terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Ler é resistir

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Por Germano Xavier


Quem nunca se viu, de repente, diante de uma cena inusitada, poética, intrigante, lúdica e mágica numa cidade, seja ela grande, imensa ou pacata? Se olharmos bem, todos os dias somos presenteados com amostras - mesmo que em relances -, da pura beleza de ser humano, mesmo no seio de uma cruel e gigantesca selva de pedras. Comigo acontece sempre, quase todos os dias. O mundo está cheio de belezas, mas às vezes precisamos afastar a sujeira para vê-las. Dias atrás, enquanto voltava do trabalho, mesmo cansado e com dor de cabeça, observava as pessoas passando nas ruas. Sem pedir passagem, aquela figura domina a minha visão. Estava sentado sozinho num dos bancos de uma pracinha inacabada no meio da avenida. Aparentava ser um mendigo - afirmaria que sim, se não fosse pretensão, já que não perguntei. Vestido em trapos, um cobertor sobre os ombros, um saco de pano com alguns pertences ao seu lado, barbas e cabelos longos e já bastante grisalhos, mais parecia um profeta do Velho Testamento. Apesar do barulho, dos pedestres que passavam quase tocando nele, do trânsito intenso e de todo o caos de uma avenida da periferia muito movimentada, ele lia como se não houvesse mundo além do que estava em seus olhos. Era um livro médio de capa branca, foi só o que deu para ver. Estava sentado, muito ereto, concentrado, quase formal, num ritual solitário e poético. Não sei dizer o quanto fiquei impressionado com a singeleza da cena, um quadro para guardar, para consolar o dia. Para mim, que sempre adorei andar por ruas desconhecidas e conversar com gente despretensiosa - dessas vêm as histórias mais autênticas e mais humanas -, foi um desafio passar sem parar para saber dele. Dúvida nenhuma de que tem uma história mais fascinante do que a sua cena de insurgente no meio de um mundo embriagado pela banalidade de tudo. Não fui. Mas, em silêncio, admirei aquele homem. Senti orgulho dele. Amei, por instantes, aquele homem. Para todos os que passavam, um mendigo lendo, sujando a paisagem com sua presença incômoda, que lembra a todos o quanto somos medíocres e egoístas. Para mim, um momento de inviolável intimidade entre um homem e seu livro. Senti pena e tristeza pelos que passavam indiferentes, incapazes de enxergar a grandeza e a beleza daquela cena. Ali estava o poder da paixão. Ali estava uma bela forma de resistência.


* Imagem: http://blog.baratocoletivo.com.br/blog/variedades/dica-de-leitura-para-o-verao-de-2014/

Um comentário:

Antonio Batalha disse...

Neste novo ano estou a tentar visitar todos os amigos da Verdade Em Poesia afim de lhes desejar um 2016 muito feliz cheio de grandes vitórias e muita saúde e Paz.
António.