domingo, 13 de novembro de 2016

O cone de Bergson

*

Por Germano Xavier

para Jorge Luis Borges, com amor.



no espaço universal da memória, a certeza
de que todo o mundo é o cone, toda a humanidade
é o cone. no início de tudo, todo o amor
contido no cone. na boca feroz do abismo,
ou do vulcão, a memória do hoje. o ontem excelso,
perdido e esgarçado.

nunca encontraremos nossa própria voz?
quem é o que é se as primeiras coisas não são as primeiras coisas?
a palavra, Pierre Menard, a autoria do não-maciço: a bolha de sabão.

todas as ideias, todos os rumores, todas as plantas mentais,
todas as dúvidas, todas as dores, todas as espontaneidades,
todos os medos, todos os silêncios e os gritos e os mitos e os gemidos todos
num lugar sem autoria: o cone.

numa emboscada interna, nossas lendas vãs: as línguas,
as cores e de novo os abissos.

tomar o cone, fazê-lo rodopiar.
espalhar a memória do mundo
e escolher o rumo.

introduzir inaugurações. reger.
ser o profundo, não o raso do cone.
chacoalhar, chacoalhar, chacoalhar.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Cone-203836295

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