domingo, 11 de setembro de 2016

Eu sei que você sabe

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Por Germano Xavier


Eu sei que você sabe, mas preciso dizer. O verbo é uma gota de remédio que nos abre o peito. O verbo vive e faz viver. Eu sei que você sabe, eu sei. Não é você que precisa do meu amor (sei que não precisa). Não adianta desdizer o que sei. Não adiantar desmentir a verdade. Meu amor é desnecessário para você. Sou eu que preciso te amar. Entende isso? Sou eu! Simplesmente porque te amo. Simplesmente porque o amor é simples. Simplesmente porque simplesmente. Amar confere humanidade (a quem sente), inspira esperança, imprime uma identidade, proporciona uma espécie de prazer inenarrável, uma alucinação, talvez. E eu sei que você sabe muito bem. Eu sei até o que você ainda nem pensou. Por isso me adianto. Por isso me arrisco. Amar assim é um grande risco. Amar assim traz certa paz, um lar para a alma, um gozo íntimo, por vezes doloroso, mas intenso. Você sabe, eu sei. Eu sei além. É um sentir necessário, pessoal, purificador, irracional. Gigante, que por vezes atropela, tropeça em si mesmo. Mas ainda assim é bonito. É inútil, eu sei. Você também sabe. Sabe até mais que eu. Essa forma de amor (sem-mais), sem trocas, sem (com) vivência, sem acordos, sem olho no olho (a outra forma é obviamente gratificante). O que significa tudo isso? Qual o sentido desta invernada? A outra forma é uma convenção estabelecida num contrato de igualdade de dar e receber amor. Você sabe que não somos assim. Eu também sei. Chego a quase desprezar esse tipo de relação convencional. Um porre. Amor verdadeiramente poético é o que se faz sozinho e se nega a ter um fim. Um amor imortal, que não acaba. Amor mesmo não cessa! Você sabe que é assim. Ou que mesmo quando não tem seus desejos gratificados prontamente, resiste em ser, em se impor, em viver. Eis o amor. O amor tão-grande. Sei que tenho sido desagradável e irritante - o amor deve ser o espelho de quem o sente. Não é? Não me agrada te ouvir me chamando de chata o tempo todo. Sei que não tenho o direito de te falar certas coisas ou de pedir mais atenção. Você foi rude comigo, quase grosseiro. Foi insensível e indiferente. Sou eu que estou em guerra comigo, com tudo. Sou eu que estou me redescobrindo e descobrindo como cuidar de mim e você não tem nenhum compromisso com isso. Basta. A necessidade de falar com você é minha, não tua. Por isso, prefiro ficar aqui, um pouco mais distante para não tirar de você o que ainda sente de bom por mim. Somos nada. Somos só amor. Somos tudo. Por tudo e por isso, perdoe-me pelo meu desajeitado amor por você. Talvez a melhor forma de eu te amar seja assim: em inocentes e despretensiosas palavras. Virtualmente, poeticamente. Distante. Um furacão de mil olhos. Lançou-se à vida com toda a intensidade possível, invadindo escombros íntimos, queimando seus mil olhos em verdes sóis, descobrindo o fogo. Agigantou-se em humanidade, em arroubos de idas e vindas, em jornadas solitárias, íntimas, poéticas. Jornadas antológicas, pioneiras na arte de partir para ser, para ver, para escrever os dias como se sonhou. Plantador de florestas, regador de árvores de todas as cores, criador de sentidos em todos os tempos humanos. Ele, que é você, o homem das palavras todas, inteiras, elétricas, cortantes. Palavras de causar vertigens, calafrios, raiva, amor em correnteza indomável. Ele, o meu amor, grande amor. O homem dos altos silêncios. Calo o meu dia em ti num momento ritual, quando anulas a minha tristeza debaixo de teus sapatos velhos, encerro-me em teus dedos - único lugar onde te reconheço, onde és poeta morto, um imortal, o meu poeta vivo. "Algumas coisas, uma vez que você as amou, tornam-se suas para sempre. E se você tenta abrir mão delas, elas dão a volta e retornam para você. E elas se tornam parte do que você é. Ou destroem você...", vi isso num filme. Aquela coisa de te amar loucamente, todos os dias e todas as noites. Porque sei que és meu. A umidade entre minhas pernas também sabe. Os calafrios por tua aproximação - breves noticias de que és meu. Escrito em minha coxa, o teu nome em cicatriz - memória de vazios amplos. Corpo em recepção de sinais ainda não enviados. Gestação de amor no tempo do corpo. Eu sei. Eu sei que você sabe.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/horizons-629226727

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