quinta-feira, 2 de junho de 2016

Um segundo no passado

*

Por Germano Xavier


#1

aquela pálida sofisticação em seu rosto
aquele viço opaco em seus olhos
a fria penetração do olhar
um tudo gritando a falta de sons

o toque curto da mão
a fuga lenta da língua
um nada salivando o amargo agora

uma anunciação:
angústias de encher infernos


#2

Já era noite. No inverno as noites naquela parte sudeste do país chegam antes de serem desejadas. Estava frio, mas ele, naquele momento, estava entorpecido demais para perceber isso. Resignado, recostou-se à cadeira com o rosto retorcido de preocupação. Estava sozinho e precisava pensar em um plano possível e que fosse capaz de minimizar os danos inevitáveis. Era uma questão de tempo, ele sabia. Agora, de horas, talvez, minutos. Debruçou-se sobre a mesa para tentar ordenar os pensamentos. Fechou os olhos com força, tentando enxergar a situação o mais claramente possível. Apertou a cabeça com as mãos num esforço de ajudar a controlar os seus rompantes mentais. Não conseguia nominar o que sentia. Culpa? Com certeza. Mas não apenas. Era medo. Mais do que isso. Era pavor. Pavor misturado com um pressentimento doloroso, pesado, terrivelmente sádico, que fazia todo o seu corpo desabar na cadeira como um saco de batatas podres. Estava perdido, não havia dúvidas. Talvez fosse melhor apenas esperar o momento fatal e abandonar-se às consequências. Tinha, a essa altura, muita dificuldade para respirar e o cérebro recusava-se a focar numa improvável solução emergencial para salvar a sua vida. Por que esperou que a situação chegasse a este ponto? Há quantos anos vem evitando o confronto? Nem se lembra mais. Só sabe que agora, nada mais parece importar além da contagem regressiva até o momento final onde, finalmente, ele será confrontado com sua inadiável tragédia: o verdadeiro amor.



* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Looking-561400933

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