domingo, 29 de maio de 2016

Um rio correr

*

Por Germano Xavier

um rio correr
pode entre escuras pedras
esconder insustentáveis tristezas d'alma
como se sobre as águas um grande saponáceo
levasse embora particulares encardidos?

um rio correr
num engendrar se estende à dionisíaca música
concebida como êxtase em pleno quadro
de nos restar apenas a grande e ligeira vez
dos mais abertos silêncios?

um rio correr
qual romance sem quem nem ninguém
opera clausuras em divórcio irreparável
por cada uma reação perdida
na irresistível confusão dos sentidos?

um rio correr
convencido de que é dentro que se vive
em nós a ondulante catástrofe da beleza
abrigará em ondas lentas toda declaração
de que passamos depressa e de que ficamos
a aplaudir angústias ao fim da linha?


* Imagem: Germano Xavier/Arquivo pessoal

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