sábado, 7 de maio de 2016

O amor em número de dez

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Por Germano Xavier



I – Alguma hora da tarde

Eu queria ser sensata, prudente, objetiva e compreensível. Você me faz ser metáforas e absurdos. Você exige de mim a fluidez de um ser humano e a liberdade de um coração em quarentena. Não quero ser carne crua nesse mundo. Ou quero. Só não sei o que quero agora porque você se interpõe entre mim e a minha falta de sensibilidade para com a vida. Você me obriga a reconhecer que nem tudo se resolve na mente e em ignorar a própria dor, os sentimentos alheios e as coisas más da vida. Você me obriga a ser humana e isso me desnorteia. Preciso esquecer você ou mudar o que sou. E agora essas duas coisas são impossíveis.


II - Ontem

Não gosto de dar a você e sentir por você coisas que não quero mais que existam em mim para o mundo, para ninguém. Não quero perdoar, me sentir presa e nem me sentir necessitada de algo ou alguém. Quero me bastar e não sofrer por isso e não sentir falta de nada e de ninguém. Mas sinto falta de você e me dói (e só me dói com você) quando não me corresponde nessa sandice ridícula - por que falar a verdade me faz sentir tão estranha, tão desumana e tão diferente dos outros? Algumas coisas nem digo em voz alta, por medo de me jogarem na fogueira. O mundo não aceita os divergentes. Você me aceita?


III - Agora

Veja você: O dia acabou e não se passaram dois minutos seguidos sem que eu lembrasse de você. Não como uma ocupação, mas como uma sombra na alma. Hoje, nessa noção de sua presença em outro espaço, havia culpa e constrangimento - pelo que te falei ontem. Uma tristeza sem nome como as coisas imperativas da vida. Aquelas que não conseguimos evitar. Você estava presente não como um pensamento constante, fixo, mas apenas como um reflexo da memória, um não-esquecimento. Uma lembrança fluida, não um pensamento costurado objetivamente.


IV – Você

Você (presença-ausência) é o espaço onde transitam todos os meus monstros, os meus fantasmas conhecidos, negados ou ainda não suspeitados por mim. Você (minha relação desesperadamente irracional com você) é onde me confronto. Onde questiono a minha ética, minhas crenças, meus valores, minha força, minha sanidade, meu futuro, meus sonhos... Você é o lugar onde vocifero e me despedaço, mas é também o lugar onde me abandono. Um descanso reconstrutor, lúdico e poético. O amor.


V – Ainda você

Minha fúria, minhas dores, minhas convicções (que são dúvidas em revezamento) passam por você todos os dias. Você me descobre e me desfaço e me refaço. Em você.


VI – Uma dor distante

Eu ainda não conhecia. Há tanto escrito seu que eu ainda não conheço! Ainda bem... Nem todos me fazem bem. Alguns me fazem sair da leitura com a sensação de que morri em algum tempo passado e que só uma espécie de sombra e uma remota memória restaram de mim. É uma dor distante, eloquente, difusa. Uma espécie de remorso de algum crime esquecido ou uma perda de algo que eu nem sei o que é, mas que está ali, em algum lugar escondido em suas palavras... algo que eu perdi em outra vida está lá e eu apenas lembro, mas não reconheço e nem posso nominar. Eu odeio a palavra escrita. Eu amo a palavra escrita. A única arma capaz de me ferir nesta vida é a palavra... e a falta de amor em mim.


VII – Por que não?

Depois de percorrer mais algumas linhas do passado dele, decidiu que não. Nunca mais o seguiria onde quer que tenha ido. Nunca mais o leria onde quer que tenha escrito ou para quem que tivesse escrito. Ela odiava o que ele escrevia para elas, especialmente para ela - aquela que, por sinal, parecia a coisa mais transparente, frágil, delicada e insossa que já existiu. Bonita, sim. Tão feminina que deve ter dois úteros e meia dúzia de ovários. Voz de passarinho cansado, olhar de derreter pedra. Não se sabe onde começa o teatro e onde termina a pessoa. Uma pluma perdida no mundo. Pousou no lugar errado, a criaturinha feliz. Talvez tivesse sido planejada para ser fada, o serzinho doce, inocente e gentil, que olha as nuvens, o céu e o amor e suspira como se o mundo fosse perfeito, mas, por um erro de cálculo nasceu humana. Depois de pensar se escreveria isso que ele nunca vai entender, decide: Sim. Por que não?


VIII – Teoria crítica

Há anos não deixo de falar pra ele tudo o que penso e sinto sobre ele e sobre as pessoas que o cercam. Sobre ela, ele nem sabe de quem falo... talvez saiba... Aquela com ar de superior disfarçado de espontânea humildade. Talvez pela influência da região de nascimento... Eu desprezo esses seres que nunca olharam para a miséria ao seu redor e concebem o mundo como o seu playground. Ela flutua em nuvens e desenha (ou escreve?) florzinhas. Uma porcelana bem acabada, porém tão fina que quebraria no primeiro esbarrão com a realidade. Pelo menos - e temos aqui apenas ficção, pretensa dedução e uma alta dose de despeita -, é o que aparenta. Perdoem-me os críticos, mas não tenho compromisso com a realidade dos fatos neste texto, apenas com o meu passional - e justo! - julgamento.


IX – Conquista

Da outra sim, eu gosto. Repito: odeio o que ele escreve para elas, mas desta - e somente desta) - eu gosto. Gosto de um jeito quase doloroso, pois foi inevitável. Tanta grandeza de alma, tanta verdade crua, tanta beleza triste, tanta acidez perfeita, tanta graça na dor que ela sabe... Impossível não amar a coisa amável quando ela é verdadeiramente poesia. Até dói admitir, mas o faço por justiça e por ter sido conquistada... Ela parece mais verdadeira, mais real, mais poética, mais humana, mais falha. É de carne e osso e de absurdos. Incoerente, incongruente. Uma linha curva, como o amor. Como toda pessoa de valor deve ser. Ela parece ser feita de erros e de quedas, de superação e de resistência. Ela é aguda. Ela sofre, agoniza, erra, ama, pragueja, ironiza, radicaliza, morre e ressuscita. Ela pisa em brasas e escreve em sangue. Mais parecida comigo. Ela - aquela de quem nunca ouvirei - é alguém que aprendi a admirar lendo-a apenas nas entrelinhas dele. Nas entrelinhas das linhas que ele sempre escreveu sabendo ou não, querendo ou não. Ele escreve pessoas. Todas as que conheceu e amou ou não, todas deixaram histórias e rastros em sua literatura. Ele é muitos. E eu o amo todos.


X – Post scriptum

Não me censure. Nada é sério. Apenas divagações sem importância. Falo de personagens. Tu sabes. Te amo.

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