sábado, 24 de setembro de 2016

As babéis de Ses (Parte V)

*

Por Germano Xavier


"sem sonhos no agora, não lhe conto nada. o mundo dá voltas e preciso da distância. estradas fazem o amor voltar? onde termina o amar?"


Morte a conta-gotas

há várias
formas de matar o amor,
mas uma só é encarte no tempo.

o amor se mata na maré subindo, jogando-o
na jangada ao mar, tarimbado mar. assim,
rebenta distante o que se formou ausente,
deita a rede de labuta, mundo faz armar
ciranda cadente, pancada de mar.

crescente e minguante, maré de aquietação,
quarto sem velas, desponta a navegação cirandeira
sem amar singrar, nem mais mar.

matadeira a saudade, tirana abandonadeira
dos chegares, desterros e degredos, recadeira
em mensagens quebradas, de mar. o amor se mata

sem que se chegue e sem que se fique,
como vasta peste malandra,
sacana imigrante dos peitos, danando-se
a alegrar rodas de língua enxerida,
o amor se mata no que se vai embora,
no que se tira da cachola, da cartola,
bornal de almas.

flor de manacá, flor da guavira,
caboclinha aperreada é o amor,
que se quebra em dobras e rimas,
embotada e encarangada na brincadeira
de deixar curta a vara, a cena e a reza.

boca da noite, estrela em baião,
meu coração é uma solidão de banzo,
que nem viola é remédio. princesa da natureza
é o amor, balaio de landuá, pião e rodopios,
vertente em galope, desconfio terreiro.

e na capela amarela o pecado domingueiro
é o amor. tudo sendo em malinuras.
corpo queimado, exílio no canto do vento,

deserto insone.

o amor se mata na fogueira fugaz, com o perfume
colorido do que não cessa, bandoneóns e milongas.
o mar abusado que chora cordas de infinitos,
que recebe o presente caviloso, que é dengo de morte,
que dá rabissaca e é atrevido, modelo de longes,
engasgador se bem feitas as amarguras.

o amor se mata na cordilheira,
nas procelas e nas tormentas
dos mistérios, nos bandolins do tempo,
nos acordes revoltosos. o amor arrebitado,
que escandaliza a vida e que se presta ao merengue
de todas as danças e de todos os instantes.

maestrino desobediente, enganador de ordens,
o que pede sem precisar, o que governa sem exército.
o amor, o amor que é mar, o amor que planta enfeite,
o amor que colhe somentes, o amor, amor,
só se mata em alto-mar.


* Imagem: www.devianart.com

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