sábado, 29 de outubro de 2016

TANGLED UP IN BLUE (ou Um bocado de pressa para fugir da fossa)

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Por Germano Xavier

conto escrito para a Antologia Bob Dylan, 
organizada por Roberto Menezes, Bruno Ribeiro e Luciano Portela.


pé direito enfiado no acelerador do Voyage preto, porta-malas pesado, faróis apontando para o céu, direção leve e aguda, eu levando minha vida inteira para mais perto de você, toda minha história, toda minha bagagem, meus livros e até meu violão, bem cedo a despedida na porta da velha casa do interior, meus pais com olhos marejados, você ao meu lado me dizendo “o sol vai brilhar para nós dois”, bem cedo a estrada por devorar, plena de segredos, e aquela sua opulência corporal, aquela bunda que tanto amei, a imagem do seu sono ao meu lado, você dormindo enquanto eu ultrapassava o milésimo caminhão como quem vencia o gigante, alguma coisa me forçando a ir, o brilho de sua maquiagem, seus cabelos que esvoaçavam, a janela aberta, o vento em tufos, sua família nos esperando, travessia-nordeste, pegar o mundo com as mãos, nossa vida juntos, certamente que seria difícil no começo, mas a gente iria vencer tudo, você tirou férias comigo, dormiu em minha cama sem nem me conhecer direito, pensando bem, amor... não seria tão difícil assim no início, eu era um sonhador, você era uma bandida, sem coração algum, mulher mais voraz que tive na vida, eu estaria de pé ao seu lado, sempre, mesmo se o motor falhasse no meio da viagem, a chuva molharia os meus sapatos mas os seus pés ficariam protegidos, Deus sabe o que passei, eu não seria mais triste, você veio para ficar comigo, nenhuma fossa me caberia mais, você era um mistério, suas roupas coladas ao corpo, lembro aquele dia na noite daquela cidadezinha, você estava toda de preto, com todo o amor, toda a palavra, toda a umidade, você era nenhum problema, o excesso de minha força, mais de dois mil quilômetros para ser inteira minha em definitivo, em plena resolução de mulher, o meu abandono perante a noite escura, sem mais separações, toda a carne, nossa vida no norte, nunca mais a minha morte, você concordando com meus sonhos de jovem e louco, você me olhando, me chupando, me amando, me fazendo acreditar no melhor, na aurora, no embora, você por sobre os meus ombros me gritando “venha”, a avenida por topar, eu dando adeus à minha fossa, jamais nela emaranhado, eu largando meus empregos para me empregar em você, para trabalhar não sei onde nem como, não me importava nada, era só você, as pontes, as linhas retas, as curvas, tudo sendo vencido, o medo, até que chegamos e o tempo nos fez entrar numa barca doida, você era um peixe, com escamas, eu sem conseguir lhe fisgar, o passado logo atrás pelo retrovisor de meu carro triste, um bocado de pressa para fugir da fossa, os quartos em que parei aí e nem dormi, a profusão das vozes, a couraça viva do que já vi, você toda gostosa desfilando longe do meu palco, os holofotes tão claros e raros, a consciência pesando, a dose extra, o infortúnio, a vontade de passar a perna em mim e dar adeus, o público me vaiando, e tudo embotando, a cerveja com cara de fel, a mesma decadência de outrora, a incerteza na certeza escancarada, aquela sua voz insistindo em me construir velhos pesadelos, a visão da fossa, o fogo do inferno, o desconforto em estar ali na sua terra e não na minha, minha ânsia, a despedida na frente daquele posto de gasolina, sua cara de desdém, seu corpaço colado ao vestido, as curvas daquela sua bunda maravilhosa, minha nossa!, eu fui feliz!, a minha encardida memória sendo reavivada, eu: um tipo calado, você: do mundo, um livro de poemas antes de adormecer, carvão aceso, fogueira mental, a fossa aberta em minha frente, a enorme fossa da vida, aquela chuva ácida da Ilha do Amor, o mesmo torrão sob Teresina, a longa estrada de quem retorna, eu vivi você como aquela música que ficou no ar, eu desci ao porão, menina, negociei com o Dito, e alguém em mim morreu naquele instante, alguém bem dentro de mim virou gelo, fui ao fundo e me tornei distante, mas agora vou, adiante, pé direito enfiado no acelerador do Voyage preto, porta-malas pesado, faróis apontando para o firmamento, direção leve e aguda, eu levando minha vida inteira para mais longe de você, toda minha história, toda minha bagagem, meus livros e até meu violão, bem cedo a despedida na porta da casa estranha, seus pais nem aí, você me dizendo “o sol vai brilhar para você”, bem cedo a estrada por devorar, plena de segredos, Deus sabe o que passei, eu não seria mais triste, você não veio para ficar comigo, nenhuma fossa me caberia mais, você foi um mistério, aquelas suas roupas coladas ao corpo, lembro bem aquele dia na noite daquela cidadezinha, você todinha de preto, todo o amor do mundo, toda a palavra verbalizada, toda a umidade sentida, você era nenhum problema, o excesso de minha força, mais de dois mil quilômetros para não ser de novo o que fui em definitivo, em plena resolução, o meu abandono perante a noite escura, sem mais separações, nossa vida no sul, nunca mais a minha morte, você concordando com meus sonhos de jovem e louco, era só você, você que era perdão, as pontes, as linhas retas, as curvas, tudo sendo vencido, o medo, até entrar numa barca doida, um bocado de pressa para fugir da fossa, os quartos em que parei e nem dormi, a profusão das vozes, a couraça viva do que já vi, você toda gostosa desfilando perto do meu palco, os holofotes tão claros e raros, a consciência, a dose extra, toda a fortuna de viver, a vontade de passar a perna em mim, recomeçar...


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/my-only-road-217192829

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