quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Depois da quase morte

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Por Germano Xavier


No chão, catei algumas folhinhas marrons, indícios do início da primavera. O chão é quase sempre um templo. A primavera é como um rosto do tempo. Está frio e sair de casa é bom para provocar os sentidos, fazer a pele lembrar dos toques do vento, buscando a vida dentro da vida. Sair tem sido uma dor. Uma dor é uma espécie de nada. Aquelas folhas pequenas, caídas das árvores remanescentes da cidade invadida por concreto e pessoas – cidades parideiras -, aquelas folhinhas finalizadas no ciclo natural, caídas para morrer (ou para (re)nascer?), fizeram-me lembrar de nós. Algumas cidades nos remontam, outras nos esquartejam. A memória é um cão sem dono em terreno baldio. Não que eu tivesse esquecido. Não somos esquecíveis. Não deixo em casa a minha alma quando saio. Apenas saio. Não deixo meus olhos no esquecimento. Apenas caminho. Deixo em você todo o meu respirar fora do corpo e a capacidade de catar folhinhas primaveris no chão. O chão, que é quase sempre um templo, reforço. Deixo em você toda a minha poesia. Poesia é uma palavra que você conhece bem. Para se conhecer uma palavra é necessário ir bem longe, adentrar os campos repletos de espantalhos, não temer, invadir. Deixo. E sigo. Mesmo sabendo. Mesmo. Mesmo que. Foi um baque. Sabemos. Embora sempre esperado em minha constante e irrefutável certeza de que tudo, por mais bonito que seja, quando envolve seres humanos, terminará em dor e decepção. Tudo mesmo. Todas as relações. Você deve me taxar de pessimista ao extremo. Eu só giro. Digo. Eu esperava que você me provasse isso, mais cedo ou mais tarde. O tempo tem um rosto para cada estação. Ou me engano sempre. Espero. E não é uma espera feliz. É uma espera desesperada, mortal. Espera de morte. A gente sente quando está morrendo quando está morto no outro, quando não é amado, quando não é desejado, quando o outro não prioriza a nossa presença, a nossa atenção. A gente sabe quando o outro nos busca sempre que pode, sempre que sente falta, quando sente saudade. A gente sabe quando é apenas tolerado. A gente sabe quando sim. A gente sabe quando não. Mas saber disso nunca me afastou de você. No fundo, eu sempre gostei de pensar que eu não precisava de nada de você, só de você existir para eu te amar incondicionalmente. Mas não existe amor incondicional. Amor requer algo. Qualquer algo de amor. Qualquer olhar de volta, ao menos uma gentileza. Mas você sequer gosta de mim. Fato. Quando a gente gosta a gente quer saber do outro, conta coisas, pergunta coisas, compartilha, a gente fica junto, faz presença e deixa rastro na vida do outro. A gente se faz no outro. Isso tudo não é esquecível? Não somos esquecíveis? Como eu desejei ter algo em você. Qualquer algo pelo qual valesse a pena lutar. Como eu desejei estar em teus pensamentos um pouco que fosse... estar em você. Mas não acontecia e fui sofrendo com isso e ficando cada vez mais magoada e cada vez menos feliz em te amar. Até que... então, notei que você estava me magoando sem nenhum pudor, sem cuidados, sem consideração. Você não viu. Você me expulsou de você - ou abriu meus olhos para a minha insensatez, para a minha insanidade e para a minha insistência patética em te fazer um pouco meu, a qualquer custo - meu ou teu. Mas as pessoas não se pertencem por quererem. Elas se pertencem quando se pertencem. Elas se amam quando se amam, sem obrigações ou cobranças. Nunca imaginei que doeria tanto quando te faltasse paciência comigo, a mínima gentileza e o cuidado de não me esmagar com palavras duras - embora, talvez, verdadeiras. Doeu como se me jogasse de um penhasco no olho da realidade. A realidade é você sem mim. Eu sem você. A realidade é um grande trem de passageiros com destino incerto. A realidade é o agora. Sempre te imaginei gentil, um gigante doce e compreensivo. Incapaz de ferir propositalmente quem quer que fosse. Mas, acidental ou não, você me esmagou. Não deve dizer a alguém que a ama, ela pode acreditar. Esse é o problema. Eu poderia acreditar. E a vida, meu bem, a vida não é feita de poesia apenas, é feita de dias e noites, doenças, trabalho, inutilidades, contas pra pagar, desastres, fardos, mortes, injustiças, solidão e esperança de amor. Esperança de amor, meu amor. Eu te amo. Você sabe. Eu sei. Uma proposta. Vamos fazer uma fogueira. Ao redor dela, dançaremos nossas dores até à exaustão. Até o total desmembramento da alma, do corpo e do medo. Até sobrarem só gotas de suor e cansaço num corpo novo, libertado de sua rastejante jornada. Renovado de deslembranças, revestido de inícios. Que tal? Deixemos o fogo, matéria de consumir matéria, transformar nossas calejadas faces em sombras tranquilas, paisagens invisíveis de mundos imorredouros. Venha à fogueira comigo. Descalce os pés, as roupas e a memória. Sinta a terra nos passos e o vento no centro do centro. Deixe o olho fechado, o corpo ao gosto do fogo, a alma ao gosto do mar. Salgando de infinitos o último grão de areia.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/L-expression-mort-naturelle-85185252

2 comentários:

Nadine Granad disse...

Dói... uma dor bonita, uma dor que grita...
Fui expulsa da vida alheia e no seu texto poético encontrei um abrigo... Que a primavera leve as folhas!...

Abraços!

Rosa Mattos disse...

Catártico! Até me senti um pouco atordoada depois de ler.

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