quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Pequena crônica residual sobre a vizinhança

*

Por Germano Xavier


Ele deve ter entre trinta e trinta e cinco anos. Ela, apesar de aparentar ser mais velha, deve ter mais ou menos a mesma idade. O casal tem dois filhos entre oito e onze anos. Moram numa casa boa num bairro bom da cidade. Parecem razoavelmente harmonizados. O único problema é o amor. Explico: todas as manhãs acordo com o grito dele chamando-a de amor. Mas não é num vocativo carinhoso como os casais costumam chamar. Ele grita: Amor! Amor! (amor isso, amor aquilo), com tanta raiva e agressividade que soa a qualquer ouvido como se ele a tivesse xingando, a ponto de estrangulá-la. Não é uma briga, apenas em conversas do dia-a-dia. Desde a primeira vez que ouvi registrei essa incoerência na palavra-entonação. Nunca imaginei que uma palavra pudesse carregar tanta carga emocional apenas na forma como a falamos. Aquele amor mais parece ódio. Nunca olhei o rosto dele enquanto pronunciava isso, mas tenho certeza de que sua face também não expressa o amor. A intensidade da aversão em sua voz é tanta que dá um certo medo ouvi-lo chamando-a de amor com tanta fúria reprimida - o detalhe é que ele não a xinga, nunca, chama-a apenas de amor. Como um vocativo carinhoso pode ser uma agressão? Algum dia entenderei? E isso acontece com mais frequência do que meus ouvidos aguentariam sem protestar. É de arrepiar. Ele grita amor e é ódio que ouvimos. E assim, ele imprime em uma palavra doce todo o amargor de seus dias.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/hope-45579848

Um comentário:

Alana Laís disse...

Arrasou professor me emocionei..parabéns pelas sábias palavras....