terça-feira, 30 de agosto de 2016

Cindido, era assim que eu era desde

*

Por Germano Xavier


# a

quando o dia chegar já estaremos fartos dele
as cordas que nos prendem não deixam soltura para escapes
a alma tenta escorregar pelos buracos invisíveis do dia
a poesia se esgueirando entre os dedos
chega longe
e quase vive


# b

quão escritas estão as nossas páginas em branco?
quão cheios de nós estão os cômodos que nunca habitamos?
quando nos expulsou a estrada que ainda não andamos?
veio aberta a carta secreta
violado o segredo da felicidade
roubada a grande esperança
não era o meu o solo que me pariu
a vida que não comecei
acabou por me terminar


# c

na guerra que compartilhamos
o conflito é irrelevante
e que valor tem o sangue derramado?
sua cor e origem
é o que importa
para os jornais
para os anais
diga:
que cor tinha o pelo
do macaco seu ancestral?
ele usava garfo pra comer bananas e grelhava bem a carne do rival?
civil civilização civilizados
a guerra tem nomes bonitos
quanto é feia a boca que a faz


# d

não importam as armas
não importa a história
não importa a duração
nem o tamanho da encrenca
o conflito é irrelevante
o que importa é que estamos aqui
em silêncio amoroso
ou gritando impropérios
felizes ou morrendo
em fila indiana
importa é que estamos
instalados na luta
ou pendurados nela
pelo nariz
fazendo revolução em guerrilhas
em trapos de convicções
em doce ilusão de estar
fazendo revolução em guerrilhas
com amor e alguma poesia


# e

nem lua
nem constelações
uma estrela cadente
me cai bem


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Delerium-631507941

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