sexta-feira, 1 de abril de 2016

À noite

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Por Germano Xavier


À noite, as luzes da cidade a deixam menos agressiva, mais doce, poética. Vejo casas com janelas que parecem sorrir. Outras, como se livrassem do sol malino, deixam-se assombrear numa satisfação infantil. Mas não é sempre. É por vezes. Luzes artificiais enfileiradas parecem um exército de vagalumes gigantes (para os que conseguem ver). As luzes estão para os homens. O homem não enxerga no escuro. O homem precisa do artifício. Toda lâmpada é mágica? A cidade não para, nem para para respirar. O homem sim, este para. O homem não é a cidade. O homem é o homem. A cidade é o homem. 

Mas à noite, no colo moroso da madrugada, ela caminha devagar, preguiçosamente, para melhor observar o rosto de quem a atravessa, para melhor ouvir o rumor dos sonhos que emocionam e fazem rachar o seu concreto. A cidade tem alma. À noite, a cidade é mais amiga. Mas não é sempre. É por vezes. Ela estende seus braços cansados num abraço cúmplice, dividindo o peso dos passos, da fúria, da tortura e do fim... A noite sabe dos fins que nos espreitam. A maioria humana não sabe do que a noite é capaz. Ela, acostumada a morrer todos os dias para recomeçar no dia seguinte, ensina-nos diariamente sobre resistências. 

Ainda noite. Ainda mortal. Ainda finita. Ainda eterna, a noite nos entende. Mas não é sempre, repito. É por vezes. Há carinho suspenso em suas ruas impessoais. Há um olhar de compreensão em suas estrelas para quem estender os olhos. Há desavenças e angus de sangue nas equinas mais estúpidas. Há cinematográficas chacinas. Há pulmões plenos de fumaça. Há noite na noite. Noite no sentido de breu. É sob os olhos da noite que as solidões melhor se comunicam. A solidão na cidade é uma moeda que não se troca. Apenas se vê. Há, de novo, resistência na noite. 

Na dança das luzes, na presença insurgente das árvores, nos pássaros fazendo ninhos, no olhar rápido do desconhecido que fala de mundos outros, nos detalhes apenas visíveis dentro do mistério profundo, na voz obscura dos silêncios. Há mistérios na noite da cidade. Há enigmas no homem na noite. O homem, dentro da noite, não é o homem dentro do dia. É o homem outro. Há vazios e excessos. Ilusões diversas e furtivas felicidades. 

Eterno na cidade, só a noite. A noite na cidade é a salvação da vida. A noite é a respiração da alma. Sem ela, nunca mais veríamos o céu. Os prédios, quando olhados de baixo, parecem naves espaciais levando para longe, muito longe, para demasiado longe de nós, seres iguais a nós. As ruas, quando olhadas de cima, parecem abismos gulosos levando para longe muito longe-longe de nós, seres iguais a nós. A noite é o agora dos olhos e dos corações que se rasga facilmente.


* Imagem: http://dannyst.deviantart.com/art/Cross-roads-at-night-113123909

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