terça-feira, 19 de janeiro de 2016

O cineasta que ouviu não

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Por Germano Xavier


Meu nome é Matilde e dias atrás conheci um cineasta. Um escroto. O típico: meio roqueiro, meio hippie, meio Che. Hilário como as pessoas se esforçam para produzir uma aparência clichê, mostrar que são de uma tribo, que têm tal estilo, quando, na verdade, só estão copiando alguém, um grupo, um outro clichê. Artistas, socialistas, ambientalistas, e todos os “istas”. Não basta ser, tem que parecer? Um nada disfarçado de tudo. Assim era o falso Che de roupa de marca. Barba grande, bigode, ar desleixado propositalmente, tudo contrastando com suas roupas de grife, seu carro besta, seus equipamentos tecnológicos de última geração e suas ideias massificadas de pseudo-revolucionário. Cabeça cheio de ideias neo-libertárias-esquerdistas-ultrapassadas. Fingia importar-se com as minorias, com os marginais, com os ignorantes. Mas não passava de um merdinha egoísta, mimado, capitalista e machista. Ele tem uma produtora e acredita ser o melhor do melhor do ramo. Aprendeu a tratar a todos como clientes, conforme o grau de lucro potencial que cada um possa lhe dar. Um crápula. Menos escrúpulos do que o mais insensível traficante. Mas é charmoso, eloquente, bom ator, bonito, sorriso largo congelado e metido a engraçado. Mas o que ele realmente não esperava era que eu não o quisesse. Ouvir não o desnorteou a ponto de perder o rebolado. Implorou, fez chantagem emocional, material e o escambau. Não cedi. Não apenas porque conheço o seu interior podre de falso homem-evoluído, mas também porque amo alguém que é o seu oposto. Quem amo não precisa fingir ser nada do que não é. Porque o que ele é, é autenticamente original, só dele. Só ele tem a imensidão nos olhos. Até os seus defeitos são peculiares. Eu tenho pressa. Preciso ir agora. A chuva molhou meus sapatos. Na verdade, eu não tenho pressa e este texto diz apenas de uma mulher chamada Matilde, que deu de conhecer um cineasta escroto - nem todo cineasta é escroto, eu sei. Sem saber, ele, que amo um homem de dores, de extrema percepção. Um homem de altos silêncios. Reitero: de altos silêncios.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Cinema-show-200100478

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