quarta-feira, 6 de julho de 2016

O absurdo de você ainda

*

Por Germano Xavier


sei que há uma poesia em você para mim,
uma poesia germinal,
um rascunho trôpego, faminto, suplicante,
mas dotado de vitalidade imanente
e de uma resistência pacífica.

não é tempestade
nem fogo,
nem sol
nem grito,
é orvalho e penumbra, 
é grunhido e sussurro,
vento sereno e cinzas
em ressurreição.

sei que há uma poesia doce e simples
feita de gestos raros e palavras poucas,
modesta e ainda preciosa por apenas ser
marginal (conquistada em guerrilha),
clandestina e furtada sem culpa da tirana vida bestial,
bela por não precisar ser.
por ser, por ser nossa, por ser única.
poesia com cara de pôr-do-sol sem sol.
apenas a certeza de sol encoberto em nuvens incertas.
poesia opaca, nua, carne, cerne.
substância incolor por ser pura,
vislumbre de nossos dias de além -Terra.
uma pequena e silenciosa revolução
atravessando os anos.

quadro de nossa existência paralela
no absurdo de você ainda.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Untitled-617598682

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