quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Retalhos in natura

*

Por Germano Xavier


#1

digo não
ao remédio maquiador simplório
de dores inatingíveis. digo não
aos paliativos modernos
para entorpecer sentidos e disfarçar
a aparência da dor. prefiro deixar a ferida in natura
doer naturalmente, esgotar seus impulsos torturantes
sem nenhuma tentativa invasiva
de conter o seu fluxo natural.

a natureza da dor é doer.
a minha é sentir.



#2

tenho medo de não conseguir. tenho medo
de sucumbir ao fundo das coisas e não voltar mais.
tenho medo de olhar para dentro do abismo
e ser sugado para as entranhas da luz da realidade sem máscaras.
tenho medo de não olhar fundo e perder a visão do coração.
tenho medo de olhar torto e perder o ângulo onde tudo faz sentido.
onde o sentido faz tudo.

tenho medo de fechar os olhos
e perder o relance onde afloram as respostas.
tenho medo de piscar no momento exato da revelação de grande valor.
ou do valor da revelação. tenho medo
de não ver o amor chegar, ficar ou ir embora.
tenho medo de o amor não ver. de me ver. de amor. de.



#3

não posso voltar... já gastei o amor que só vem uma vez. por vezes, tenho inveja dos mortos. porque eles não sentem nada. não consigo dormir. e também tenho vergonha de pertencer à raça humana. tenho uma lágrima aqui... me desculpe por ser ela também tua. tua lágrima em mim. eu lágrima tua. eu vida escorrendo em minha face tua. tu, lágrima minha. não quero dormir. não quero acordar. eu quero escorrer em teu rosto.



#4

você não existe, Deus! você não existe! mas, se você existe... quem pode se recuperar de tua crueldade? onde você estava quando os inocentes foram violados? quando os bons foram assassinados? quando os sonhadores foram enganados? quando o mal destruiu o que nos disse para amar, onde se escondia? por que nos deu o amor quando sabia que o ódio era o nosso destino? por que nos fez amar o que nos tiraria? você não pode existir. não pode. se existe e fez tudo isso, gostaria que não existisse. não posso conceber tamanha maldade irônica num único ser. não sei explicar que radical loucura te move, se sadismo ou tirania ou brincadeira de mau gosto.


#5

Sim. Talvez eu tenha achado bonita demais aquela dança. Uma dança assustadoramente sensual, poética, íntima e profunda. Um êxtase para olhos sensíveis e levemente tristes. Sim. Talvez eu tenha desejado imitar. Mas sempre soube da exclusividade dos milagres. E do inatingível do amor demais. Sim. Admirei aquela dança que, de tão íntima, chegava a ser constrangedora. Admirei e amei o amor que escorre da poesia. Mas sou apenas olhos cansados. Sonhos interrompidos e rio a correr sem rumo. Não imito. Já tenho o meu próprio modo de ser infeliz.


#6

Sou tenso porque o mundo é hostil. Sou teimosia em riste. Sou lágrima em cascata. E quando digo que amo é porque já eliminei todas as chances de dizer que não. É porque já calculei e provei que não amar não é mesmo possível. Não nesta vida. Não nesta sexta-feira de tua falta. Não nesta brincadeira inocente onde ninguém se machuca. Mas essa brincadeira não é muito inocente. E alguém já deixou pedaços ensanguentados pelo caminho. Depois fechou o parêntese e começou outro parágrafo. Não precisamos de muita coisa para fazer o mundo girar, não é mesmo? Só do mundo. E do giro. Você veio e apagou a luz. Depois tudo virou passado e cortesia fingida. Cantiga de amor às avessas. Relatório de erro. O amor. A vida.


#7

Você pensa em mim. Eu penso em você. Você titubeia. Eu falo do nada. Você musica. Eu poeto. Digo que a rosa é simples. Você crê em estrelas. Faço pipas solitárias. Você voa. Cadeio-me. Livro-te. De mim. De você. Olhamos diferentes para a mesma estrada. Critico aspectos metodológicos diversos. Tudo é tão. O amor. É vão?


#8

não sei se foi o dia
de chuva
ou a natural deterioração
do tempo
mas hoje a saudade
veio com a força dos séculos
pesando em meus ombros
a tua falta presença



#9

a certa altura
toda a poesia vira pó
e a palavra amor,
(entre clichês familiares),
a única inscrição

(grafada às pressas)
na improvisada lápide



#10

Não tem jeito. Vou continuar apertando o botão da dor pela falta de. (Ou é autocomiseração? Ou é estupidez? É exorcismo. Patético. Como todo exorcismo). Um pouco mais e até entorpecer. Talvez perder os sentidos todos. As vontades todas. As lembranças todas. A vida toda. Vou continuar correndo atrás do trem, ou talvez, na frente dele, um dia. Não sei onde ir para te encontrar, amor. Não sei onde ir para não te encontrar, meu amor. Mostre o caminho para a tua exatidão. Nem o inferno, nem a vida, nem a ideia da eternidade. O que me aterroriza e me tortura é amar você.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/con-sentimento-134836052

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