sábado, 2 de janeiro de 2016

No primeiro dia do ano choveu

*
Por Germano Xavier


(Ela)

no primeiro dia do ano choveu
saí para caminhar por ruas desconhecidas
li um livro de meu autor favorito
desliguei o celular para não receber mais ligações de feliz ano novo querendo xeretar o ano velho
escrevi um poema para o meu amor e depois joguei no lixo
fiquei olhando a chuva pela janela do meu quarto e ela me pareceu tão familiar quanto no ano passado
ouvi ele me dizer "quero você do meu lado, se você me esperar e tiver paciência"
respondi que nessa vida só espero pela morte (porque sei que virá mesmo) e que minha paciência está na reserva há uma década e acrescentei, delicadamente, que o amor em que acredito é aquele de quatro letras no papel
comprei um tênis pela internet porque ainda quero correr a São Silvestre um dia
escrevi uma carta para o meu amor e dessa vez não joguei no lixo
lavei roupa (mas a alma não enxágua e nem centrifuga)
depois veio mais chuva e pareceu-me que lavava a rua
mas as pessoas continuam a passar por ela


(Ele)

no primeiro dia do ano acordei cedo
antes de dormir, na virada, enviei uma flor virtual para ela
flores virtuais podem representar bem mais que apenas flores virtuais
por um momento estacionei o pensamento numa rua imaginária
amei por longos minutos o sorriso dela cristalizado numa foto
achei por bem continuar amando-a
construímos juntos uma penumbra silenciosa
então sentei para escrever textos de deserto
textos de deserto podem estar repletos de amor
ainda lembro de quando eu escrevia textos de chuva


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Crossing-in-the-Rain-398391434

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