sexta-feira, 15 de julho de 2016

Havia passado

*

Por Germano Xavier


# o futuro que ficou


como se eu fosse apenas uma geleira,
condenado a dissipar-me num oceano desconhecido
e a nunca mais encontrar seus pedaços,
sinto-me derretendo sob o calor da tua ausência.

mas não importa que figura bizarra
ou extravagante eu use
para dizer
o quanto estou doendo tua falta,
tu ouvirás apenas um grunhido indecifrável,
cacofonia e espasmos.

pelas ruas dos teus olhos,
passeio minha solidão de ti.

mas enxergas somente as roupas, as coisas
que carrego nas mãos e as calçadas
que seguram o meu tombo.
você não viu,
mas havia um rosto atrás das lágrimas.

e havia carne embaixo das palavras úmidas.
você não pode ver,
mas havia cacto sob a pele de se expor
e havia passado
no futuro que ficou.



# o passado que nos resta


Hoje ela acordou antes do despertador, programado para as seis horas da manhã de todos os dias, exceto finais de semana. Acordou preguiçosamente, como sempre fazia. Gostava de ficar na cama curtindo os dez minutos de preguiça sagrada dos que costumam acordar sozinhos. Ainda de olhos fechados ouviu passos e imediatamente foi invadida por todas as emoções da noite anterior. Era ele, pensou. Ouviu seus passos, sentiu sua presença indiscutível, até o seu cheiro estava no ar. Ficou ouvindo ele se afastar da cama lentamente, fechando a porta quase sem barulho algum. Mas ela sabia. Ele estava lá. Com um riso de puro contentamento desenhado no rosto, continuou de olhos fechados. Não queria perder aquele instante pleno de poesia.

Ele havia chegado cedo na noite anterior. Sem aviso prévio. O que a surpreendeu absurdamente, pois ele não é de fazer surpresas. Nunca. Aliás, ele é o planejamento em forma de pessoa. Sistemático, organizado e muito, muito mesmo, perfeccionista - mas às vezes, ela sabe, às vezes, ele é apenas vontade e amor. Mas ele veio. E esteve presente. Tão envolvido naquele inesperado encontro como raríssimas vezes tinha acontecido. Naquelas poucas horas houve amor. Houve poesia e verdade para nunca mais serem esquecidos. Sim, ele veio e esteve. Houve amor como só ele sabe. Ele constrói amor com os dedos, com os olhos, com palavras, com silêncio. Até com a sua ausência ele constrói amor. Ele faz amor como quem brinca. Como quem sonha. Como quem morre. Quando ele está não há passado, nem futuro, nem lembranças além de seu rosto. Quando ele está a vida é absorvida por seus olhos, sequestrada da Terra e levada para o seu mundo de ser amor. Tudo começa num olhar e termina além dos limites do universo. Ele é um círculo de fogo. Ela sabia. Sim. Ela sabia muito bem. Precisava levantar. Era dia de trabalho. Disso ela também sabia. Sem se perder dele, virou o rosto e abriu os olhos. Viu o livro. Não lembrava o que estivera lendo na noite anterior. Abriu o livro sem olhar o título e leu na primeira página, não com surpresa, mas com efusiva felicidade: "- Fizemos amor ontem".


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/the-last-door-621588998

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