sábado, 3 de setembro de 2016

As babéis de Ses (Parte II)

*

Por Germano Xavier

"vez ou outra lembro do meu avô. ele tinha muito gado, uma criação inteira, farta. era alucinado por touros. paixão da vida. um dia ele me levou para o curral e me mostrou como se marcava o couro do animal. o ferro tilintava em brasa. vermelhidão. rubro panorama. brados eram ouvidos como ecos. o instante era um coice no vão do tempo. perguntei ao meu avô se aquilo não doía. ele disse que sim, mas que depois todos saberiam que aquele monstro lindo tinha dono."



A história de Taurus

para Taurus, 
besta imperial dos caminhos,
o amor era em gusa
a fera mais mortal dos tempos.

consentiu-lhe explicar aos homens, 
certo dia, os colaterais efeitos de tão fatal dor, 
o amor, posto bravio ser-bandeirante.

disse-nos, já em bordas da narrativa: 

"há uma besta maior, escondida em face mais fina, 
causadora de febres oculares instantâneas, 
e cujo corpo permeado por orifícios úmidos deixa 
visível a nascença de escorrimentos vaginais,
de larguezas e latejamentos, de ruminâncias uterinas
e de póros em alavanca. um vasto animal 
que fere com a mais densa beleza"

nos templos onde Taurus fora endeusado,
após séculos de meditações e preces,
o grande segredo enfim se revelara:

era a mulher 

a fonte de todo o amor do mundo,
monstro marcado em dor 
e dona de todos os homens.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/touro-de-metal-21738957

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