quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Chuva serôdia

*

Por Germano Xavier


"Yo agito pañuelos en la noche
y barcos sedientos de realidad
bailan conmigo."

(Excerto do poema La Jaula, de Alejandra Pizarnik)


o que há contido nos contém.
não é mais que uma morte o amor,
modo de semear o solo, grão úmido, 
vida ou esfera maior.

eu sei das águas viscerais
e sei dos ásperos mares.
eu sei do feminil concerto de tua boca,
da lâmina que é teu ventre,
do fértil desastre dos desperdícios,
daquele estrondo incontido e elevado e vocal 
nas manhãs umbilicais de teu rosto.

nem areia nem sílica, o líquido na taça.
o conteúdo que bebo, o que me põe a refletir, 
o que me embriaga, o que tem cheiro, gosto, cor.
o que não é estanque.
o que é agressão, mas não moléstia.
o que ondula, invadindo.

não misturo o que não importa.
meu grito é um incêndio natimorto.
falo por meio dos silêncios 
e eu escreverei acerca de uma mulher de tantas farturas/ 
que viveu sob o tempo das belezas menos impostoras/ 
um mistério de longos cabelos negros/ 
seios fartos, mãos torturantes, calorosos recantos/ 
e de angústias caminhantes.

(uma mulher imperial)

estou na última estação.
o trem descarrilado me eleva inquéritos de ordem.
toda a minha moral me sucede. 
sou precedido por respostas.
abrir a boca e beber o vento é já minha sina.
engulo doses de ar, cunho-me na pose onde me dispo
de mim, de toda aurora sem cor, 
de qualquer queda sem dor.

e tu ocultas o carmim dos sonhos doentes,
a fúria das insones sombras ao meio dia.
tu, la muerte desnuda, mi nombre hasta el alba,
mi gran muerte y dulce cansancio.

lá fora a lua,
a última estrela da loucura,
única certeza.

cá dentro o sol 
e o inferno de te saber.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Chuva-142676281

Nenhum comentário: