terça-feira, 5 de junho de 2012

O azedo dos monólogos

*

Por Germano Xavier


Um dia eu irei desistir de você. Um dia talvez hoje, talvez nunca. E terei desistido de uma parte de mim também. Mas será apenas mais uma parte. De tantas que ficaram pelo caminho ou que me tiraram com violência. Vou perdendo pedaços pelo percurso. Você, um pedaço muito grande de mim para ser arrancado facilmente. A parte em mim que voa, inventa, cicatriza e ama. Não quero abrir mão, mas tenho sangrado diariamente a tua falta-presença, de modo que não posso mais e desisto. Deponho as armas e as esperanças, que já eram irrisórias, mas ainda existentes. Esperança apenas de um dia te ter um pouco mais. Mas nós dois sabemos, da forma mais simplista, que nenhuma relação (ou coisa que o valha), seja de qualquer natureza, mesmo que de amizade ou apenas poética, vive sem uma coisa simples chamada reciprocidade. Correspondência. Não estou falando de igualdade. Apenas de reconhecimento de ser. De fazer sentir-estar. De empatia e consideração. E silêncio só me diz que estou só. Mas essa história insólita e o que ainda sinto por você é tão estranho aos teus olhos que só pode classificar como resultado de algum desequilíbrio psicológico, carência ou solidão desorientada. Mas no fundo sabemos que não. É conhecimento de alma. É reconhecimento daqueles que tornam uma pessoa única e insubstituível no mundo. E isso independe de nossa história ou do quanto fomos marcados pelo sofrimento ou do quanto fomos "estragados" pela vida. Isso depende apenas do mistério do qual nada sabemos. Apenas que ele existe e faz dessas coisas. Mas existe, a despeito de qualquer amor e poesia, a realidade. E nela, você só me feriu. E eu já deveria saber que sou a única que pode evitar que me firam. É só não dar a oportunidade para. E te dei todas. E você não desperdiçou nenhuma. Hoje só te sinto ausente, indiferente e quase hostil. Nós dois sabemos que eu sou uma ferida aberta e, antes de você reaparecer eu estava bastante adaptada em ser cacto, mas você chegou e me fez uma flor de cacto só pra você e hoje essa flor me destrói. Só estou cansada de ser eu pra você. Cansada de monologar. De nunca ter respostas ou atenção. Ausência de palavra é ausência de vida. E eu só acredito em palavras nesse mundo. Na ausência delas vejo a morte. Nada vivo sobrevive sem alimento. É preciso pelo menos um mínimo vital dele. Talvez você tenha deixado faltar esse mínimo de propósito para precipitar esse fim (que você sabe não existir). Não. Não vou mais deixar você tocar o meu coração. Nem que eu tenha de torná-lo um cadáver prematuramente. E não importa se você é o único que consegue tocá-lo. Porque também é o único que consegue feri-lo. Nessa merda de vida estou no tronco. A cada chibatada que levo em minhas costas, em meus olhos, em meu sexo, em minhas mãos, o meu verbo fica mais feroz, mais veloz, mais azedo, mais cortante, mais fodido, mais ensanguentado. É um verbo inútil que serve apenas para me iludir por segundos, achando que estão destilando por meus dedos o veneno que está no coração. Mas acaba o texto e o veneno continua lá, intacto e zombeteiro. O que é o veneno? Vida retalhada? Amor apodrecido? Falta de fé? Falta de poesia? Consciência da futilidade de tudo? Sonhos incendiados em cinzas? Ou é apenas lucidez?


Segurando-se com as duas mãos à mesa, ela levantou-se mais uma vez. Dessa vez, com mais dificuldade, não deixou de notar. No chão, onde ele a tinha deixado ao desferir um golpe impreciso contra o seu rosto, ela ficara por alguns minutos. Não lembrava ao certo. Não estava desmaiada, apenas entorpecida. Não achava que o esforço para levantar valia mais do que o esforço para continuar respirando. Era tudo a mesma coisa e não se sentiria mais viva em pé ou numa festa do que naquele momento ali no chão de sua cozinha que acabara de limpar. Olhou em volta e percebeu que a porta estava aberta e havia muita claridade na casa. A claridade fazia seus olhos doerem. Há dias que não via a luz do sol. Ele a proibira de sair sem sua companhia, para se certificar de que ela não contasse a ninguém. Precaução desnecessária, pensou. Mesmo que lhe perguntassem a razão de seus machucados ela não seria capaz de falar. Estava aterrorizada demais para isso e, no mais, que faria depois de sair dali? Não achava em si mais vida para viver em lugar algum, mesmo se algum dia alcançasse a liberdade. O que poderia fazer com ela? Pois que nem mais sabia quem era ou o que gostava. Havia há muito perdido a sua identidade para os terrores da violência. E o coração? Este, há anos não sente nada mais além de pavor e uma dor adormecida, cicatrizada em desesperança. Não. Definitivamente, ela desconhece o que poderia ser a vida fora dali, uma vez que não existe mais para ela no mundo qualquer esperança, nem amor e nem liberdade. Havia apenas algo muito concreto, a dor em seu rosto, o sangue que vazou de sua sobrancelha e a certeza de que nunca mais se sentiria humana.


http://www.deviantart.com/art/misty-in-Paris-595560256

Nenhum comentário: