domingo, 10 de julho de 2016

O homem dos altos silêncios

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Por Germano Xavier


Na foto ele não parecia feliz. A felicidade é mesmo um grande enigma. A felicidade, talvez, seja coisa para poucos. E ele era muitos. Mas, pensando bem, não lembro de nenhuma imagem dele onde ele parecia realmente feliz. Ele não era feliz, definitivamente. Nem era triste. Era poeta, como escreveu a poeta. Sim, era poeta. Poeta não é feliz nem triste. Poeta é. Nas outras ele era apenas ele, nas outras fotos. Um mundo fervilhante contido. Um caldeirão. Um rio inteiro. Uma cachoeira. Imagem bonita é a de uma cachoeira. Mal contido, vale ressaltar. Ele. Ele na foto. Naquela foto. Naquela imagem. A imagem não é o real. A imagem é. Mas nesta foto, a que ele me mandou apenas para me fazer parar de pedir, ele está menos contido... vejo um riso interno. Ele está vivo. Não está morto como antes. O poeta está vivo. Ressuscitou. Ou em processo de. Talvez por ter descoberto que conter-se não vai fazê-lo ferir menos o mundo nem a si e muito menos desagradar em menor intensidade a quem desagrada. O poeta revive. O poeta sorri. O homem dentro do poeta está de novo no mundo. Nesta foto, ele parece estar mais presente, mais consciente de si, de mim, de tudo. Ele sabe que existo. Ele sabe que o amamento. Sabe que nem a distância é possível para. Nada o aniquila. Nem o tempo. Tempo, com T maiúsculo. Ele está dizendo com os olhos, com a pele, com a seriedade doida que sempre carrega na face, que não está mais jogando. Ele perdeu o jogo. Ele soube perder, principalmente. Ele sabe que perder é vencer, também. Hoje, seu jogo é outro. Cauteloso. Está apenas vivendo... Subvertendo as mortes diárias. Recriando diálogos com a morte. Conversando com a vida. Olhando a sua foto, ainda percebo que ele continua bonito, lindo como sempre. Mas o aspecto geral é frio, incisivo, quase hostil (talvez pela circunstância em que tirou a foto). Ele mudou. Ele mudou. Ele transmudou. Ele camuflou. Ele mudou, mas não muito. Pouco. Gostei especialmente de alguns fios de seus cabelos ficando brancos... São só alguns fios esparsos no alto de sua jovem cabeça. Sua cabeça de coisas. Cabeça-volante. Ainda falta muito para ficar um lindo e respeitável senhor dos anos. Mas ainda assim é lindo de ver. Sinal de muitos dias... Sinal de seus dias. Dias absurdos. Dias de melindres. A barba ainda o acompanha, ainda, como se fosse testemunha de seus atos. Os olhos verdes sempre verdes para quem os vê. Os olhos verdes que mudam com o sol. Com a luz. O bigode de carinho, as sobrancelhas boas de delinear com os dedos, lábios generosos em carne de beijar, recentes olheiras por muito estudo e preocupações. E tudo o mais aquilo que só ele sabe... E tudo o mais aquilo. Os óculos completam o look de intelectual que ainda vive no mundo real, pero no mucho. Ele não é daqui. Ele é. Daqui, de perto. De muito perto. De bastante. Elegantemente rústico. Delicadamente forte. Ele. Você. Eu. O homem dos altos silêncios.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Lonely-596375212

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