quarta-feira, 7 de setembro de 2016

As babéis de Ses (Parte III)

*

Por Germano Xavier


“em vaso de alabastro, acordes teus: atalcado, balsâmico, floral branco especiado quente, floral amadeirado. unguento, corpo ungido... aspergir em amor febril, sem passado ou futuro. sombra de tempo. pequeno espaço no peito. cheiro de amor. gotas de memória, lembrança dos amores que não tive - projeção profana das quenturas minhas. dor suave de saudade. cicatriz de ferida antiga. vontade de leveza, sublimação... incerteza (do que não é), certeza do que é e já ficou.”



O rótulo da obscena fragrância

reza a lenda universal
que um vetusto aroma fora criado
na manhã anterior ao dilúvio.
ao cair das primeiras águas, diz-se,
sob brasil luz solar, o céu era rubro.

das mãos de uma senhora louca,
cujos seios arfavam em delírios,
um líquido lacrimoso fora manipulado.

dele - refuta-se -,
nasceu a obscenidade nos homens.
um frasco poroso dava domínio ao seu corpo móvel.
a leve água dançava a sós.

aturdidos,
moças e rapazes e seres de todas as outras idades
o abismavam na pele dos olhos: um vermelho molho
a desdizer mornidões, 
a profetizar a música vital,
a inventar a pulsão.

e assim, apanhadas em benquistas visagens,
as malhas amorosas de todos os entes
foram se ululando na passagem dos tempos.

daí o sexo como morte em suspensão,
altivo recurso de vida contra a fome e as lufadas
do nada. daí esses assoalhos em gozo, 
estes brancos sangues súbitos,
semeaduras em botão.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/In-the-Green-Shadows-374755877

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