domingo, 31 de janeiro de 2016

Escoltas

*

Por Germano Xavier


Ela não costuma chorar. Ao menos, não com os olhos de fora. Afora isso, chora todos os dias, por todos os poros de sua alma líquida. Ela chora o mundo inteiro. Tem o sentimento do mundo no centro de sua íris de esperança. Mas a esperança é o mais sórdido dos sentimentos, não é, Borges? Por isso, o choro não produz ouro nem perdão nem milagres. O choro só nos traz mais do mesmo, abarrotando o nosso celeiro de dores. Mas ela chora e é lindo o seu choro de nuvem. Eu beberia suas lágrimas, mataria seus inimigos com espadas de cacto em flor, pararia o sol para que a lua tivesse mais tempo para consolar seu corpo e alma. Eu choraria seu choro se isso a fizesse doer menos. Quando ela chora, também fica salgado o meu rosto.


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e na escolta de nossas almas
o precipício
/perto o suficiente para causar vertigens/

a visão turva
o sinal de desequilíbrio

do lado de dentro
/tumulto/

do lado de fora
/catástrofe/

torceremos para que o dia acabe
enquanto o prejuízo
/contabilizado/ ainda pode ser 
contado sem lágrimas

pouco mais de horas
e nos esqueceremos dos anos

/somente o amor 
ou é teimosia?/
salva da insanidade os dias


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/reaching-an-end-to-it-all-487767024

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