o tempo corre depressa!), tenho estado a passar pela vida de forma interventiva ou mais contemplativa, alternadamente; as palavras que me trouxeste e as outras que procuras em mim têm estado permanentemente no centro das minhas preocupações. Delas me servirei hoje para quebrar um pouco desta ausência e mitigar a distância que agora se condensa num gesto de aproximação em papel, através da palavra. (desculpa, mas eu vejo sempre uma folha de papel quando escrevo!). Distância aliás fictícia, pois nós estamos sempre a dialogar pelas muitas linhas com que se cruzam os nossos interesses e pela estética que partilhamos, pelos fogos que nos incendeiam, pelas manifestações de arte diversas em que os nossos olhares se prendem num mesmo alvo.

Poetas, cantores, cineastas, filmes, obras literárias e momentos da vida social e política da nossa aldeia cada vez mais global acabam por atrair as nossas atenções e assim nos encontramos à porta das palavras, de um conceito, ou de um(a) artista que ambos admiramos ou procuramos conhecer melhor. O processo criativo é um parto. Um parto sofrido. Acho que já tenho partilhado esta angústia contigo. Não é um parto rápido, daqueles em que as águas rebentam e tudo se resolve em minutos, mas antes daqueles em que as contrações duram mais de 24horas e a pessoa vai sofrendo, acocorada, acordada, esperando o momento da libertação, assobiando e trauteando canções.

Um parto de primípara, no caso da escrita, ainda que se tenha já alguma experiência, cada novo texto, cada linha, é um mundo novo que se abre e as experiências passadas são só memórias irreplicáveis e romanceadas pela distância no tempo. Falo por mim, claro. Coisa curiosa, sabes que eu sou atenta a pormenores: quando escrevia “caso”, inadvertidamente surgiu a palavra “vaso” no ecrã… então fiquei a pensar se a escrita não terá também alguma autonomia e se não seria melhor deixar ficar essas palavras que não escolhemos, vendo que histórias elas nos poderão contar…um dia eu faço isso, vou ousar enviar-te um texto não editado, com todas essas gralhas, para ver que enredos se desenham no meio da inexatidão desse português coxo que se escreve sozinho. Deixar de policiar as palavras e que elas se desnudem despudoradamente diante de um (im)possível leitor (só teria coragem de fazê-lo contigo, creio eu, pois saberias encontrar nessas palavras mancas outras histórias por contar).

Agora, tentando ser mais pragmática, lembro-me sempre daquela frase do meu irmão, que é esta: “semeia-se todos os dias mas só se colhe de vez em quando”. (Se me repetir, avisa, estou a chegar àquela idade interessante em que se contam as mesmas histórias vezes sem conta e parecem sempre novas e divertidas!). Eu ainda estou no tempo de sementeiras que desejo férteis, esperando uma colheita que tarda. Por vezes, o desânimo instala-se, momentaneamente, para logo dar lugar a um novo alento. Também te acontece? Também te questionas se estás no caminho certo?

E aqui chegamos à literatura, ao lugar onde a encontraremos. Diz à tua professora que a procuramos todos os dias e que com ela nos esbarramos seguramente sem mesmo termos consciência disso.

Eu encontro-a no homem que lê o jornal desportivo no café, na mulher que desenha na bula de um medicamento, no casal de idosos que se amparam caminhando devagar pela traiçoeira calçada portuguesa, mãos dadas e olhar cauteloso toldado pelas cataratas e pela humidade dos dias. Encontro-a no imigrante que vive à margem da correção formal das modernas sociedades com o único fito de dar uma educação aos filhos. No velho que finge que gosta daquele programa de televisão sem conteúdo - que lhe impingem diariamente - mas em cujo sorriso, ausente e vitorioso, se lê uma vida cheia de beleza e detalhes exuberantes. Um velho que não tem medo da morte porque ele é já um pouco a própria morte que se diverte com a mediocridade dos que vivem entre sombras. A literatura mora naquele outro casal improvável preso à rigidez das normas (s)em sentido único, que se apercebe que ser feliz é ter consciência do momento presente. Que sabe andar sob a chuva, andar sobre águas, desfazer-se em desculpas sem mágoas. Literatura é ir além do óbvio, descrever a realidade como se fosse mentira, desenhar mundos insuspeitos, dar voz àqueles que não a sabendo usar, têm algo a dizer. Pintar as árvores de roxo e pôr canários a costurar e macacos a fazerem próteses dentárias. E leões ao volante de um BMW e gazelas a dançarem kizomba. E velhas senhoras com sorrisos dóceis de meninas transformarem-se em sereias. E marinheiros nos saraus de poesia, e prostitutas fazendo tapetes de Arraiolos. E literatura é também procurar Penélopes em cada esquina de uma sombria sala de costura, desfazendo o tempo que teima em cobrar decisões inadiáveis.

Talvez seja um pouco este o lugar da literatura, omnipresente nas nossas vidas, longe dos holofotes e dos circuitos meramente formais de distribuição, caminhos quantas vezes enganosos. Perdoa-me se extrapolei…deixei-me levar pelo teu desafio. Apenas.

A tua última carta foi escrita a 10 de Setembro. Que terás vivido deste então? Que pessoas terás influenciado – positivamente, sempre - com a tua boa disposição, coerência, talento e doçura? Por aqui os meus caminhos cruzaram-se com pessoas improváveis; vou dialogando como posso, aprendendo, inteirando-me de outros mundos. Onde a honra tem um lugar cimeiro, onde a sobrevivência dita as regras e as palavras que usamos, tu e eu, fazem pouco sentido. Só os gestos contam, mundos povoados de rituais e de normas práticas autoaceites e amplamente difundidas.

A arte e todas as suas manifestações estão sempre no meu pensamento, nos meus anseios maiores. Tudo o que eu testemunho e vivo é suscetível de transformar-se em arte também. Tenho amigos que já não querem vir tomar café comigo com receio de se transformarem em personagens meus… brincadeirinha. Eu sei desligar o “complicómetro” quando estou entre os meus.

E agora, meu amigo, mando-te essa imensa saudade que advém, não só da distância, mas sobretudo da suave consciência da ausência.

Quero muito ler-te em breve, tão logo a tua vida cheia to permita.

Um beijo muito grande,
Clara.

Lisboa, 20 de Outubro de 2015.


*

Clara,

Incrível saudade é a que sinto, de nossas trocas, de nossos compartilhares. Dias tão mornos de vida passando, nada muito a me surpreender por aqui. Ruim isto, viver sem aquele pulso vital que faz a gente reluzir mesmo imerso na mais tenra escuridão. Porém, vem você assim para salvar de tais agruras, sorrateira, a me enviar seu feixe de luz e tudo se aclara, Clara!

Por cá, tenho me detido a ler, ler cada vez mais. A leitura, esta prática que me faz sentir coisas tão boas desde muito novo. Tenho lido bastante, livros e revistas que há tempos esperavam meus olhos fumegantes, sedentos, esfomeados. Fico feliz quando consigo prosseguir livremente neste ato. Ando revisitando um pouco os autores russos e alguns norte-americanos. Tenho lido bastante poesia também. Nos últimos meses, li livros fantásticos de autores conhecidos meus, de gente próxima ao coração. São como presentes para a alma.

Clara, você, alguma vez, já sentiu uma vontade imensa de fazer todas as coisas ao mesmo tempo e, ao fim do dia, quando as luzes se apagam, percebe que não conseguiu fazer absolutamente nada? Tenho vivenciado isto não raramente. É de causar na gente uma angústia perfurante. Não sei bem explicar a você como tudo acontece. Sensação de vazio. Chega a ser constrangedor. Um rombo na gente. Acontece mais quando estou pensando em escrever algum texto. Tenho vontade de escrever sobre muitas coisas, e nada. Nada acontece. Uma espécie de desânimo movendo a falta de ação... Uma dor nascendo. Você me fala sobre essa coisa da escrita ser um parto, e eu recordando destes meus casos de momento.

Pois faça tal experiência, Clara. Deite o verbo por sobre a “página” e permita que o texto caminhe sozinho, posto que é, ele, deveras um ser-centopéia, com mil pés, e com vontade própria. Quero ver como fica. Queremos. Estes aparelhos nossos diários, celulares e tablets e outros, possuem dispositivos de coleta que, ao menor descuido, fazem-nos reféns de suas conclusões binárias acerca do que está sendo digitado em seus teclados virtuais. Tudo por uma questão de celeridade. Troço-mania. Mundo que não pode estancar. Humanidade movida a turbinas. Haja pressão.

Sempre me questiono, Clara. Sempre penso que estou gastando tempo demais com coisas que no final não farão sentido algum para mim. Sempre paro e reflito: preciso mudar. Mudo, nem sempre o tanto que eu queria. Insisto em outras, dou de cara contra a parede, esbofeteio muros duros. Sangro. Se certo ou errado, o caminho, complicado inferir. Tenho constantes desejos de parar com tudo, de desviar a rota geral e pegar o caminhozinho mais vicinal, aquele de terra batida, andar para dentro dos matagais de nós todos. Descobrir as fontes. Vezes, bate um medo. Fiz isso algumas vezes e me observo no agora. Certo é que somos feitos de escolhas. Algumas, é claro, precisam esperar. Apesar de muitas vezes me sentir triste por tais afetações sensoriais, sou alegre e esperançoso. Consegue entender o que lhe digo?

Já falei a você, Clara, para não tecer este tom de perdão entre nós dois. Perdão, pelo quê?! A descrição que você fez sobre o lugar da literatura no mundo foi fantástica. Motes são para geração de outras estórias. Confesso que li, reli, treli, em consonância com suas palavras tão bem postadas. A literatura habita vários recantos. Habita todos os cantos. A literatura está em tudo. A literatura não está em tudo nem possui um lugar no mundo. Encontra-se, ela, em nossos olhos, retinas. Muito, muito clichê tudo isto, mas não menos verdadeiro.

A solidão me tem sido companheira desde o dia em que nos falamos, Clara. Uma solidão de andar só em muitos momentos, caminhar caminhos escuros, que só você pode trilhar, sem poder contar com o apoio de mais ninguém. Solidão de deixar que coisas sem brilho nos abatam. Amigos me faltam. Outros me suprem. Pouco contato social, alguns alívios ali ou acolá, mas nada muito de alterar rotas dentro de mim. Porém, nada que possa me deixar inútil. Sou castigado pelo tempo que me fiz descobrir ao longo de meus 31 anos de idade. Já sei me aparar em pedras pontiagudas quando esboço uma queda de grande altura. Muitas coisas andam me podando as asas. Todavia, possuo-as. E é bom saber que as possuo. E, depois, os dias passam e tudo muda. A gente sabe.

Meio silencioso na noite descida, despeço-me por hoje.
Amanhã é uma segunda-feira e tudo se renovará. Até a fé.

Beijos agrestinos,
Viana.

Caruaru-PE, 08 de novembro de 2015.


********

Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens de Cristina Seixas.

49 passos para se cruzar um infinito

*

Por Germano Xavier

A portuguesa Luísa Fresta, natural da cidade de Braga, encaixa-se perfeitamente naquele grupo de artesãos da palavra que gosta de esmerilhar a sua matéria-prima até vê-la reluzir em mais profundo e verdadeiro brilho. Dona de itinerários formativos vários, Luísa tem uma alma mista, composta de uma Europa infante e de uma África de desbravamentos. Angolana de coração, estudou engenharia civil na França. O manuseio vital para com a palavra é brotado já de longa data. Escreve contos, crônicas e poemas. Poemas que, em caso de reunião de alguns, deram origem ao seu livro 49 PASSOS - ENTRE OS LIMITES E O INFINITO, publicado em 2014 pela Chiado Editora.

A obra é recheada de projeções de memória, burila uma saudade do passado, infere sobre o amor e sobre a dor, em toques suaves e verazes, sem nada deixar a sujo em termos de construção. Dona de uma poética límpida, Luísa Fresta vai se revelando, a cada passo/poema, a um dom possuidor de encantos voltados para o olhar simples acerca dos acontecimentos da vida. Simples, não simplório. 49 PASSOS é um esforço para o encontro, um curto manifesto sobre a sinceridade, um conciso aparato poético cuja função maior é o sensibilizar. Num mundo onde a razão enegrece nossas frações emocionais a todo instante, tal característica revela-se no mínimo interessante.


Outros passos com Luísa Fresta:


1.Luísa Fresta, 49 passos separam os limites do infinito?

LF. 49 Passos são aqueles que me conduziram até estes textos, a uma orla que se pretende o início de outra estrada, em direcção a esse infinito intangível, mas do qual tenho uma consciência aguda.

2.Em muitos de seus passos poéticos, percebemos a escolha pela forma clássica do soneto. O soneto é mesmo atemporal? Até onde vai sua preocupação com a forma em seus poemas, Luísa Fresta?

LF. Germano, essa preocupação é real, sim! Eu acho que a forma do soneto não está ancorada em nenhuma época, enfim, não se diluiu no tempo… para mim, continua a fazer todo o sentido, lembro constantemente sonetos de Vinicius de Morais, de David Mourão Ferreira, de Verlaine; para mim, o soneto satisfaz uma procura obsessiva (que eu assumo) da musicalidade das palavras, do ritmo - na verdade eu gosto de ter essa estrutura musical para que as palavras façam mais sentido umas junto das outras e adquiram essa harmonia de conjunto. A forma, para mim, é tão relevante como o conteúdo, como bem intuíste; temo que este aparte possa parecer superficial, mas realmente creio que qualquer coisa pode servir de objecto poético, uma laranja, a neblina, uma curva da estrada, uma noite interminável… desde que olhada com ousadia, inovação, originalidade, sob um angulo novo ou renovado.

3.Em algumas passagens, uma África borrada em saudades várias é cantada, louvada. Qual a África que pulsa em 49 passos?

LF: Essa África está sempre presente. A minha (África) é sobretudo Angola, e a cidade que me acolheu na infância: Benguela. Curiosamente tenho muito mais tempo de vida noutras cidades, mas é esta a que eu considero verdadeiramente minha, que carimbou a minha identidade. A cidade ensinou-me o cheiro da chuva na terra, a simplicidade do convívio, todas as mestiçagens, as acácias rubras, as rosas de porcelana, a praia morena, a baía Farta, a baía Azul, a sonoridade suave do Umbundu e o pirão de milho. E um sotaque que permanece comigo ao cabo de décadas. Eu tenho um olhar universal sobre as coisas, mas não posso deixar de perceber de onde venho, para depois me agarrar às coisas e entender o mundo à minha maneira. Muito Benguelense, necessariamente (risos). Nem chega a haver motivo para saudades, sabes? Benguela, Luanda também, mas de uma forma mais ténue, Angola, estão sempre presentes na minha criação, na minha maneira de encarar o lazer, de pensar na família, nos amigos de infância. Eu continuo a senti-la pulsar através da música, da dança, da literatura, do cinema e das memórias e ficções que me chegam regularmente do meu pessoal de lá, ou dos “diasporenses” que como eu, recriam insistentemente Angola dentro de si.

4.Esperança, sonho, medo do erro repetido e desejo de mudança, além do amor imperioso, são alguns dos caminhos por onde o eu-lírico transita em 49 Passos. Quais são os outros segredos desta jornada, Luísa?

LF: Olha, Germano, para além desses caminhos que encontraste nestes textos, posso dizer-te que 49 Passos representou, sobretudo, uma enorme porta que abri, a duras penas, que vou abrindo, para uma outra dimensão da vida e para o poder das palavras. O segredo desta jornada é prescindir de alguns bloqueios, ousar romper com a zona de conforto e com uma espécie de tédio intelectual, deixar que as palavras escolham os seus próprios alvos; há alguma autonomia neste processo criativo, que me exclui, no qual eu me sinto mera leitora da palavra já pronta que se oferece em espectáculo. Não sei se serão segredos, mas talvez zonas de nevoeiro e sombra nas quais adivinho ainda muito por descobrir e inventar.

5. Da admiração por cidades, como a citar Benguela, Nancy e Havana, até cantos destinados a plantas típicas do deserto do Namibe... 49 Passos tem um pé na observação geográfica do mundo. Como o conjunto de sua obra se serve de tais (inusitados) incrementos, Luísa?

LF: Olha, é interessante reparares nisso. Ninguém existe sem um espaço, sem um enquadramento real, sem um chão para pisar e deixar vestígios, sem um mar para olhar ou cantar. Eu encontrei essas influências nesses lugares todos, hoje acrescentaria algumas outras cidades/culturas como Lisboa, como a Praia, em Cabo Verde, pelas mornas, pela literatura, pela língua, pelas pessoas. Há uma cidade que eu nem conheço, no sentido de que nunca lá estive, mas com a qual tenho uma afinidade profunda, desde sempre: Havana. Talvez nem seja bom eu ir lá, para não desmistificar e romper com esse quadro de idealização da cidade, não é? (risos) Mas conheço de outra maneira, não a sua geografia, por não tê-la tateado, mas a sua gastronomia, música, recantos e a sua memória. Já é um começo para se amar uma cidade. O deserto do Namibe tem aquela flor magnífica que é característica do local (a Welwitschia Mirabilis) e que me fez olhar os grandes espaços e o horizonte com outros olhos, o deserto do Namibe, em Angola, o Sahara, e todos os desertos que nos povoam. Eu gosto de perceber que as pessoas são moldadas também pelas suas terras de origem, para além das vivências e da parte genética. Alguém que nasceu numa ilha, num meio rural, entre um engenho de aguardente, em meio a sete irmãos, e esperando eternamente uma chuva que não vem não pode ser igual a outra pessoa que nasceu e cresceu numa terra fértil com árvores frondosas e cheiro a banana seca pelas manhãs. Essas coisas ajudam a forjar uma personalidade, um apego a valores, a criar estruturas duradouras. Por isso eu quero dar alguma relevância a esses pormenores estáticos, a essas coordenadas geográficas, culturais, que tiveram influência na pessoa em que me fui tornando.

6. Luísa, por favor, um poema do livro que você considera bastante relevante.

LF. Rotas Paralelas, que segue assim...

"Para ti os abraços
São estilhaços de costelas
Pintam hematomas nos braços
E perpetuam esquálidas sequelas

Para mim os abraços
São suaves nuvens de calor
Fundem em nós inabaláveis laços
Desmantelam resquícios de rancor

Para ti uma viagem
É um reencontro permissivo
É uma despedida, uma paragem
Um silenciar intempestivo

Para mim uma viagem
É uma fuga cega para a frente
Redescobrir-te algures na bagagem
Saber-te comovido e comovente

Para ti um termo
É uma palavra inconclusiva
Ausente dos teus cem termos
(E se a soubesses seria decisiva…)

Para mim um termo
É um estrito e rotundo Não
Que me surge só de um lugar ermo
Longínquo e numa outra dimensão

Para ti as horas
São só minutos ímpares
Que arrumas onde não moras
São migalhas do tempo que ocupares

Para mim as horas
Convertem-se numa eternidade
Que em segundos devoras
Com laivos de cumplicidade

Para ti o encontro
É um espaço brutal de exaltação
De breves palavras e de reencontro
Laboratório da paixão

Para mim o encontro
É uma conversa visceral
Após um breve desencontro
Um longo desengano virtual

Para ti a palavra
É a não-dita, é a ignorada
É na verdade a falta de palavra
A cada instante mais silenciada

Para mim a palavra
É o verbalizar do que perdura
É uma chuva de ternura
Oferecida gota a gota"


49 PASSOS - ENTRE OS LIMITES E O INFINITO, de Luísa Fresta. (Chiado Editora, 2014)

Alguns dados relevantes:

* Em 1998, a autora participou, em Portugal, do concurso de contos curtos “Expo 98 palavras” no qual viu o seu conto CRIME publicado juntamente com cerca de outros 100, entre 2.364 candidatos.

* Em 2013, ficou classificada em 2º lugar no 9º concurso online – II Prêmio Licinho Campos de Poesias de Amor (Brasil) com o poema SONETO DO AMOR NO FEMININO. Também nesse ano obteve o 2º prêmio no 1º Concurso Internacional de Literatura de Alacib, na categoria “Crônica” (Brasil) com o texto intitulado OUTROS CAMPEONATOS.

* Em 2014, o seu poema TALVEZ foi considerado um dos melhores 50 apresentados a concurso e incluído numa coletânea publicada pela Academia Jacarehyense de Letras promotora do 8º Festival Internacional de Sonetos.

* Em 2015, o seu poema PEQUENO BILHETE foi selecionado para integrar uma antologia a ser publicada no dia da poesia pela Chiado Editora. Nesse mesmo ano a sua crônica LUANDA, aliás "São Paulo da Assunção de Loanda" foi escolhida para inclusão numa coletânea a ser editada pela Casa do Poeta Brasileiro de Praia Grande-SP.

* Publicou em 2012 e 2013 uma série de crônicas enquadradas num ciclo dedicado às décadas de 70/80 da vida em Luanda, através do Jornal Cultura - Jornal Angolano de Artes e Letras (http://jornalcultura.sapo.ao/) com o qual colabora regularmente e publicou também pontualmente em diversas publicações (revista moçambicana Literatas, revistas brasileiras Samizdat e Subversa, e site de crítica de cinema, Africiné (www.africine.org), do Senegal). Desde Outubro de 2013 escreve quinzenalmente no portal brasileiro O Gazzeta, (www.ogazzeta.blogspot.com.br) e desde Novembro de 2014 assina duas colunas na METROPOLIS, revista portuguesa especializada em cinema).

para outras informações, entre em contato:

https://www.facebook.com/luisa.cartaxofresta
https://www.facebook.com/49Passos/


Imagens: Arquivo pessoal da autora/Google.

sábado, 7 de novembro de 2015

Manoel de Barros, meu amor

*
Por Germano Xavier

"Agora não quero saber mais nada, só
quero aperfeiçoar o que não sei."
(Manoel de Barros)


Se um dia eu tivesse a oportunidade de conhecer o nosso tão estimado poeta das “coisas desprezíveis”, Manoel de Barros, não ia, jamais, almejar sair tagarelando com ele chatices alheias sobre o mundo das normalidades cotidianas. Ia, sim, querer saber se ele poderia me conceder a honra de um passeio por sua fazenda a passos bem lentos, com ele a me contar sobre lesmas e caracóis, com ele a me estupendear acerca das pedras e dos sapos.

Que com ele, amigo, é assim. A gente aprende a se coçar por dentro. Coçar, tanto e tanto, até sair borboletas da gente. Num passeio assim, decerto que eu ia aprender até que, se cultivarmos bem, viver a vida inteira na infância não é nada mal. Só ter infância é fantástico, é o que nos ensina o seu livro MEMÓRIAS INVENTADAS – AS INFÂNCIAS DE MANOEL DE BARROS. Já pensou a gente poder enxergar tudo sempre com nossos olhos ingênuos de espanto e inauguração?

Manoel é um desconstrutor das temperaturas mornas, inventor de linguagens do ver, amador de tudo aquilo que não possui serventia. Eu não sei você, mas durante o passeio, perguntaria coisas mais ou menos assim a ele:

1. Manoel, sapos sofrem solidão?
2. Manoel, os bocós não são os salvadores do mundo?
3. Manoel, o que fazer para ter a primazia das garças?
4. Manoel, isso era não é mania de amar as fontes?
5. Manoel, vamos brincar de lisonjear palavras?

Seria um passeio incrível, amigo. Certeza que, ao final, eu teria tocado o rosto dos dons da poesia através dos olhares e dos meneios do poeta amado. Ou me transformado num passarinho, que seria a mesma coisa.


* Imagem: http://www.vermelho.org.br/noticia/253513-11

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A missão do dia

*
Por Germano Xavier


#1

envoltos num espectro difuso
(eis a missão do dia):
transformar, 
despossuir

um elegante descaso de amor.


#2

Ok. Reclassifiquemos o amor. Vamos transformá-lo num gostar difuso e recatado. Vamos domá-lo com dois chicotes: a distância e o tempo (receita para o arrefecimento natural das paixões). Está feito. O amor, este patinho feio, este coelho branco, este dragão que cospe loucuras, será agora apenas um pobre animal empalhado. Para se guardar no sótão.


#3

se te tocar é violar o lacre
se te descontinuar é refazer prisões
se te conter é preencher vazios
se te cuspir é autoflagelo
se te esquecer é apagar-me
se te apagar é perder-me
se te acariciar é alimentar serpentes
se te revelar é fechar janelas
se te perder é engolir pedras
se te esperar é vagar além
se te sonhar é cair no vácuo
quero reescrever o livro onde nascemos

a carnificina acontece dentro
arrancando os olhos de nossa fé


#4

desculpe,
meu amor,
por tanta ficção

* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Door-by-tony-belobrajdic-556053587

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Raimundo Carrero e o corpo em mutação

*
Por Germano Xavier


ou Quando a vida ficará tarde demais para nós?

Pernambuco, hoje, não é só cinema. Pernambuco, hoje, é também literatura da melhor qualidade. Aliás, sempre foi assim. Só o nome de um Osman Lins já pesaria em afirmação por todos os meus julgamentos... junte-se a ele um Marcelino Freire, um Miró de Muribeca, uma Luzilá Gonçalves, um Alexandre Furtado, verdadeiros guerreiros da arte da palavra, entre tantos outros poetas e prosadores vivos (e outras centenas de falecidos).

E o que dizer de um Raimundo Carrero? Monstro das letras, simplesmente. Pouco lido, é certo. Por falar nele, no Carrero, convenhamos: é dos grandes prosadores de nosso país. O escritor nascido na cidade de Salgueiro-PE lançou em 2015 o livro O SENHOR AGORA VAI MUDAR DE CORPO, cujas tentativas de escrita datam de 2010, quando sofreu um acidente vascular cerebral. É justamente acerca de tal questão que o livro versa, ou seja, sobre a nova moldura corporal que o escritor passa a carregar após o AVC.

Carrero demarca a obra supracitada sob o signo do corpo, espaçando seu roteiro dentro de uma mistura dos significados de corpo com as metáforas do crime, das sombras, das fezes, das aranhas, do Cristo, da arte, dos miseráveis, da política, da luz e de la nave (leia o livro, caso queira compreender tudo aqui exposto). Ao final, presenciamos um escritor em processo de dissecação de si para si, mesmo que o sangue escorra para bem longe dos ralos visíveis, mesmo que não hajam cortes ou interceptações mais invasoras na pele. O que dói, na verdade, é a dor na alma.

O SENHOR AGORA VAI MUDAR DE CORPO lembra-nos logo de cara do Gregor Samsa kafkiano, que se vê desconfigurado, em forma de inseto, e totalmente atordoado por isso. O livro de Carrero é sobre um tipo de metamorfose a que estamos sujeitos, todos nós estamos. Nada muito esdrúxulo e inacontecível. Como bem sabemos, animais mudam de pele. Não somos animais?

Ao passo que detém os leitores dentro de tais detalhamentos corpo-físicos, num esmiuçar bastante protuberante, Carrero burila seu passado com uma pá invisível que escava de maneira profunda suas memórias pernambucano-recifenses. Passeamos, pois, pela história de sua ligação com o movimento Armorial até momentos de extrema intimidade poética, onde o autor nos brinda com referências lítero-artísticas marcantes para a fundação de toda a sua obra.

Indubitavelmente, o livro é um pequeno diamante de nossa literatura contemporânea. Simples, porém inegavelmente aterrador. Um relato sincero de como as coisas podem ficar após um desarranjo de nossa máquina corpórea. Talvez até, um pequeno postulado poético de como se safar de tais agruras, ou mesmo de como dirimir a dor de conversões desta natureza. Dirimir no sentido de amenizar, eu disse. Até porque só conhece a dor quem a possui.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/corpo-I-171824679

Um aparelho humano no caos

*
Por Germano Xavier


A viagem havia sido um inferno. Sabe-se que você passou por lugares muito perigosos. E que a noite não passava. E que a hora se diluía. E que você deixou até uma espécie de mensagem de despedida antes de partir. Seus familiares não entendiam o porquê de tantas fugas. Você, dona de uma rota feita de maneira turva. Sem saber.

Seus objetos numa bolsa minúscula, também não compreendiam seus destinos sem fim. Você era a estrada. Aérea, por terra, por água, estradas. Deste jeito, você. Havia uma janela em sua alma que se abria toda vez que a cortina do tempo recobria a estação do seu ser.

Você, um aparelho humano no caos.

Você chegou cansada. Havia uma reserva feita em um hotel no centro da cidade estranha. A moça perguntou se você queria trocar de quarto. A camareira faxinava o asco dos outros, deixado logo cego ao abandono dos cômodos.

Você era a incerteza. Seus pés flutuavam em planície estrangeira. Sei bem o que isso significa. Sou desses. Fui um desses. Conheço portas descascadas pelas unhas do tempo. Fugi por inúmeras outras. A vida clandestina que nos aumenta a crosta da pele. O couro da alma. Sabido que nisso tudo há fé. A fé é um embrulho comum. O homem precisa de invólucros. Sempre precisou. Quando se chega a terras de ninguém tudo se insinua contra você. O pó se altera. Transformamo-nos em cacos. Percebemos uma ruptura entre o que nos mantém entre o sonho e a realidade. Você sentia a alvorada das transposições.

Você, um aparelho humano no caos.

Repito.

Você estava lá, como sempre, lindo. Como sempre, forte. Como sempre, irresistível. Irresistível de me fazer tremer, de me fazer embrulhar o estômago pela simples aproximação de sua presença.

A porta se fecha e esqueço a fome, o cansaço, os motivos, a fala, viro incapaz de pronunciar qualquer coisa. Você entrou sorrindo, falante, seguro, sereno. Isso me impressiona e me irrita ao mesmo tempo. O seu controle contrastando com o meu descontrole quase infantil. Mas você sabe que eu não sou assim. É apenas o choque por te rever.

Nada parece real, você chega e é outro mundo. Mas é real. Tem o quarto, a cama, a minha fome, a comida que você trouxe para mim. O teu corpo, o teu cheiro, tudo diz que é real. Mas sabemos que não. É apenas um parêntese num texto que insistimos em escrever. É apenas um recorte no tempo. Logo se fechará esta janela e seremos de novo somente lembrança.

Você fica quieto ao meu lado e a paz vem como se nunca tivesse ido embora. Aquela que sabemos e que criamos com os dedos e as palavras não planejadas. Não tenho filtro, você sabe e é com você com quem falo mais asneira. Todas e mais algumas que sei que você não joga fora sem antes pensá-las. Gostamos de pensar. Até em asneiras.

Sábias asneiras, você diz.

A rua estava acesa. Desde a manhã, quatro da manhã mais precisamente. Antes, a praça vazia. Agora, os bancos povoados indicam a euforia dos movimentos, das pernas e das falas. Sim, um aparelho humano no caos.

E no meio de tudo, uma partida.

Sim, eu sou fuga. Sou um abismo em expansão. Uma pedra caindo sem nunca chegar ao fundo. Estou sempre chegando e partindo. Sou estrada. E vou. Eu digo que nunca mais. Mas vou. Fui em busca da parte de mim que está em você. Que só vem quando olho você. Esta é a parte que flutua. Fui porque sou mais do que carne. Fui porque sou fé.

Atravessei medos diversos até seus olhos.

Fui porque só você me resolve. E me revolve. E me devolve o sorriso bobo que finjo não ter para o resto do mundo. Fui para ser. Para sermos. Mas ir não é fácil porque nunca sabemos como voltaremos. Podemos ir flor e voltar cinzas. Perdemos pedaços nas idas e vindas. Pedaços que nunca serão reconstituídos.

Mas eu fui e aquilo aconteceu. Voltei com a alma nua.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/The-pool-of-lies-570093236

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Qualquer embarcação para longe

*
Por Germano Xavier


"Lo que antes me enseñó lo guardo! Es aire,
incesante viento, agua y arena."
(Pablo Neruda)

há motivos para amá-lo:
olhá-lo, entre emissões do sol
e agudas ondas de espuma branca,

unge-me, carne e alma,
o verbo mais raro.

a dor, outra palavra para o amor,
coisa azul-esverdeada e sem lugar,
serve-se em regular as fases de maré
que blindam
nossas alvas vaidades.

o mar,
professor de movimentos,
cobaia para o azul dos céus,
capaz de qualquer patente,
assevera em mim

o coração caudaloso.

suas águas de saudade,
seus moinhos insolventes,
seus ministérios de corais,
suas radiais dobras no horizonte...

o mar salgado, de úmidos seres,
de onde evoluem as emboscadas,

o mar que me agride quando o ouço,
imperiosa música para cais.

mar,

herói de nossos cansaços,
pessoa máxima das lágrimas,
hiato das belezas em arremate:

- em dito teu fim, o que nos sobra?

a manta
de tuas cores areais,
saúdam em mim por armas, suores,
que lançado em teus braços infindos,
podemos

ser de tudo de tão mínimos
e amantes (mesmo que)
em vis instantes.

Praia de Porto de Galinhas-PE, novembro de 2015.


* Imagem: Germano Xavier