terça-feira, 20 de setembro de 2016

Falsas fraturas do tempo

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Por Germano Xavier


Escrevo frações de um todo incompreensível que sou eu. Eu amando você sou um pequeno e imprevisível desastre. Um desastre que ainda pode crescer, se você colocar lenha nessa fogueira insensata. Mas suponho que não tenha muita lenha disponível e isso é uma providencial contenção de um incêndio de indeterminada proporção. Não a alimente. Eu peço sinceramente. Deixe esfriar e morrer em relativa paz. É só agir como sempre... Normal. Deixe antes que eu reencontre a apatia de alma que toda vida medíocre merece. Nadar contra a correnteza ainda significa loucura e fracasso nesse mundo de cópias humanas em escala infinita. Torça para eu encontrar a tranquilidade do viver estável e tradicional. Talvez até encontrar alguém que me ponha no chão de giz. No calendário regular de obrigações várias e concretas. Alguém que esteja, que seja, que veja, que diga. Mesmo que não saiba de mim um décimo do que você sabe... Mas que aperte a minha mão quando eu tiver pesadelos... E me conte do dia que ficou para trás. Isso deve ser importante, já que você tem isso e mantém acima de tudo... Alguém que se instale... Aqui comigo... No lugar que é teu por fato e escolha do sadismo do universo. Não nossa. Nunca minha. Fique feliz por, enfim, eu ter encontrado um pouco de amor próprio. Existirá alguém para quem eu seja a pessoa? A primeira opção e não apenas mais uma pessoa entre tantas árvores? Se sim, quero descobrir. E só posso fazer isso se... Não é falta de amor, é presença de amor demais e necessidade de vida real. E não acredito em tua decisão de... Tem a intenção, mas não os meios de cumprir o que diz. Não negue para si. Teria muito a perder e pouco a ganhar. O que diz que faria é algo que só se deve fazer quando não se pode viver sem. Não é o seu caso. É o meu. Nunca vou te dizer adeus. E nunca acredite numa despedida minha. Eu posso estar em tua porta no minuto seguinte. Eu imagino o sonho com muito empenho e pouca clareza, mas a realidade o torna capenga. Não impossível. Fraturado de falsas esperanças. Ferido de inconsistências. Destruído ainda no útero do tempo, pela falta de verdade e de cálculo. Pela falta de combustível e de convicção. Atrás da porta te espero o dia inteiro. A cidade é nova e o clima é gostoso. Ideal para fazer amor. Ideal para fazer planos e para fazer nada. O tempo não passa, amor. E já faz dez minutos que você mandou a mensagem dizendo que viria. Você é tão raro aqui, amor. Um relâmpago, um eclipse, o amor em carne. Pus a minha melhor roupa íntima: nenhuma. A casa está cheirando a eucalipto e a flores mortas. Não gosto de flores vivas. Você sabe. Troquei a roupa de cama, mas nós dois sabemos que não serão usadas. Você está trazendo um livro, com certeza. Provavelmente aquele que te pedi há um século. Você sempre adiando os meus desejos. Você sempre me deixando para depois, para nunca. Você sempre... Mas sei que está trazendo dessa vez. Você traz livros, uma cara séria e um desejo indefinido. Nunca sei o que traz atrás desse desejo. Nunca sei o que traz atrás desse rosto bonito e fechado como um bunker. Nunca sei você atrás de você. Só sei você dentro de mim. O você que amo e que não sabemos até onde ele existe. Você já está perto, amor? Você está meu? Eu fiz compras hoje. E eu que não cozinho, fiz comida pra você. Fiz comida e um refúgio pra você dentro de mim. Eu fiz um plano para você. Fiz um mundo pra você e fiz uma mulher pra você, amor. Eu fiz a vida em você e fiz você em mim. Você e a vida são a mesma coisa aqui, amor. Você já está chegando? Abro a porta em agonia de espera. Atrás da porta: vazio. E mais tempo.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/The-Day-The-World-Went-Away-621407453

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