quinta-feira, 3 de março de 2016

Verbo meu escrito com sangue

*

Por Germano Xavier


há tempos é outro dia
horas me confundem
preso no limbo da noite
incapaz de prosseguir
sem antes beber
triste e fracamente
de teu copo agridoce
líquido amor-sem-mais


Foi Nietzsche quem disse que só amava os livros escritos com sangue. Minha vida, minhas palavras, livros, letras, escolhas e memórias, foram e são escritas com sangue. Sou inteiro: um livro escrito com sangue (livro meu e de quem o vê). E eu tenho o mesmo gosto de Nietzsche. Por isso sinto o cheiro das palavras que emprego, sinto o engasgo delas, o espanto de seus sentidos, o gosto de seus respectivos sabores e dissabores, a pausa que cada uma possui, o encantamento, a velocidade, o respirar. Sinto o riscar de minha caneta no papel, o arranhado, leve, minha pele, por dentro. Por isso não me deixo me deixar. Meu corpo não me deixa me deixar. Meu espírito (se houver um) ou o que quer que não se vê e que grita aqui dentro de mim e rosna de dor longe de quem realmente sou; essa coisa viva aqui dentro também não me deixa me deixar. E eu aprendi a amar o que dizem as minhas palavras e o que diz (muito mais eloquentemente) o meu silêncio. E me olho, mesmo quando não estou. Mesmo quando não há uma imagem minha à vista. Vejo-me quando estou acordado, quando durmo me sonho (em histórias de realismo fantástico), quando penso, quando olho para dentro de mim e até quando me olho no espelho. Eu estou quando estou. Eu, livro e capa, sou a minha sombra, por dentro e por fora. Mesmo que eu nunca mais me toque, por toda a vida levarei todos os meus toques, em cada centímetro de minha pele e de minha memória. Portanto, não analise o meu amor pelo verbo ensanguentado que sou. Não o julgue. Nem o classifique. Não o conceitue. Nem o hierarquize. Não o disseque. Nem tente entender. E se ele não se encaixar em tua amorosa caixa o desnomine! Chame-o apenas poesia, o que não podes desconhecer! Amo-te tanto, verbo meu de sangue, que não posso te amar de perto, porque perto é muito. Vou recuar passos para não perder o chão. A dor que me dói mais não é a tua ausência aqui, por vezes. É a minha ausência aí. Sou desimportante para você - pois não quero usar indiferença e descaso, palavras agressivas e ingratas. O que é importante não se escolhe. É o que ocupa a nossa mente, o nosso coração, o nosso olhar, logo que acordamos. É aquilo que quando temos pouco tempo, achamos um jeito de estar presente, de ser, de lembrar, de cultivar, de estar em pensamento, no pensamento, sentimento. É o que domina as nossas vontades, incontinenti. E que, sem nenhuma interferência nossa, se interpõe, se sobrepõe, a tudo o que fazemos, somos, queremos e pensamos - e nem cheguei perto de falar do que amamos. Falei apenas do que prezamos. Do que gostamos e do que nos importamos com. Por isso me sinto morrendo... (porque quando estás comigo, mesmo da forma mais precária que uma presença possa estar, é que consigo respirar melhor, de corpo e alma. E até minha inteligência aflora). As vontades ficam variadas e levemente doces. A vida passa a ser levemente feliz, em momentos vãos, que antes seriam simplesmente Tempo Morto. Tempo Nulo. Mas não estás, vezenquando. E me dói ver-te se esforçando para me fazer não notar que não somos nada. Menos do que nada. Somos menos um. Pois até para a ilusão a dois é necessário dois. E somos um. Somos eu te amando em masturbação amorosa (e nem é a dois). E tu quase se aborrecendo em quase-culpa e quase-interesse em meu exílio de mim nesse amor por ti, verbo meu de sangue! E eu te escrevo com a liberdade de quem sabe que não receberá resposta, nem a mínima interpelação. E eu poderia divagar, inventar e acreditar que tu te importas e dizer que a música que está tocando aqui agora é bonita como aquela que nunca tivemos. Mas seria só superfície. No fundo, o que sinto é quase-ódio dessa tua ausência abismal. Determinista. Terminista. Máxima elucidação de não ser. E sinto quase-ódio de tudo o que não é você aqui e de tudo o que não somos nós no mundo em alguma forma diferente do que a não-forma que tomamos há tempos, em todos os tempos. E melhor era quando não tentávamos criar forma alguma porque assim não sabíamos que não havia forma fabricada para nós neste mundo-presente-real que nos esconde da morte. E nos entrega a tantas outras de morte diariamente e sem descanso. Minha morte mais estúpida é não estar em ti, um pouco que fosse o suficiente para me fazer saber-sentir-estar. Mas o que sinto é o calibre da distância, a espessura do muro, o mistério do abismo que nos separa. De nós. Do mundo. Da ficção. Não te estrago em mim. Seria engraçado se pensasses que eu tenho essa intenção. Ou que deixarei isso acontecer enquanto estiveres vivo. Mesmo que eu não tivesse mais motivo algum para levantar, levantaria bem depressa para correr os dias que separam o hoje do dia em que te verei novamente. Certo que não sei se me verás. Mas juro que te verei. Para viver. Porque tu-vivo. Porque te amo. Foi Mário de Andrade quem disse "eu não me amo, eu me persigo". E eu te digo hoje que não te amo, te persigo. (Per)sigo, no sentido de seguir de perto. Sigo-te de perto nos anos, na memória dos toques, nas invenções de palavras, nas criações de amor de amor, nas noites de saudade doentia, na sensação de morte quando não te sinto perto, nas tentativas de não te amar, nas dores que a tua ausência (e não apenas a física) me impõe, nas tentativas de te ignorar no universo dentro e fora de mim, no tempo do nunca-ser. Sigo o teu rastro. Se olhares bem atrás dos teus passos, verás um rastro menor, quase apagado pelo vento: o meu. Eu te persigo pelas beiradas do tempo, dos acontecimentos, das convenções. Sou uma não-escolha que te ocorreu. Escondido entre as árvores, soturno, quase não me notas entre a folhagem exuberante das árvores que te cercam. (Per)seguir é mais do que amar. É não poder viver sem. Nem viver separado. Nem cirurgicamente. Nem pela morte. Por isso te sigo. De perto. De dentro. Por isso sou teu afluente, teu rio. Imenso. Indomável.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/This-Solitude-26140608

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