domingo, 28 de agosto de 2016

Refrigério

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Por Germano Xavier


Início da tarde. Domingo. Fim do mês. O ano entrando no limite. Ponho-me a escrever munido de tua imagem no pensamento. Penso em você o dia inteiro. Há uma nuvem espessa que se adensa entre nós. Ninguém haveria mesmo de dizer que seria fácil. O mundo é tão feito de acasos como os nossos, como os meus, como os seus. Somos dois acasos? O que somos? O que seremos? O que seremos amanhã? Por que eu já te amo tanto? Sim, eu te amo. Sim, eu também te amo. O amor será sempre uma palavra em tua boca. E poemas para você na minha. E algo mais que me incendeia. E estou implorando algo? Nesta vida só implorei algo a um ser: Deus. Naturalmente, ele não me ouviu. Talvez você seja mais generosa. Ao menos você é real.

Não se dê para esses imbecis, os que te assediam sem saber de tua alma. Portanto. Você não merece isso. O que eu mereço? Você? Ou uma nobre e recatada solidão? Eu te amo! Eu amo você. Eu sei. Mas eu não acredito em estrelas - não sou eu que acredito em estrelas! Não voo. E nem titubeio. Eu te amo em queda livre sem amarras de segurança. Mas posso acreditar em estrelas. Depois de você tudo é possível. As pedras, antes de machucarem teus olhos, eram flores dentro de mim. Eram pingos de mel em meus lábios. O veneno, meu bem, a raiva de tudo que transforma em pedras, as flores que quero oferecer. Perdoe-me pelas pedras, pelas flores. Pela incapacidade de te amar serena e docemente. Como tu. Mas te amo. Em fúria. Em estrangulamento de saudade. Em guerra contra tudo. Em resistência.

Mostrei para teus olhos de dar vida toda a força de minha fraqueza, lustrei feridas, aferi doenças e calculei resultados. Carreguei o fardo da sinceridade doentia para adoecer teu olhar para o meu olhar adoecido. Você apenas sorriu. Sem rejeição no olhar. Livrou-me de mim. E sobrevivo hoje. Se me tirassem o direito de te amar a pretexto de pureza ou protocolo social, me encolheria em recusa e se vencida como pássaro sem bico no fim de tudo e com secreto ardor te chamaria de amigo, você diz. Mas não é amizade, você sabe. Somos improváveis somente em sendo assim.

Você, todo um laboratório. Mistura, composição, alquimia. Foi você quem patenteou o perfume do amor? Há momentos em que preciso apenas de alguma coisa tua, com urgência de vida, um oi ou uma flor virtual. Não posso esperar muito, mas desejo infinito. Tão pouco já me alimenta, mas você me deixa com fome. Quase sempre. Às vezes não. Às vezes você é banquete. Mas minha fome vem diariamente. Por isso o pecado tão próximo, o do exagero. Porque até o amor requer calmaria. Requer fluidez. Leveza. A verdade é que fui ao fundo do poço por você. E lá, quando toquei a circular parede, percebi que o fundo do poço não é só escuridão. Fechei os olhos e enxerguei com o coração. Em minha frente, logo ali, uma linda mulher pousava suas mãos nas teclas de um belíssimo instrumento de cordas, mais antigo que a própria música. O temor, por um longo instante, tomou-me disfarçado de esquiva. A entrega só veio depois do primeiro olhar, na distância inconteste e impiedosa de alguns poucos centímetros quilométricos. Foi vivo. Sabemos.

Encontrar você no fundo do poço foi como quando sofri a mais vasta das seduções literárias, mesmo sabedor de que uma sedução literária não precisa de ornamentos, já que o simples ato de seduzir não vale muita coisa. Mas valeu pelo que me revelou. Há humanidade no que construímos. Existiu sentido em você. Lidar com o amor é fazer um exercício de troca de perspectivas. Falar sobre o amor é, em certa medida, dialogar como o ponto de vista do outro, na tentativa de compreendê-lo e de fazer analogias possíveis com o nosso. Nada no amor é inútil, nem o que nele faz doer. Certeza. O amor, esta dupla viagem. Esta guerra!

O que ficou, refrigério. Ainda é começo. Estrada interminável. A viagem se configura. Relevo íngreme. Somos personagens do sempre. Um livro se espelha como definidor de luas. Conversa iniciada. Solar. Amor que amo em mim. Você respira. Com todos os alvéolos. Uma saudade instalada. Eu que me preocupo. Eu que durmo pouco. O receio da gente se perder ainda no início. Aquele sonho: sonhei que eu estava nos anos 40 em uma festa ou encontro com a mocidade - e estávamos em uma roda ou coisa parecida - e por dentro eu tinha uma vontade imensa de saltar - pular, elevar-me -, mas tinha receio daquelas pessoas que estavam por perto formando um círculo. Então, um moço pegou minha mão e elevou-se bem alto, deu uma pirueta e me levou com ele... O transcorrer do sonho foi sobre esse mesmo salto - sendo ele em outros lugares de outras maneiras... Você diz. Eu digo. E pensar que estamos bem além de uma simples dança. Esse amor disforme. Gotas de vida, pingo a pingo, enche rio, enche mar.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Got-The-Greys-579802304

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