quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

A nitidez das horas

*
Por Germano Xavier




sendo muitos /eus/
/sempre/ somos
nós



um Saramago para amar
eu queria ser de alguém
a Pilar

/ou/

uma Pilar para amar
eu queria ser de alguém
o Saramago



não ponham
/no domingo à noite/
uma pena em minha mão


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Oil-Painting-1-581312866

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Pequenas crônicas obscuras

*

Por Germano Xavier


mesmo em segundos

ele não sabe (e nunca saberá) que foi ele que me fez perder quatro anos de trabalho árduo. sim, porque tentar amar (a quem você não ama) é trabalho árduo, inútil e desonesto. ele me fez perder quando apareceu. quando reapareceu e fez-se ele para mim. então, a minha vida passou a ser a esperança de tê-lo, mesmo em segundos, em minha boca.


na corrida, no tempo

naquele dia, ela correu como se fosse dois. ela o trazia tão perto de si, tão dentro, que chegava a sentir o seu cheiro, a sua respiração, a sua calma, seus pensamentos. definitivamente, ele estava ali. no correr dela. no tempo.


se ainda...

não vais me responder se ainda me...?


teus silêncios

teu silêncio, minha pessoa
engolfa-me em tenebrosa escuridão
quebra minha pena
sufoca minha garganta
em ondas de sofrer
(perco a respiração da alma)
quando tu te encobres
de mim, em silêncios de não


receitinha

receita ardida
você em mim
desperdício de mim

post scriptum. perdoe-me por não saber calar a genial estupidez do amor.


insônia

faça-me dormir
ou diga apenas que sente muito
ou fale somente a verdade


intuição indesejada

e não importa o que não me digas
te conhecer é o meu quinhão
(furtado) sei que tu sabes que eu estava certa
sobre aquilo...

post scriptum. é preciso conhecer para amar... ou amar para conhecer? só sei que te saber é o que me mantém querendo.


conclusão

não veio o sono
nem o bom senso
nem a revelação


(suponho que pensarás em me odiar pela manhã. mas desistirás por condescendência e piedade. também não acentue a indiferença e nem coloque mais tijolos no muro de gelo que criei. conceda-me (ou renove) uma ilimitada licença poética. seja bom como só sabem ser os animais e os poetas (e nem pense em me mandar para o psiquiatra. o tipo de que preciso ainda não inventaram.). mas esqueça tudo e faça o que a vontade mandar.

vieram a vergonha
o arrependimento
e os olhos vermelhos

post scriptum. isso também é ficção?


o modelo a seguir

você não me leva a sério
e isso até me deixa feliz
assim fica mais fácil te imitar


uma sentença inocente

"na verdade, só houve duas mulheres que me "tiraram do chão" na vida. uma era o meu amor da vida toda. aquele!", disse ele com cara de gato manhoso que não pode ter todo o leite que deseja. deitada, despojadamente ao seu lado, numa cama pequena de um hotel modesto, ela sente um piano caindo em sua cabeça e esmagando toda a sua existência. por um instante, seu rosto congela num retrato de humilhação eterna. "puta que pariu!, como ele pode ser tão sensível e tão insensível ao mesmo tempo!?", ela pensa. "como ele, tão experiente e evoluído, tão superior e raro, pode não saber que não se fala uma coisa dessas a uma mulher que o ame? como pode não saber que dizer a uma mulher que ela não foi a sua maior aquisição amorosa (a verdade aqui é irrelevante, nesse caso) é tão cruel quanto jogar vinagre numa ferida? (não que ela não soubesse. ela sempre soube o que não era pra ele. o que era é um conceito ainda em construção). mas ele me fala isso com a inocência de quem oferece um pote de sorvete". chocada e ainda meio catatônica, ela tenta se recompor e balbucia o mais convincentemente possível:

- eu entendo. isso acontece com todo mundo. todos temos a nossa "pessoa" na vida. a pessoa acima de todas. aquela que levaremos para o resto da vida e que pensaremos nela em todos os momentos de extrema dor ou de extremo contentamento (não obstante todos os nossos esforços contrários) e que, muito raramente, conseguimos ficar com ela na vida real. na vida real, geralmente ficamos com quem a vida nos impôs". o discurso foi bonito e era nisso que ela acreditava mesmo. piamente. ele, aquele homem-deus deitado ao seu lado naquela cama tão distante de sua casa e que é capaz de fazê-la quebrar-se com uma simples sentença, é a sua pessoa. para toda a vida. ele concorda, aparentemente indiferente ao desastre emocional que causou. e, logo em seguida, tão inocente quanto todos os inocentes, dormiu em paz.


perdoe-me

perdoe-me. a alma sangrou mais do que de costume hoje.
bom dia.

post scriptum. perdoe-me sempre. sinto-me vazando. torneira aberta. um iceberg derretendo ao calor de um sentimento inoportuno, porém vital.

e por favor, não me ache desprezível e servil. sou apenas amor por ti.


ainda aqui, em delírios sãos

começaram a chegar os e-mails, mas nenhum era você. quer mesmo que eu continue com essa torturante exposição do sentir amor perdido? temo que nem mesmo você consiga fazer parar isso. temo estar programada para chafurdar pra sempre nesse amor que me assalta a razão e me classifica no mais baixo escalão do ridículo e da estupidez.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/With-the-young-i-m-not-580625577

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXXIX)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"



Terça-feira, 27 de Outubro de 2015
A seco, o molhado

À sec, le mouillé

nous traversons [des chemins]
en collectionnant des arrivées
en déviant des départs
tout en gardant les instants présents,
cette danse des êtres


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/81-579527928

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXXVIII)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Outubro de 2015.
Desencaixados

Les desamarrés

nous ne tenons pas dans une boite
mais si nous sommes nus
nous nous moulons
à l’intérieur de nous-mêmes


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Chiaroscuro-576478486

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXXVII)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Sexta-feira, 23 de Outubro de 2015
Sobre as regas

Sur les arrosages

arroser les fleurs
[même celles en plastique]
arroser les fleurs


* Imagem: http://dougnz.deviantart.com/art/Untitled-579246365

domingo, 20 de dezembro de 2015

Nas palavras

*

Por Germano Xavier


#1

Ela sabia que ele não atenderia o telefone. Não sabendo que era ela. E ele sabia. Mas a curiosidade, a vontade de tentar, a teimosia ou simplesmente o desejo insano, humilhante e quase mórbido de estar próximo... (Ao menos ouvindo o som do chamado do celular dele que ele nunca atenderia) era mais forte e dominante. Ligou. Chamou e ele não atendeu. Mas ela não chorou. Nem sofreu. Apenas revestiu-se de cacto e continuou.

#2

Naquele instante ela desejou apenas ser algo que ele amasse. Mesmo que fosse um livro. Sim, um livro. Livros são o que ele mais ama. Ou até uma palavra. Ele ama certas palavras com um amor especial. Pensa em como seria ser amada por ele como algo que lhe pertence para sempre. Gostaria de ser amada como ele ama um rio, uma rua, uma época, um lugar, uma lembrança. Gostaria de ser mesmo as letras que saem de seus dedos, adocicadas com o seu amor ou mesmo as lágrimas que caem em seu rosto, lavando a sua alma. Desejou mais do que tudo, ser Poesia e habitar seus pensamentos mais puros. Ser Literatura e conseguir transportá-lo para longe, muito longe. Para onde os mundos são criação sua e os seres são feitos de amor e nuvens.

#3

Depois de tudo, ele ficou rígido demais, formado demais, informado demais, calculado demais, ferido demais, cauteloso demais, para entender que ela apenas o amava do jeito mais primitivo e inútil. Nas palavras.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Figure-19-7-14-469209806

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXXVI)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Outubro de 2015
Estágio

Stage

ni près
ni loin
c’est juste à la portée de la volonté



* Imagem: http://jukara.deviantart.com/art/Peaceful-Christmas-579058610

sábado, 19 de dezembro de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXXV)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"



Terça-feira, 20 de Outubro de 2015
Autêntico

Authenthique

vouloir nager
parmi tes pensées,
glisser sur ta peau.

être un arbre ancien
dans ton bosquet personnel
un arbre possédant un nom et une histoire.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Aloha-8269896

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXXIV)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Segunda-feira, 12 de Outubro de 2015.
Prêmios para pulhas em manobra


Des prix pour des connards en ascension

ceux qui croient à tout ce qu’ils lisent,
car ils sont les plus nombreux,
formeront le groupe des desavisés
ou des volailles obtuses.

ceux qui ne croient plus à rien
car ils sont des nomades de fait,
se méfieront amèrement de la turbulence.

ceux qui se soumettent à la critique, en vue du jugement dernier
[des paons élitistes encore attachés aux soins de Maman]
lirons, perplexes, des nouvelles sur leurs comportements honteux

À bas Le Danger ! À bas Le Danger !

[les autres
des boites sans clous
auront le prix de l’insouciance]


Imagem: http://www.deviantart.com/art/Falling-angel-578491547

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

O rosto em seu rosto

*

Por Germano Xavier


Naquele dia, ele havia escrito o melhor conto de sua vida. Estava contente, embora não completamente satisfeito. Ele, como todo bom perfeccionista, sempre pensa que o que escreve poderia ser melhor, ser perfeito. Mas aquele conto, ele sabia, era realmente especial. Era, talvez, sua obra-prima. Sentiu um calafrio de um gozo íntimo e pessoal. Aquilo era o que ele era. Um escritor dos bons. Sentia-se completo quando sentia que tinha um lugar no mundo das letras. A literatura era a sua segunda pele. Era o seu destino, o seu legado e a sua paixão. Nada poderia afastá-lo disso. Nem mesmo... Precisava mostrar a alguém. Urgente. Sentia-se excitado, extasiado com aquele pedaço de céu que saiu de seus dedos, de sua pena, de sua alma, de algum lugar no universo onde a magia da poesia se faz. Ele sabia-se possuído do puro prazer de ser parte, de ser palavra, sentido e infinito. As letras são a imortalidade da alma. Se não houver nenhuma a mais, ao menos sabemos que sempre teremos esta. Este era o seu consolo e seu conflito. Precisava contar a alguém. Com tristeza e resignação, descartou o primeiro nome que veio à sua mente. Era mais um rosto do que um nome - um rosto envolto em eternidades insondáveis. Olha ao seu lado. Não. Não a acordaria agora. Antes, precisava despir-se do rosto em seu rosto.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/aging-520798548

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXXIII)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Quarta-feira, 23 de Setembro de 2015
Os multilares do amor


Les demeures diverses de l’amour

I

Je sais que je ne devrais pas rester là. Toi, tu le sais aussi. Pourtant je reste. Je resterai jusqu’à ce que je ne puisse plus ouvrir mes yeux et ne plus te voir. Je resterai jusqu’à ce que les heures de la journée se terminent et donc je ne pourrai plus sentir son absence. Je suis trop loin pour pouvoir supporter toute ta présence en moi. Il y a tant d’absence de toi en moi, tu sais ? Dois-je aller plus loin ? Où devrais-je refaire ce parcours en sens inverse et envahir tes yeux ?

Je sais que tu écoutes chaqune de mes conneries. Non seulement tu les écoutes mais tu essayes de les comprendre. Tu essayes même de les rendre plus suaves….Mais tu sais que ce n’est pas possible. Tu ne peux pas changer la direction de l’amour. L’amour est une destinée en soi même. C’est la mort qui arrive. Je prie pour que la vie après la mort existe réellement.


II

la lune
écrit en silence
notre vocation.

et moi je viole, rebelle
tes silences
que j’inonde.


III

P.S. - Je t’aime
pendant que toi
tu construits la pénombre.


IV

Illusion
Pourquoi s’inquiéter ?
C’est autour de l’illusion que je me construis
entier
Pourquoi s’inquiéter ?
c’est le sol où je ne tombe jamais seul
Pourquoi s’inquiéter ?
c’est chez elle que je me reconnais égal et différent
Pourquoi s’inquiéter ?
c’est elle qui me fait sourire dans l’âme
Pourquoi s’inquiéter ?
c’est le sang, l’air et l’arbre : c’est la vie
Pourquoi s’inquiéter ?
c’est la maison du désir
C’est l’Amour.


V

La cascade jaillit
déchainée, seule
incolore
et furieuse

elle saupoudre
légère et froidement
des gouttes en quête d’amour


VI

et sinon
autrement
ce mal de tête
c’est la philosophie de l’harponneur

je voudrais juste arrêter la rue
ci-dessous
et orner le silence
avec ton amour


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Mi-amor-by-Leonid-Afremov-194273827

Prosas de Germano Xavier em Francês (Parte I)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Sexta-feira, 4 de Setembro de 2015

Oi


Salut

- Où étais-tu ? Tu te fais rare. Tu disparais. Tu n’écris plus.
- Ah, tu t’en es rendu compte ? Cela n’a aucune importance. Dis-moi ce qui est important.
- Qu’est-ce que t’en penses ?
- Tout ce que je sais c’est que moi, je suis là. Et toi ?
- Tu étais où ?
- Je me noyais.
- Tu étais où ?
- Qu’est-ce que tu veux dire par là ?
- Je n’arrivais plus à te joindre.
- J’étais chez moi. Je n’avais pas envie de quitter le lit. Je n’étais nulle part ailleurs. Pourquoi ?
- Parce que tu étais introuvable.
- Tu l’as déjà dit. C’est pas grave. Tu crois qu’un jour je vais disparaître e je ne reviendrai plus. Mais pour l’instant je n’y arrive pas.
- Tu essayes ?
- Je ne sais pas. Des fois ça fait trop mal. C’est pour ça que je pars, mais je reviens toujours.
- N’essaye pas.
- Je ne veux pas le faire. Je me meurs quand je désiste de rester là à tes cotés. Je ne veux pas que tu le voies, cette idée me déplaît.
- Je t’aime.
- (…)


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/O-encontro-The-Meeting-The-Observer-s-series-448989701

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

O tigre

*
Por Germano Xavier

para Adahilton Dourado, in memoriam


o tigre borgeano: o Aleph?
o tigre de Blake: a Beleza?
o tigre da vida: a Morte?


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/tiger-286574921

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Um olhar sobre Sintaxe e Discurso

*

Por Germano Xavier


(Um resumo)


AZEREDO, J. C. Introdução à sintaxe do português. Rio de Janeiro: Zahar, 1990, p.120-139.

É de se saber que os períodos, na língua portuguesa, utilizam-se não apenas de referenciais de natureza sintática para se associarem, mas também de meios discursivos que, por tradição, sempre estiveram atrelados à retórica e à estilística. Ao que toca o ato enunciativo, conferimos, de maneira clara, a expressão de um eu que se assume enquanto locutor, produtor individual de um dado discurso. Todavia, para que entremos nas demandas dos estudos envolvendo sintaxe e discurso, faz-se importante visualizar que o discurso está situado entre a ação de um enunciador/locutor e um contexto variável de produção discursiva.

Diante da expressa relevância da figura do locutor/enunciador em toda a engrenagem de produção discursiva dentro de um emaranhado linguístico, algumas variáveis podem ser classificadas em três categorias: a modalidade, a referência e a polifonia. O campo da modalidade refere-se à ligação existente a tudo que intrínseco ao interlocutor e ao conteúdo, a esfera referencial trata das relações entre tempo e espaço e, por último, a polifonia dialoga sobre as interações intertextuais ou interdiscursivas.

Acerca da modalidade, devemos perceber sua intimidade para com os conteúdos das orações, interesses e intenções enunciativas. As indicações locutárias podem ser expressas através de alguns pontos, a citar:

a) Sintagmas adverbiais ou preposicionados;
b) Predicadores seguidos de que + oração ou justapostos no enunciado;
c) Modos do verbo;
d) Marcadores de foco;
e) Verbos modais;
f) Empregos modais dos tempos verbais;
g) Conjunções;
h) Verbos que explicitam o ato praticado pelo locutor;
i) Entoação.

Já as intenções e interesses do enunciador podem ser expressas a partir das seguintes pontuações:

a) Predicados seguidos de infinitivo ou que + oração;
b) Verbos modais;
c) Verbos que explicitam o ato praticado pelo locutor;
d) Modos do verbo;
e) Entoação;

Quanto aos marcadores de foco, são elementos constituidores de ideia de inclusão, exclusão e de designação e situam-se na linha limítrofe dos sintagmas, sendo de difícil classificação. São, por assim dizer, marcadores sintagmáticos. Os marcadores sempre estarão entre as fronteiras de dois sintagmas, servindo ou não como marcadores de foco ao lado de determinados verbos, como acontece em alguns casos envolvendo construções de sentido com a utilização do verbo “ser”.

Os meios usados pelas variantes contextuais que se misturam ao discurso através do locutor é o que chamamos de referência. Aqui há uma preocupação com marcações de tempo e de espaço. Aqui, expressões pontuam o presente, o passado e o futuro com clareza. As questões elaboradas no panorama referencial atendem, em parte, ao contexto mediato e ao contexto imediato, que terminam por apresentar variações de ordem temporal, cada qual ao seu estilo. Há de se destacar também, ainda no tocante à referência, o caso dos tempos do subjuntivo, que são influenciados em suas formas simples.

A polifonia, por sua vez, pode ser entendida como mecanismo de intertexto. Na polifonia, um enunciador incorpora ao seu discurso afirmativas de outros enunciadores. Esta instrumentalização, dentro do discurso, pode gerar o elemento implícito. Um fenômeno vasto, muito utilizado em todo o campo linguístico. A polifonia é propriedade de todo texto. O discurso indireto é um recurso típico pelo qual o enunciador efetua a troca do contexto imediato pelo contexto mediato. Há de se notar que a principal característica do discurso indireto é o fato de ser um discurso que se tornou conteúdo de outro discurso.

Além da modalidade, da referência e da polifonia, a coesão é mais um fator que confere a qualquer fragmento discursivo o caráter de texto. A coesão aparelha todo um complexo de sentido a partir das ferramentas de união (dêiticos) presentes nas fronteiras dos períodos. Dois aspectos da coesão necessitam ser evidenciados, pois: o tópico e a junção, que pode ser conectiva ou por justaposição. O tópico faz a ponte entre sequências de período, sendo, portanto, um conceito discursivo. A junção conectiva é um operador que se realiza por meio de palavras e locuções que se relacionam com parte outras do texto. Destarte, segmentos outros atribuídos a diferentes atos discursivos ou a diferentes locutores se relacionam por justaposição.


* Imagem: http://carlosmatheus.org/o-discurso-politico/

Carbono

*

Por Germano Xavier


não chegaremos sozinhos porque
no caminho sentiremos medo

louvaremos cantos de ficção e contos
de realidade viveremos e tantos meios
de comunicação nos darão letras
e culturas (des)costuradas

(direto éramos o desafio sempre difícil:
o dia amenizava-se na língua da mulher
e no abismo das alotropias da carne)

até fomos quem nos tornamos aos poucos
a cada passo uma lenta engenharia
a cada choro um letramento de remos

no que bebemos de seiva e fel e água
fizemos força em sombras
e uma dura escola:

a violência das curvas que tomamos
é toda uma teoria sem cautela

/uma nuvem em formato de seta
o outro que assistiu ao véu do sol
a própria natureza escandida
a flor nascida sobre o cimento/

não chegaremos sozinhos porque
em lugar algum esta relação impera:
a da solidão

mas existirá o medo de chegar porque
não sentiremos medo de partir


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Gliding-354869465

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Avô matingueiro

*

para Elizeu Xavier,
in memoriam

em pegas de boi, viu furar os olhos
da filharada-homem o graveto pontudo
do mato caatingueiro.

montou carcaça
de animal bravo, dobrou as rédeas
de uma vida avessa. armoriou o pó
das estradas solares, debruçado
na alvorada roncosa dos secos gerais.

cego dum olho, enxergou horizonte
de filho caçula. foi distante, amigo
dos destinos, arvorou lenta luta.
em cirandeados, clandestino amou
moças avulsas.

a história que não vivi
conta que Seu Elizeu, homem rude
da Cajarana, meu avô matingueiro,
havia de nos ensinar duas coisas:

que adentrados, nós, na esteira do tempo,
ninguém mata nem desmata, pois
um dia tudo se destripa.

e mesmo a flor dos cajus, a dizer ventos
mais mornos, é prenúncio: acre sumo
de gosto travoso no balé dos maturis.


* Imagem: https://blogdadeia.wordpress.com/tag/cordel-encantado/