sexta-feira, 5 de agosto de 2016

São centauros os meus cavalos

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Por Germano Xavier

(um texto ainda por terminar)


I – A CONTA DOS FRACOS


Sábado, 25 de dezembro.

- Não! – gritei, com a voz fincada para dentro.

O percurso palmilhado, aberto em fendas, não me é estrada já há alguns dias. Os dias estão passados para o Homem. As noites estão passadas para mim. O dia sou eu, a noite também. Esvaíram-se todos e tudo, absolutamente. Nenhuma contensão perante o tempo. Tudo sublimou, sumindo, indo. Quase tudo disse adeus, acontecendo, sendo. Todo o solo se diluiu em desassossegos e o espaço de preenchimento de uma medíocre alma humana como a deste homem - eu - é provavelmente um lugar impossível de existir.

Um rumor de fantasia, talvez.

Este homem sou eu, apenas humano, e como é impróprio esparramar-me no terreno do tempo e começar pelos detalhes mais escabrosos da memória!

Na verdade, o dia é uma lástima neste aurorar de ano. A noite, idem. Toda noite é todo dia. Eu começo nesta noite e não sei o que isso representa em diferenças. Somente um bando de estorninhos acuados e velozes e em fuga, caçados, aparenta-se localizável através das janelas que são os olhos do homem, do homem que sou eu. Os pássaros me camuflam e o resto é angústia, calamidade dentro e para fora dele, para fora e para dentro de mim.

- Sofre um animal caído - desinteligente? -, declarado morto por ter meramente levantado os dedos em riste e cerrado os punhos e querido se ser em completudes, em totalidades? - pensei, ainda tomado pela inicial vontade dos caminhos.

Ele suspeitava que fosse um homem como qualquer outro homem do mundo – mas não aceitava fácil. Sua condição própria exigia dele uma determinada carga de negação. Vivia assim, fazendo justiça com as próprias mãos, mesmo covarde como era.

Causo contado sem nenhuma exclusividade, pouco inverossímil, pouco o bastante para ser somente real. Basicamente a tímida e nefanda história de uma paciente por demais corruptível: a da soberania. Um errante, perdido em si mesmo, marcado por suspeitas e conjurações que, por vezes, nem chegaram a existir.

Aquele grito ouvido naquela noite de Natal soaria mais reacionário caso não tivesse sido eu mesmo o seu produtor, se não tivesse sido eu o próprio atormentado, se não fosse eu o meu particular abisso. Eu que nunca soube quem realmente fui diante do passado, se cresci, se já amei alguém, se já odiei, se tive inimigos, se tenho posses, se tive, se sou...

Toda a negatividade das ações, gestos de um mármore gélido, inacabado, de cor furtiva, companheiro de uma densa vida de aprovações e provações que eu mesmo não sei quando começou. Tudo estava dentro daquele barulho.

- Quando se está diante de uma estrada que você jamais ousou percorrer, o delírio tende a ser o único combustível” - refletiu, tentando suavizar-se momentaneamente, esperando que a reflexão e o silêncio viessem a disfarçar a real potência daquela hora.

Foi pensando assim que, naquela noite de dezembro, aquele homem, aquele homem que sou eu, conheceu a conta dos fracos.


Domingo, 26 de dezembro

Haviam quatro tonalidades de azul no céu da cidade, mas eram azulidões frágeis propensas à volatilidade das ordens do mundo. Certamente se esgotariam e deixariam de ser azuis no absoluto do negro da noite. Talvez tudo entrasse em ruínas numa determinada fase do dia. Nada de tão especial se não fosse, aquele, o céu da cidade de um homem possuidor de uma história.

“Cidades foram feitas para matar os homens”, pensou consigo, com uma branca impressão de que algum escritor teria imortalizado a frase que tinha acabado de construir. “Talvez um poeta, daqueles tristes, malditos... hei de me lembrar um dia”, corroborou. Na verdade, aquela cidade não era a dele de origem. Por dentro, ele sabia que nenhum homem pode possuir a sua cidade. “Cidades são como mães, que nos parem e que são desgraçadamente abandonadas pelos filhos, muitas vezes antes de se tornarem adultos”, disse novamente, numa tentativa de vencer a si mesmo.

Sentiu que estava em falta. É quase um costume saber-se rendido a todas estas manhãs e tardes ordinárias, a todas estas ocasiões especulativas, a todos estes comentários cegos. Decerto, ele estava em falta. Sim, em espera eterna, mutilado, de músculos flácidos, rosto ardido numa palidez indecisa, caído numa cama gritantemente nojenta de um pernoite barato, ali no centro, virando sofregamente as páginas de um livro do Puig.

Depois de alguns cochilos, signo das horas escuras, resolveu fazer um último ajuste no despertador. De chofre, a figura de Helia sobrevoou seus pensamentos. Presenteara-lhe o aparelhinho barulhento no mesmo dia em que falou a ela sobre a sua decisão, neste comenos já totalmente concretizada. Ele iria partir, mais cedo ou mais tarde, mas ele iria partir.

A imagem daquela mulher ainda era muito viva em sua memória, mesmo depois de tantos meses separados. Talvez abraçasse os dias com a ternura do seu colo ou tivesse o busto da Nefertite ou fosse ela a entidade própria. Um abuso de efeitos femininos, com raízes de mulher que cortavam os solos mais impenetráveis. Helia gerava vãos enormes que serviam de abrigo aos seus mais escuros vazios. Tinha ela lhe cortado com a faca que havia naqueles seus olhos, tinha ela ferido o homem com as armas do desconhecido que carregamos dentro de nossas carnes.

Ele a habitava, peremptoriamente, dia ante dia, resoluto, em permanente frenesi e enlevo. Aquele passar de lábios rubros e candentes, como tremelicariam diante do susto noticioso!

“Não importa o que você esteja fazendo ou para onde você esteja indo, eu quero a sua felicidade, eu quero o seu bem! Você é um desgraçado, você me desgraçou, mas eu me preocupo com a sua vida! Saiba que sentirei a sua falta, como jamais me acontecera...”, vociferou a fêmea, num ataque cambaleante que misturava ódio e resignação.

“Um pássaro, agora, sem asas?, um pássaro de longos cabelos maviosos, de uma mistura de cores fortes, balouçantes, um pássaro de mãos melindrosas, extremamente macias, finas e de uma alvura definida, um pássaro de sonhos esgotados?. Seria essa a Helia de agora-eu?, já interrompida pela possibilidade de perder de vista a forte presença daquele homem a dominar seus territórios de mulher?...

Ah, eu não seria tão fundamental assim”, sussurrou. “Eu não seria tão fundamental assim!”, repetiu, exclamando em bons decibéis para o lusco-fusco que dominava aquele aposento sinistro. O despertador marcava uma hora da madrugada, e tudo era apenas lembrança, um passado que ele queria esquecer.


Segunda-feira, 03 de janeiro.

Helia quis falar de amor quando, do telhado da casa, atirou em minha direção o que sobrou de uma velha antena parabólica. Já estava melhor, agora desbravando o local onde eu estava, e insistentemente continuava perto de mim. Falar de amor, para ela, era falar de tudo o tanto e mais, feição das horas. O que acabava tinha de ser amor, mas poderia ser chamado de avental, ou de cabide. Talvez o nome de um país. Inglaterra, quiçá! Helia era amante, e falava sempre no total das vestes do amor. A parabólica não passava de um mito. A captação dos sinais era feita por um receptor interno potentíssimo. As mensagens tanto chegavam como se despediam. A calha era sempre nova.

Helia quis falar de amor até na vez em que fez dos longos canudinhos de alumínio da antena parabólica a letal arma contra a estupidez humana. Ela seria assim, biscoito de se quebrar. A maquininha da boneca de plástico, o motorzinho de dentro a pulsar o sangue que havia. O coração de Helia batia no giro da pá do cata-vento. Batia girando, girava de brincadeira. Era sempre uma carinha de alegre o semblante daquela mulher. Ela amava, assim, como o vento ama a caminhada longa e sem barreiras. Amava sem pressa, sem cor o amor de Helia, sem cera, sincera. Amar era a palavra de Helia. Amar era o verbo de Helia. Amar fazia de Helia a mulher mais bela, porque era ela o amor.

O amor era Helia, era sua palavra e o seu verbo, seu verbo materializado, vivo no papel, esperando longe a ânsia de ser. Foi Helia quem descobriu que para amar basta dobrar o fio da tomada e amarrar com o aramezinho o saco de pão, que o amor é volátil como o litro de álcool que ela trouxe do supermercado para ajudar na feitura das unhas, que para amar é preciso desligar a televisão e deixar a caixinha de fósforo do lado esquerdo do fogão, para acender na véspera do vendaval.

Helia amava abrindo potes e lavando os pratos, em exercício de cozinha. O tempero do amor era o caldo do feijão verde, com cebolas tostadas, alho e um pouco de sal. O amor corado, borbulhando a incerteza das horas e o próprio estado de efemeridade que é amar... Helia pegava as facas e ia cortando as carnes, esquartejando-as. O osso ficava para os cachorros que porventura... Todo o resto não combina com o amor. Amar é cortar, lâmina afiada de aparar fagulhas. Depois, Helia era máquina de moer, pois amar é moer, é pisar na carne, amassá-la, apertá-la, comê-la. Porque Helia era mulher de pular do telhado, sem medo de cair de rosto no chão, e sangrar o sangue das enfermarias... Era uma boa desgraça ela, se assim poderia afirmar.

“Suas asas, podadas, e o seu resto?”, que fosse angústia aquele findar de vivências, mesmo assim, aturdido o relacionar-se, ele alquebrado, fragmentado, em pedaços, em miúdos. Mesmo assim. Estas coisas, estes fantasmas!

“Não há o que fazer, Helia.”

Ele rememorava.

A casa no centro, o ar abafado do quarto, a lembrança ainda viva de que era ali, naquele cômodo, janela cerrada numa eternidade de medos, o local de nidificar, em excessos, demasiados amores. A casa com dois quartos, parte da parede em verde fraco, a janela para a noite escancarada quase sempre, aquela imensidão de sentimentos, de angústias e de dores.

A lembrança dirigida à casa que havia sido o galpão de toda aquela fervura de corpos, o estábulo para tanta orgia e óleos humanos brotados da pele como uma erva que nasce, desenfreada, e interfere nas seqüências horárias de um tempo muito maior. A lembrança de pé, saltitando sobre a testa. A memória de Helia, Mnemosyne, como diriam os gregos, mãe das musas.

Pois fora ela, Helia, o despertar para um algo que lhe traria dor, sinônimo para um caos fabricado, o passado penetrante a ferir esperanças.

“Não há o que fazer!”, exclamava em urros, a coitada, olhando-se no espelho ínfimo do porta-batom de branco couro sintético, pensando sozinha.

Escute! Primeiro que eu não existo com você. Existir sempre me foi um troço difícil. Não quero me complicar. Ainda mais nestes tempos tão civilizatórios, civilizantes. Dividem tudo, julgam tudo, mataram Deus, nem podemos mais transcender, nós não somos nada. O dia hoje está tão bonito, sei lá, deixa. Acordei cedo e me deu uma vontade de andar por um bosque que nem sei. Pus um livro na mochila. Vou ler quando chegar ao velho carvalho. Minha tristeza viajou para longe. Foi tratar de negócios importantes, talvez.

Morar longe dos centros de nós mesmos, talvez aí esteja o segredo para fugir do sofrimento. Dizem que é lá no bosque bonito que também fica o inferno. O inferno nos olha todo o dia, fica na espreita. Ele é terno - e tisne não? – e nos acompanha. Hoje eu optei por conhecer o inferno, não outra coisa. Quero-o porque ele me quer. Venha de onde vier, com a máscara que preferir, mas tem de ser ele. Quero ser derrubado. É a minha doença e talvez o meu último dia aqui neste lugar. O mundo é o meu lugar. Ou não é.

Sou um terminal. Tenho a doença do meu pai e a doença do meu irmão e a doença do meu tio e a doença do chofer e a doença da ama e a da prisioneira... Eu tenciono algo e me acho responsável. Segura esta qualquer arma com o punho forte de você fêmea e me atira uma morte rápida se preferir. Que me paralise e me invalide, que me perturbe as vistas, ou que me torne nervoso e histérico, depressivo e suicida. Meu caso está registrado no amanhã e no hoje que é agora. Vou-me auto-submeter ao tratamento dos desregrados. Por vida, sempre sofri e não estou aguentando mais.

Você que pode até sorrir um dia irá relatar meus traumas e vai ver como sua infância foi tão nobre e silenciosa. A cura está no bosque e o bosque é sombrio. Lá coisas desaparecem, homens se perdem, gritos são ouvidos, lamentos e lamúrias se expandem pelo ar. E quando eu cair por terra quem vai me amparar? Sou romântico e vou morrer.

“Sinto que posso levar algo”, penso.

“Poderei levar a verdade? O que realmente importa daqui? Há alguma coisa que realmente sirva, que sentirei falta quando estiver morto? O teu sorriso? E o amor? Ninguém precisa do amor?”

Talvez já seja noite e eu estou te falando, falando, estou apenas falando, estamos sós, com quem estou falando? Quem é este que me cerca agora? Quem é este ser que me atormenta na quase-morte? Chega de saudade, chega de pouca ciência, chega de pouca miséria. Eu espero pela desgraça plena.

Apague o café, seu fogo. Feche a torneira. Encoste sua cabeça aqui. Sai daí e vem. Vem, meu bem, e me diz obrigado. Que o inferno é tão lindo, lá vou ler um poema.

Quase vomitando, Helia disse “você vai ficar e vou te bater na cabeça. Vou beber teu sangue, vou matar teu filho que ainda não nasceu, serei tua e você poderá voltar. Repousa aqui, estira estas pernas e vem, amor, vem que é hora, não se iluda mais, o céu só é um novo assassino. Faremos alguma pornografia, celebraremos o nojo, como quiseres, mas venha. Um banho nessa vida de festim! Corre para cá, encontro-te, e me traz, por favor, o teu medo do demônio”.

Há esta hora o quarto se transformara em uma ilha, incrustada na memória ancestral dos dois, escrita nos recônditos logradouros da consciência. Um mero quarto no centro da cidade, avenida Menezes Coimbra, 312, um continente. Um quarto peninsular, ligado ao humano apenas pelo fio da incerteza e do mistério. “Tola, Helia! Tola!”, insistia abertamente a se autoflagelar em constantes ataques verborrágicos que, no fundo, de nada adiantavam. Deixou cair a mão esquerda na altura de um dos bolsos frontais da calça jeans, puxou um cigarro. A chama curta do isqueiro, logo a baforada inaugural perfumaria os arredores.

Helia pensava, “não pode ser, todo esse tempo de entrega, de devoção, de uma quase submissão total àquele canalha, e agora...” E agora o sumiço, a repentina saída, estratégica?, do homem que por ela fora amado sem economias.

Não suspeitava que a dor estivesse tão próxima do gozo. Não era cabível ter de conviver com a ausência, com o vago, justo ela, Helia, 27 anos de espera, mulher pronta, sonhos maternais, já experiente na arte da bordadura, dois ou três conjuntos de peças infantis na estante, esperando, pois tinha de ser dele, possuir o rosto dele, a carne grossa dos lábios dele, que tanto sugou seu néctar amante.

Já ele conduzia-se ao desconcerto, ajeitando sua envergadura de anjo - ou de demônio? -, para tentar vôos mais distantes. Rumava para a mesma Auto-Estrada do Sul do conto de Cortázar. Ou não. Era uma tentativa, sim, e ele devia ser o camponês do Ariane, especulando sigilosamente sobre o simplório mistério de saber para onde estaria se dirigindo, flutuando deliberadamente por sobre seus delírios, solto e preso, em sandices. “Minha Alétheia”, resmungava. Sua verdade, seu destino. Tão quisto era assim como o esquecimento mais puro.


Domingo, 02 de Janeiro

Ouvi dizer que ela estava sentindo uma angústia, uma dor muito profunda. Eu não sabia que as pessoas sentiam dor. Imaginei ser o único. Ela resolveu telefonar para mim. Uma conversa rápida, cinco minutos ininterruptos. Cinco minutos dum aconchego em minha alma. Desejou me ver. Pediu. Veio, de ônibus. Eu ainda estava por perto. Não havia sido a despedida, aquela.

Sempre quis demonstrar independência. Na verdade, nunca conseguiu fugir da saia da mãe. Uma burguesa. Certamente. Eu era diferente. Havia algo de diferente em mim. Não olhou para o meu rosto. Silenciosamente, oito ou nove passos, a geladeira. Bebeu água. Sentou-se. Abriu a pequena bolsa de couro sintético e retirou de dentro uma cartela de comprimidos. Não eram comprimidos, eram cápsulas. Estava com febre, uma moleza no corpo a dominava. Eu devia ser muito diferente. Colocou o remédio na boca, bebeu um gole d'água. Baixou a cabeça. Ela estava sentindo uma angústia, uma dor muito profunda.

“Todos estão de mau-humor”, pensei, até os ratos. Eu havia alugado um quartinho no meio da cidade que iria ser deixada para trás. O carteiro passou e deixou duas correspondências junto à porta que dá acesso ao mundo. Eram dois envelopes brancos de tamanhos diferentes. Apenas observei os remetentes, assim como os endereços deles. Achei melhor não abri-los, apesar de saber que fazer isso não implicaria em absolutamente nada.

Os antigos moradores da casa onde vivi meus últimos dias atualmente não passavam de fantasmas. Assim eu imaginava. Com o passar do tempo foram chegando mais correspondências. Eram muitas, de variados tamanhos e cores. A maioria com logomarcas impressas de empresas e bancos. Dívidas? Não sei, eu não abria as cartas.

Fui obrigado a reservar uma parte do velho guarda-roupa para organizar as missivas. Eram muitas. Onze dias se passaram e nada dos proprietários da casa. Ficaram de vir pegar o adiantamento pelos dias que eu ficaria lá, mas. Só consegui ouvir a voz de uma mulher que naquele dia havia combinado comigo que iria deixar as chaves com a vizinhança, e que eu não me preocupasse.

Cada vez mais curioso, eu relutava para não cair na tentação de dar uma espiada. Foi que não suportei e decidi abrir uma. A primeira de todas que tinha guardado. Era um envelope branco com as bordas coloridas. Rasguei o papel silenciosamente. Helia estava ao meu lado, pálida da febre. O barulho do crepitar do papel poderia assustar os fantasmas. Retirei a folha de dentro e percebi que nada havia, nenhuma palavra, nenhum desenho. Somente a brancura do papel. Abri a segunda e lá estava, apenas o branco. A terceira, a quarta, a quinta... Só o branco. Não havia nada, mas o carteiro, sempre que podia, deixava uma ou duas correspondências na porta da casa onde moro momentaneamente. Eram de variados tamanhos e cores as cartas. E o mundo lá fora continuava a passar. Nem com evento de tamanha estranheza Helia conseguiu fazer cara de espanto. Ela continuava absorta, sentada sobre sua perdição em tons rosáceos.

Há exatos sete dias desejou sair de sua casa, de seu lar, verdadeiro?, de sua cidade. O que realmente importava para ele era o fato de ter posto suas pernas em fuga, mesmo em pensamento. “Tanto que idealizei, tanto que briguei comigo, que lutei”. Ele tinha saído daquele lugar infernal, lugar onde tinha deixado de se ser, local onde começava a sua vida prostituída, sua parcela vendida, seus setores mercadológicos, como impressos em papel jornal. “Sou forte”, pensou.

Pela primeira vez sentia aquilo dentro dele, uma energia penetrante, reveladora de suas maquinagens potentes, antes enferrujadas.

“Helia, sua vadia! Vespa sem dó, sem pena, foste tu o rumo todo de minha perdição!”, regurgitou ferozmente para si mesmo, olhando para a figura desalmada da criatura feminina que pendia para um desarme total.

Mulher que dizia, “somente os sonhos podem ser vividos”, e que acabava por encadear desde a mais insignificante manifestação utópica por liberdade ao maior grau de lucidez nas ações direcionadas a si mesma. Para ela, os sonhos eram como águas de excelência, águas que se fundiam num convite desavisado, vagalumes ao entardecer.

Ele - eu - caía em suas lanças, em seus arcos, quando dúvida, quando devaneio.

“Por que, Helia?”, perguntava, inocentemente.

Aquele convite irrecusável feito pelo bater de asas daquela mulher, agora ex-amante, ex-amor, ex-mulher-mais-linda-do-seu-mundo, ex-puta, ex-tudo, sem pressa de se chegar ao fim, tão vagos eram aqueles passos, os dela, sutis, resumidos de direito numa incandescência mágica.

Havia pedido que ficasse, que por favor não fosse embora, com uns olhos que prejudicavam as mais rudes emoções. Ele sabia que o passado era uma usina, uma usina que fervia.

A madrugada, cindida, teimava.


Quarta-feira, 05 de janeiro.

Corria a noventa quilômetros por hora, entre automóveis espantados que o deixavam ainda mais solitário e opaco. E novamente a imagem daquela mulher, agora reluzindo na parte superior do pequeno espelho retrovisor em forma de gota, ali, ao seu lado. Todos os fogos acesos em sua parcela anímica, todas as combustões internas a queimar e colorir de um tisne imperfeito sua pele, seu cenho.

Seus pulmões arfavam, desconfiados da veracidade do instante. Aprofundava o pé no duro acelerador daquele possante, depositando todo o peso do medo, toda a carga de suas subjetivações, tal qual um paladino, montado num corcel que galopava desejos, que resfolegava passados.

Ela apareceu assim, quando ele menos esperava. Apareceu mudando tudo ou quase tudo e sorrindo e tinha um sorriso bonito. Bonito como o meu coração. Como o coração que sempre pensei que eu tinha. Como o coração que eu sempre imaginei que era o meu coração.

Tudo tão rápido, tudo tão veloz. A linha de partida e a linha de chegada. Tudo tão rápido, tudo tão veloz e tudo tão bonito. A linha do tempo se delineando. Ela morava no centro. Eu também morava no centro, mas no centro mais afastado do centro. Uns vinte minutos caminhando. Lá na praça da igreja foi o local do nosso primeiro encontro. Na noite e no vazio das pessoas noturnas, nosso primeiro encontro depois de alguns encontros muito mais que desencontrados.

Helia era encorpada, seios fartos, boca carnuda e usava óculos. Um vestido cinza ela vestia, com bolsos grandes na altura dos mamilos. Eu tinha dito que a beijaria ao primeiro sinal de engraçamento. Não perderia tempo e não desperdiçaria nenhum segundo ao lado dela naquela noite de tão entusiasmante conhecimento. Questão de honra para mim.

Saí de casa pontualmente, tecendo esperanças. Sem esnobar virtudes, dedilhei uma canção antiga de uma banda antiga arranhando as unhas no cós da minha calça jeans já um pouco sofrida pelo uso. Era uma canção bonita. Bonita como o meu coração. Como o coração que sempre pensei que eu possuía. Bonita como o coração bonito que eu sempre imaginei que era meu coração, e só meu.

Meus passos leves por fora e pesados por dentro. Minha alma em apuros. Minha alma evasiva, parecendo inaugurar um complexo de dúvidas em mim. As pessoas noturnas e as pessoas quase-noturnas encurralando minha carapaça andante, meu esqueleto robusto indo, minha arquitetura forte fugindo da desgraça do convívio unilateral e partindo para a felicidade ou para o axadrezado recanto dos moribundos desalmados.

Eu tinha de escolher e já tinha feito minha escolha. Ela estava a me esperar, eu sabia disso. Pensava e vinha logo um tufo de alívio no meu tórax, entrado pelos pulmões, ar mais ameno. Ela, sim, ela estava a me esperar no vazio do banco da praça vazia da igreja fechada e vazia e dos homens noturnos e quase-noturnos nem tão vazios assim de miséria e breu. Eu estava cada vez mais perto dela, da mulher que eu queria naquela noite, para ser e fazer dela a minha noite.

Eu sabia que se eu pensasse nela e na proximidade cada vez maior entre o meu corpo e o dela, certamente chegaria mais rápido, com mais vontade, bramando um arco de voz cortante e animalesco. Eu sabia que ela me esperava, porque ela queria toda a boniteza do meu coração, toda a sua castidade, toda a sua paciência, toda a sua timidez.

Tive a impressão, num ligeiro estalar de tempo, que nossas veias pulsavam num mesmo diapasão, latejando a voz maior do corpo. Uma espécie de sintonia preambular, metade anacrônica metade feita do agora. Eu perto, eu longe. Perto do coração inconsolável de Helia, longe de minha demolidora verdade. Longe de qualquer coisa que pudesse me deixar ainda mais distante.

Mais dois ou três quarteirões vencidos. Meus pés calçados, roçando o pó endurecido e caído de todo um dia. Continuei e foi quando apontei na grande praça central. Minha mente esgotada de tanta confabulação. Minha enciumada armadura já partícipe de um qualquer desastre, especulando e calculando probabilidades.

Eu já ali, eu mesmo, esperando qualquer coisa. Esperando até Helia, em seu vestido cinza, com dois bolsos na altura dos mamilos, com a fartura doce de seus seios melíferos, desvencilhados de qualquer medo maior senão do medo de cair nas garras do amor. Amor que não escolhe praças, que não escolhe horas nem vezes, que simplesmente fere e marca com a brasa incandescente a epiderme das repúblicas humanas.

Ah, Helia, se você soubesse o quanto te quis durante o curto passeio que naquela agora me imprimia! Se você soubesse o quanto pronunciei teu nome ao vento durante o intervalo do não-ter e do ter você em totalidade! Se você soubesse, Helia, o quanto a aflição me dominou, o quanto amuadas por receio tilintaram minhas vozes internas e o meu coração... meu coração bonito. Aquele mesmo coração que sempre imaginei que era o meu coração, e que só eu o possuía. Porque meu coração era tão bonito que ninguém mais poderia ter um igual, ou qualquer outro que se assemelhasse ao meu coração, tão bonito, tão bonito, incapaz de qualquer maldade. E como foi complicado a presença, tua presença tão grande diante de mim, abarrotando-me de luas, emplumando-me de uma carga de sombra e silêncio. Mas como foi maravilhoso o nosso mistério, a nossa palidez diante de tudo, o nosso momento tão nosso, ali, dois e um, unindo zodíacos inversos ao contratempo das ventanias.

Nossas mãos se entrelaçando como quem quer a completa destruição dos embuços e das paredes. Nossos olhos se olhando na fundura da poesia anarquista de nossas embalagens de vidro e espelho. Nossas bocas... como foi tudo tão especial, tudo tão principal, tão puro, nossas bocas dando voltas e mais voltas por sobre o eixo das línguas.

Como esquecer dos nossos sexos se cheirando, em pêlos ouriçados, castigados pela curta maldição das abotoaduras. E tudo logo se abrindo, seus regaços sendo preenchidos com a vulcânica seiva produzida pelo meu coração bonito, meu coração tão bonito que não cabia mais em mim e que explodia em você, bem dentro de você, só em você, escorrendo aquele líquido pastoso e branco, signo da brancura da nossa hora.

Insuspeitosas foram as ânsias iniciais. O conhecimento distante, nosso e arraigado eterno. Você me trazia os adobes, de tuas lagoinhas, e eu elevava nosso castelo, de vime o amor, torto em se querer direito.

Aligeiradamente, como dona de minha fazenda, cercou-me de tuas fronteiras indispensáveis lá pela noite de teu sorriso. É do conhecimento de ti, mulher, o fermento que extravasava o líquido que tenho cá dentro - o não da máscara de se ser fantoche sagrado.

Os deuses, se é que eles existem, vinham narcisos a nos olhar o súbito frenesi que era a eles próprios. E bebiam do nosso vinho. E sucumbiam diante de nossa virtude. E invejaram do nosso amor austral, sem freios e sem obviedades, natural, humano, como deve ser o puro amor. E quando me surgias, assim, a poucos metros de minha mão, cálida, suave em se deixar o enlevo maior do mundo, encarnava eu a canção do sequioso encontro, a música da necessidade de ser aquilo que queríamos ser, em qualquer instante, em baile, naquele nosso espaço azul.

Dançamos nosso tango-corpo, o primeiro de muitos, porquanto desejamos, porquanto vivemos únicos, coadunados. Embriagamo-nos, deitados sobre a nuvem de nossos planos, embriagamo-nos apaixonadamente, embriagamo-nos loucamente... como num sonho rebelde e jovem e real...

Quantos foram os laivos que antecederam e sucederam os trejeitos do gozo, Helia! Quantas foram as expiações que realizamos juntos, na coberta daquelas estrelas que nos flechavam através da janela aberta. Quantas foram as minhas invasões e minhas cruzadas em suas terras mais protegidas, e como foi tão forte e como foi tão bom.

Ah, Helia, o quanto nos castigamos e o quanto eu desconhecia o maligno do meu coração! Aquele mesmo coração bonito que sempre imaginei que eu tinha. Aquele mesmo bonito coração que pensei mil vezes ou mais ser tão bonito e puro e incapaz de qualquer maldade.

Você me amou, Helia, e eu não fui capaz de tanto. Você me amou com a força de esperar a campainha acender o uivo meu, ainda da calçada, esperando a voz de retorno. Meu coração bonito agora me provando o contrário de todas as minhas elucubrações. Meu coração nem tão bonito assim, assassinando os nossos meses juntos, decapitando as minhas idas à sua casa, degolando as nossas horas loucamente amadas e todas as memórias edificadas sobre o mesmo travesseiro.

Meu coração, Helia, que você pensou ser só seu, inteiramente seu, absolutamente seu, como quem possuísse um outro ser, meu coração arrancando para fora a língua da víbora do amor e te emprestando o veneno eterno da ilusão. Ah, Helia, não foi minha culpa! Não foi do meu querer tanta desgraça e tanta mágoa! Foi esta coisa que guardo aqui, veja!, esta coisa que mora em meu peito, sinta!, por favor!, chegue mais perto!, esta coisa vermelha, feita de sangue que vive dentro de mim, esta coisa que tem vida própria, Helia, que não sei dominar, animal silvestre, sem dono, arredio, cavalo trotando no planalto baldio, besta do inferno, Helia, esta coisa!, toda a culpa é dela, toda a culpa, toda!, Helia, toda...

Finalizando por ora tantas reminiscências, sentiu-se surpreendido por um toque de afirmação que, bem de leve, lançava-o a um entranhado estado de soluços que cercavam todo o seu corpo de prazer. Seguiria, veloz e um tanto quanto esfuziante, por pelo menos dois quartos daquela madrugada, espalhado pelas divagações que ele mesmo houvera edificado.

Uma estrada escura, completamente escura, deficiente em sinalização, margeada por uma gramínea rasteira de um tom que, àquela hora da noite, parecia desbotado e próximo de um cinza dissoluto.

Grandes roçados desapareciam com a mesma volúpia que em seus flancos surgiam. Por vezes, um ou outro animal silvestre que atravessava a pista alertava-o sobre a existência de vidas, mormente sobre a sua. Duas ou três raposas, sob os auspícios da lua, alguns répteis rastejando, buscando as presas, almejando abocanhá-las, feri-las, devorá-las gananciosamente... tudo por ele passava.

E aquela vida de fuga marchando, marcada por curtos silvos esporádicos que tocavam o oceano de seus ouvidos, reprimindo-o de certa forma, impedindo-o de rumar livre, com o sentimento curioso de poder ir sem restrições alguma, em despejo de potência máxima, sem freios nem travos, apenas sentindo o repentino impulso de um vento estranho e agradável içando aquelas suas asas podadas, aquele seu resto.

Era domingo, fazia frio.


Segunda-feira, 10 de janeiro.

Não, eu não sei amar. Confesso, ainda não aprendi a arte da dissimulação. Eu sou bem moço, sim, mas já bem crescido para saber que a vida é uma provocação. E das mais infames. Sou um sujeito quedo. O silêncio é a parte mais sobressalente em mim. As pessoas não entendem que esse é o meu jeito de ser, de me expressar, de me comunicar. Sinto que elas estão sempre esperando algo oriundo de minha face ou mão ou boca, alguma palavra a mais ou alguma loucura que eu possa fazer de súbito, matar alguém, estrangular o professor ou a outra pessoa com quem converso. Mas eu só sinto. Não sei o porquê de tudo isso.

Parece que sonhei. E no sonho acendi a lâmpada do meu quarto e percebi que os ratos tinham desaparecido. “Talvez estivessem escondidos em algum móvel”, pensei, “em estado de alerta, prontificados ao ataque”. Tremo só de pensar naquelas centenas de pequenas mandíbulas, atarraxadas em minha pele, grudadas em meu cabelo, roendo-me, sangrando-me. Olhei para o chão. Parecia estar seco. Hesitei. Imaginei, mas depois de muita luta decidi levantar de onde estava. Havia uma escuridão longa depois e que não sei como dizer. Não há um pequeno feixe de luz que consiga penetrá-la. Não que eu seja um admirador das trevas, mas a noite é o momento mais misterioso e instigante. A noite, no sonho, não respeitava os solitários.

Angústia era seu nome, mas que lhe era mais prazer que suas velhas instituições. Destino longínquo, separava-se de si mesmo em pulsares e alguns litros de bebida quente.

Rumava.

Realmente estava sendo difícil se ser ultimamente. Difícil, porém ele era já menos triste. Podia até se sentir um pouco mais feliz em raros instantes.

Eu – ele -, sombra perfeita do que o mundo é capaz de fazer com a humanidade, passivamente comporto-me num assento confortável e cinza-verde de cor. Deixo que o vento que vem vindo do exterior sussurre e prostre-se diante dos meus olhos agora cosmopolitas. Uma morbidez ilusória e procedente do dia que não seria mais um dia normal.

Em minhas reentrâncias correm cósmicas as sensações que parecem subterrâneas.

Sob alguma minha forma de sotaina, algo poderia acontecer a qualquer instante. Os papiros foram escritos e simultaneamente lidos pelas retinas visionárias que meu corpo não suporta.

Átimo. Surpresas foram destruídas, todos os focos tristes em que pensava. Metafísica trac trac trac, tesoural, dilacerantes tracs que vinham predominar minha existência.

Segundos aproveitáveis, não se sabe, de nada sabemos, “ou serenos?”, ao lado do vibrátil plasma feminil que dialogava, “coitado de quem, ou em?”, potencialmente com minha alma.

Dizia coisas belas. Falava com tamanha ternura que me deliciei cruamente. Que palavras possuo, ainda lembro!, sangue feliz no final. Sei que não me encontro nesse arrebol cotidiano. Sei que ainda existem sob as fardas e uniformes, corações como o meu, tão lindamente deflorados.

Acordou rodeado por um mato feito de capins extremamente altos. Tinha invadido o acostamento da rodovia por onde circulava. A marca de borracha no asfalto, riscado naquele anil desbotado pelo sol. Levantou e percebeu o estrago que tinha causado ao carro. O farol do lado direito em caquinhos, o pára-choque arrebentado, uma roda levemente empenada. Havia entrado forte no matagal.

“Estou vivo”, apercebeu-se, e isso lhe retirava um pouco o desânimo matinal.

Entrou no carro novamente e deu a partida. O motor teimou um pouco, mas roncou forte depois. Jogou pela janela alguns cigarros fumados pela metade, duas ou três garrafas de uma vodka barata, alguns recibos e pegou a estrada sem dó. Um chiado fino surgiu, pelo que parecia, nas proximidades da jante dianteira esquerda.

Ele que não sabia para onde ir deveras, onde se esconder. “De quem?”, perguntava-se, sem pronunciar voz.

Ouvia vozes que muralhas de concreto sussurram no flamejar dos segundos insuspeitosos. Eram tão estranhas, e ao mesmo tempo disfônicas, que tentava sem grande sucesso parar de escutá-las com o gesto de tapar com as mãos os ouvidos. Estes clamores tão voluptuosos para alguns, não o faziam sentir orgulho por ser proprietário de um sentimento valioso e único como o amor.

Ouvia as mesmas vozes de sempre e agradecia às paredes pelo escudo que foram para si, livrando-lhe da vista o vômito que os homens repelem de suas bocas más e carnívoras.

Os sons humanos modernos, contemporâneos, perderam sua verdadeira lógica. Não havia mais transparência no aquário afetuoso dos entes que lhe habitavam - alguns ainda insistiam em dizer que toda essa transformação vo-ca-bu-lar dera-se pela enorme necessidade de sempre se estar em renovação, para não ficar para trás nessa corrida cada vez mais doméstica pela vida.

Todavia, “como ser tão ordinário, ao ponto de sepultar a beleza natural do nosso caráter?”, pensava.

Tornara-se muito difícil discutir tais assuntos, porém era indiscutível sua serventia para o seu desenvolvimento enquanto homem. Era impressionante a percepção que tinha do mundo atual, parecia-lhe não haver nenhuma tentativa ou esforço para que coisas que já fizeram parte do "manual" dos homens, e que agora se encontravam em processos de putrefação num destes baús enterrados pelo planeta, voltassem ao cotidiano de normalidades.

A espécie perdera o mapa do tesouro, e com isso o próprio tesouro também. O seguimento que daríamos a todo esse bordel era incerto, mas tranquilamente previsível acaso levássemos em conta a realidade dos fatos. Era como dizer que muitos preferiram andar descalços, mesmo tendo em casa um calçado para proteção dos pés.

Como bom seria se tudo isso fosse uma questão de esquecimento, que ao sair de casa os indivíduos sempre se esquecessem ou não se lembrassem de pôr no bolso de suas camisas as sensibilidades e as intuições. Quisera eu que fosse assim!

A verdade é que estamos pintando o nosso próprio quadro biográfico com tintas frias, cujos princípios ativos são a extinção e o erro. A vida não cessa, o tempo se esconde entre árvores e o homem sempre a padecer diante de seus próprios olhos.

Alguém de muito longe derrama lágrimas de arrependimento e angústia ao ver o estrago que sua obra-prima está a fazer no enredo panorâmico da sinfonia que lhe foi destinada. O Criador lamenta ter criado em seu paraíso não só a serpente e o fruto proibido, mas milhões de cobras e aranhas peçonhentas enfeitiçadas por verbos malignos.

Não há mais o que modelar, tudo já havia sido escrito e lapidado. Pena que muitos não leram os ensinamentos ou não souberam interpretar o texto da maneira certa. O nosso tálamo agora é coletivo, o serviço foi feito por todos que contribuíram incessantemente para esta arquitetura perversa e mitigada.

A carcaça fica e o miolo se desfaz.

A música é feliz, sem saber que podia ser mais, a lua já iluminou mais corações, o brilho radiante das estrelas já foi mais autêntico. Antigamente, pensou, o fim era apenas um novo recomeço. Hoje, o fim é o coto do nada, dilacerado pela ordem que dopa a mentalidade emocional original dos nossos cromossomos, fazendo-nos perder grande parte da visão resoluta que tínhamos sobre a verdade e sobre tudo aquilo que nos faz bem.

Neste momento entra em cena o lobo mau, que não é o das histórias infantis, mas o mesmo que se vestiu de cordeiro e que acabou nos cativando pela sua delicadeza e ingenuidade. Uma seringa com uma solução, pitadas de purpurina injetada em nossas veias sem qualquer tipo de cerimônia, este sim, é seu real semblante que nos amordaçou com suas correntes de metal e ecos de aço, tornando-nos servos e escravos do hábito, do modismo, do belo e da miséria espiritual. Este é o lobo vigente, a babilônia do ontem, do hoje e de sempre, a bomba atômica do medo, esta é a comitiva do governo, ou melhor, do desgoverno.

O homem se perdeu na matéria, no esboço do certo, na crua ânsia de ser mais. Acabou se machucando em espinhos e nas rochas pontiagudas escorregou. A cicatriz vingou toda a dor e o ser que se diz humano traz hoje na bagagem as sequelas de uma escolha sem retorno.

A morte veloz é agora sua maior consequência. Traído pelos seus próprios gestos, exilou-se, eu-nós, em meu próprio lar, nossas casas, casulos. O sangue da ferida aberta não estanca, rejubila-se em alimentar o solo sedento por adubos orgânicos. Como é cruel ter de usar máscaras para não ser intoxicado pela sujeira que nos impede a naturalidade, que nos priva de um belo adjetivo derivado de nossa tão explorada e subestimada mãe natureza.

Ao relento, inspiro uma harmonia demente, puxada pelos acordes da britadeira e pela regência mágica das betoneiras. Ao invés de aproveitarmos a noite para sonharmos com um mundo mais digno e justo, preferimos acertar o sono para não perdermos as horas.

Tudo reincide, recai sobre a terra, menos a vida que não é retroativa... inúmeras pessoas registram em folhas de papel teses sobre reencarnação ou ressurreição, mal sabendo elas que tais ações podem acontecer a qualquer momento e que, para isso ocorrer, só é necessário um incentivo pessoal, para que floresça o renascer e a redenção que a todos falta. Estou divagando?

Sinto um novo resmungar em meus tímpanos... é só mais um anjo torto com estranhos pedidos e alertas. Ele implora de joelhos para que eu pare de pensar, de falar.

“Por que devo parar?”

O oitavo anjo do apocalipse responde:

“Se você não parar com essa conversa eles irão te prender.”

“Eles quem?”

“Os torturadores e trituradores.”

“Mas que crime cometi?”

“Pensar, amar, viver...”

“Mas isso não é crime!”

“Meu caro amigo, qualquer ideologia contrária aos interesses do dragão é potencialmente exterminável. Não querem formar pessoas capazes de domar o seu ego ou que tenham um conteúdo crítico sobre as novas regras que impuseram. Somos a ameaça aos seus reinados e domínios. Cortaram-nos a língua e as mãos, furaram nossos olhos com estacas gananciosas e porcas.”

Restou-me o choro por não ter mais como reunir meu exército e fazer uma frente de combate contra todo o mal que nos assola. Meu sexto sentido me revela a morte de irmãos e irmãs que, como eu, defendiam o bem a qualquer preço. A triste sensação de que não haverá mais recomeço e que o fim será somente o fim me salta aos nervos.

Sentado onde estou vou à morte lentamente, numa tétrica solidão forjo meu arsenal vingativo numa paranóia que me sufoca. O silêncio me afaga, é meu companheiro nas horas mais insanas e improdutivas da minha existência.

Quando mais uma lua se aproxima, deitado em meu quarto, recordo que ali na estante guardo medalhas de honra ao mérito, verdadeiros símbolos de uma guerra que tracei. Lá se vai um espião, um amante dos dizeres, vai ao chão que os vermes hão de usar como alimento num prato rico em sonhos e proteínas de esperança. Vai ao céu porque tens o seu lugar. O homem morre ante a vida que o acolheu, pois carrega o pecado de não saber amar sem mentir.

E falava alto consigo mesmo e ele não tinha respostas.

Foram longos quilômetros pela estrada vazia, o carro se arrastando, até encontrar uma casa rosada com um letreiro já apagado pelo tempo que estampava um Pousada 311 numa placa de metal localizada próxima à porta.

Uma pousada naquele fim de mundo. Aproveitável e útil, realmente. Mas era dia, manhã, e ele precisava mesmo era de um bom banho e de um café reforçado.

Não pensou duas vezes. Estacionou seu “Ariane” bem na frente da porta de entrada. Desconfiado, caminhou em direção ao balcão, dando passos cautelosos.

Havia um cheiro forte de charque frito no recinto.

No balcão principal, ninguém.

Tocou a pequena campainha de ferro que se encontrava na ponta esquerda da mesa. Por um breve instante pensou ter escutado o som do silêncio. Pouco depois uma sombra se ergueu lá no fundo do estabelecimento.

Percebeu que não estava sozinho ali.

Nesse ínterim, o homem resolveu passear seus olhos pelas paredes do lugar, repletas de pôsteres e frases pintadas em cores chamativas.

Uma, em especial, chamou sua atenção. Era uma carta, já amarelecida, assinada por um desconhecido, grudada no alto por duas tachinhas de metal.

Enquanto ouvia passos vindos dos fundos, o homem leu a epístola.


“Eu compro clichês para dizer “te amo", e sou bem mais feliz assim. Eu que sempre fui o que sempre repudiei, agora logro das benesses de um aprendizado baseado em indeléveis experiências e estúpidas frustrações. Hoje sou mais político, prático das noções do pensar bem e do bem pensar. Alguns livros me substanciaram, e eu sou eles e o mundo que me rodeia juntos. Eu compro clichês para dizer que "te juro", e minha angústia cotidiana é combustível e brasa. Ah, como sou tão maior em minha ilusão diária! Como sou tão mais perto daquilo que sempre manifestei desejo! Como sou tão mais em me saber defeito! A minha criança interna me filosofando, a infância no dorso em pitadas reaparecendo. A maturidade, atividade para especialistas, me operacionalizando gritos de progresso. Ah, quanto orgulho de mim, quanta satisfação em me saber distante daquele outro eu, agora em sono letárgico. Quanta dádiva, meu justo senhor! Quanta glória! E eu comprando clichês para dizer que "o futuro é nosso", dialogando com meus fantasmas estafetas, aqueles, que de um dia para o outro, sem nada avisar, deitaram chão pelo além e me privaram de minha falta de autonomia.”

Outono de 1988

Alguma coisa de especial? Por que me deixei levar por aquele texto aparentemente insignificante, pregado numa parede insignificante de uma insignificante pousada?

Era somente dúvida o errante homem.

Lembrou de Helia, seu mais que atual espectro. Não sabe o porquê, mas ela lhe surgiu, novamente, ali mesmo. Agora deveria estar no 312 da Menezes Coimbra, aquele continente criado sem precisar esperar a ação de placas tectônicas, aquele universo mítico-austral onde se renovavam constantemente, lugar de apuros e mergulhos, de beijos e abraços, mágoas e amores. Lembrou dele, ele mesmo, daquele que tinha sido há pouco tempo, daquele que não mais desejava ser.

Cerca de um minuto após ter terminado a leitura, escutou passadas bem próximas e a respiração ofegante e desconfortante de uma anciã que vestia uma túnica azul de veludo, adornada por um xale de renda carmim demasiado extravagante. Mais pessoas pareciam se levantar e vir em direção de onde permanecia o homem, aturdido.

Que desejas, forasteiro? – de chofre, a velha interrogou.

Rápido, virou o rosto.

Estava diante, mais uma vez, do não sabido.


* Imagem: https://viciodapoesia.com/2015/08/31/amor-de-centauros-num-fragmento-de-metamorfoses-de-ovidio/

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