sábado, 23 de abril de 2016

Minha lágrima de prazer

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Por Germano Xavier


A imagem é uma criação pura do espírito.
Ela não pode nascer da comparação, mas da aproximação de duas realidade mais ou menos remotas.
Quanto mais longínquas e justas forem as afinidades de duas realidades próximas, tanto mais forte será a imagem – mais poder emotivo e realidade poética ela possuirá...

Pierre Reverdy



Será fogo essa comichão indefinida em meu coração? Será fé esse incômodo remoer de algo querendo ser? Será sorte? Será infortúnio? Estou, finalmente (digam-me!) vislumbrando uma luz no final do cano de esgoto onde escorrega a minha vida? Será túnel? Será que estou caindo para cima? Para o plano onde a dor é bela e produtora de alguma recompensa desconhecida numa outra dimensão? Num plano espiritual? Será a mosca azul da fé? Será um elefante orelhudo isso que me tocou? A fada do dente de ouro? O meu anjo da guarda? O meu anjo desguarda? Será o fantasma da paz? Esse espectro brincando em meus olhos, esse brilho querendo encher a minha escuridão... Será a paz? Será o cio? O pio? Esse cheiro de flor que quer vir? Será sonho? A coisa vai crescendo aqui dentro... e fora. Em realidade? Será delírio? Será eterno? Será doce? Será que fica? Tenho medo de saber que era apenas sonho. Será isso esperança? Será amor? Será Deus? E se aquelas fossem as minhas últimas palavras para ti? As últimas! Se precisassem, por força maior do que minha vontade, ser as minhas últimas letras para os teus olhos? Para os teus sorrisos... Elas (minhas letras) teriam de ser, resumidamente, para dizer o mínimo da imensidão do que te amo, as seguintes: Você é minha. És o meu membro fantasma que, mesmo amputado do meu corpo, ainda sinto doer e faltar, em presença dolorosa e ausente. Você é bela. Bela de um jeito misterioso e incompleto. Belas são as tuas cicatrizes na alma, tuas histórias sem finais, tuas doces tortuosidades. Tuas histórias de silêncios são belas como todas as palavras bonitas e antigas que resgataste do dicionário, esquecidas pelos tolos e preguiçosos demais para senti-las, para amá-las. Você resgata palavras e inventa sentidos para as coisas, para os mundos sem nome. Você é mágica. Como as águas paradas dos açudes velhos. Águas profundas e calmas. Misteriosas, encantadoras e perigosas. Águas que abrigam em suas profundezas tanto peixes deliciosos quanto cobras venenosas. Você é magia em verde-musgo e em voz de lento trovão. Você é o sentido. Eu poderia criar um sistema filosófico sistematicamente organizado a partir de teus olhares para a vida. Teu olhar para tudo é total e certeiro. E mesmo não o sendo, torna-se. Sensível e extraordinário. Não há nada no mundo que você ainda não tenha tocado, duvidado, admirado, refutado ou classificado. Em sentença ou em dúvida. Você é amor, menina. Não importa, no fim das contas, que conceito venha a ter o amor, nem que facetas ou significados. Talvez seja apenas quatro letras aleatoriamente organizadas para representar tudo aquilo de sentir que não se encaixou em nenhuma outra palavra. Nem mesmo se, no fim, descobrirem que ele nunca passou, afinal, de um delírio coletivo na história da humanidade. Ainda assim, você será amor. Você é amor em diversas matérias, invólucros e cores. Em diversos conceitos e caras. O amor achou você e entrou. Ficou para sempre em teu corpo, alma e palavras. Você é amor vivendo na história do mundo. Você é amor sobre pernas, sobre rodas, sobre carne. Minha lágrima de prazer.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Androids-145739480

Um comentário:

Franciéle Romero Machado disse...

Olá um bom domingo! Essas palavras são escritas em cada linha com tamanha intensidade. O contexto ao qual tu abordas de várias maneiras, das mais simples as mais inusitadas fazendo comparações em relação ao ser amado. Gostei muito da construção das metáforas e inclusive do final que encerrou com maestria. Lindo!!

Abraços!
( Aguardo sua visita em meu blog de poemas)