terça-feira, 28 de junho de 2016

Uma grande pergunta

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Por Germano Xavier


Não sobrará nem um verso pra contar a história. Tudo se passou na penumbra, à margem do tempo e da história. Sem registro e sem testemunhas. O mundo já deu mais de uma dúzia de centenas de voltas. A cabeça do homem girou em falso. A trombeta tocou. Tudo, tudo mesmo, passou. E quando falharem as memórias dos poucos sobreviventes, qualquer um poderá jurar que nada daquilo aconteceu. Tudo se passara apenas na imaginação de alguma alma fantasiosa. Quem? Quem no futuro poderá afirmar que sim, que havia um abismo dentro de uns olhos verdes que engolia pessoas? Tenho apostilas cheias de traças junto à parede. Fios enrolados que só ocupam espaço. Livros de listas pesados, abertos só em casos de visitas. Cartuchos de impressão vazios. Um pequeno tigre de pelúcia a me olhar risonho. O tigre borgeano ria de mim? Ria de nós? É que sinto tanta falta de você que chego a ter raiva do tempo e do creme depp cleansing que sumiu do box do meu banheiro, ontem. Ontem não encontrei você. Quanto tempo faz aquele pão seco dividido? Hotel estranho invadido. Seguranças trôpegos. Toda uma teoria de escape. O amor nu. A água que invadia o quarto. Qual será o nome deste abismo? O nome para esta coisa?! O teu abismo que não me encontrou antes, o meu abismo que me fez chegar tarde pra você. Queria ter te conhecido antes de tudo. Antes desta gordura por detrás da pele. Antes deste enfraquecimento. Antes de sermos tão marcados, antes de sermos incompatíveis, antes de ser tarde demais para vivermos uma história comum, normal e finita. Como todas as que tiveste. Como amo tuas histórias! Como amo tuas estórias! Gostaria de ser uma de tuas lembranças bonitas. De amor e de saudade. Mas história vivida. Com tudo o que tempo e convivência trazem de presente. Uma coisa inteira. Uma coisa etérea. Uma coisa espantosamente arte. Acho que nos restou apenas a penumbra, a saudade absoluta do que nem sabemos bem e... O sempre. Eu que te amo pra sempre no sempre. Eu que sou a vida. E a vida se atrasou para a vida. Atrasou-se para o dia. Impressão de ela estar sempre atrasada para os seus compromissos. Eu, que sou minha própria vida. Até que um dia, atrasou-se para a morte... e continuou vivendo. A vida. Eu, em pessoa, a me perguntar, insistentemente, se tudo o que vi e vivi e o que não vi e que não vivi seria literatura.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Waiting-105741597

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