sábado, 13 de fevereiro de 2016

Na esquina de cada noite

*

Por Germano Xavier


como um cego
sabe o caminho
te espero na esquina de cada noite


Preciso levantar da cama. Colocar-me na linha do tiro do hoje. O hoje com suas metralhadoras automáticas apontadas para o centro de nossas cabeças encapuzadas pela humilhação. Nossas cabeças cheias de ideias sublocadas de quem nos domina. Ideias que não teríamos. Ideias que não queremos e não amamos. Quando o chicote ficou tão natural? Quando nos acostumamos com as correntes? Quando o coração perdeu o pulso da paixão? Quando fomos ilhados pelas ideias medíocres do senso comum. Brutas hospedeiras a nos consumir o doce.

Acordar e ver que não há nada de novo no mundo, tentar ver através de um horizonte massacrado pela névoa do cotidiano, hostil paragem. O homem sem força, o homem adormecido com olhos abertos, o homem quasevivo-quasemorto. Para onde o homem olha? Enxerga algo? O dia de hoje poderia ser um dia no futuro, mas já nasce como um não. Nossas pernas, atoladas numa lama densa. O outro, quase sempre ri, estando na mesma desgraça. O outro não sofre? O outro não sente a dor? Não é pouca a dor.

Preciso caminhar. Sair. Correr, ver o que há além dos muros que me cercam. O amanhã é incerto demais para mim. Estamos cercados. Eu estou ilhado. Quem não está? Por isso o poema, os poemas. As palavras, as tentativas de literatura. A busca. O sonho da salvação. Oh, redenção! Por isso essa ausência que pesa em meu corpo, hoje. Ausências, no plural. Mais do que em todos os dias. E eu que costumo reparar em todos os cantos, olhar com vagar as presenças várias, nada reconheci além da falta. Porque todos os cantos eram faltas. Porque todos os cantos eram vazios. Porque todos os cantos não eram o que sou, o que penso, o que quero. Eram outras coisas.

Como eu te toco, vazio? Como costumava te tocar? Meu corpo que ficava adivinhando o teu toque, em-agoras não mais. Quase cheguei a me enganar, de tanta convicção. Fecho os olhos e estás: a inconsistência. Inconfundível mãe. Tu, o meu tu, tocas-me com carinho e com desejo e com a delicadeza de quem sabe que é possuidor de mim. Estamos juntos, pois, na falta, na dúvida. Juro, daquele jeito, que ao encontrar algo bonito neste dia, irei capturá-lo, e fazer poesia. Poesia para você, escuridão minha! Que tudo fique bem, após.

Aproveito o sábado. Estou com você, que não é pessoa, não é matéria, mas que não é morte. Você é um astro, nem negro nem claro. Cuido do sol. E todos os pedaços, os seus, de um mundo inteiro, ficarão guardados. O que farei com tantas migalhas de nada? Migalhas inteiras de nada. Vai ficar tudo bem, eu sei. Não eu. Nem eu. Eu não ficarei bem. E você sabia disso. Considero magoar a chama existente. Isso é dolorido. Devo-me abrir a novos céus. O passado aprisiona. Deixarei de ser o passado. O mundo todo é meu. Sigo. Durmo.

Não importa, eu respiro. Não faz diferença agora. Sabemos. Sei do que falas quando fala, quando fala. Não me importo que fale, só não use minhas palavras. Não te peço nada. Há máculas. Nossa fábula diária é aguentar o peso das misericórdias. Há sempre uma cidade invadida por outros de nós, que chora o rompimento de seus silêncios. Chorar é uma espécie de síntese. Estamos indo, todos, rumo ao abismo. Estamos todos a cair no fosso das glórias vãs. Eu, você, ela, ele. A hora é dos que acampam o fogo. Somos todos acontecimentos inexplicáveis. Estamos em coma, em quadros alegóricos. E morremos de medo do tempo.


* Imagem: http://loucos.deviantart.com/art/--535925113

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