sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Tínhamos uma tarde entre as beiras

*

Por Germano Xavier


eu fui ontem
e a aventura da linguagem
não se resume à procura do ritmo,
é antes a penetração
e a tensão do instante
contra sua própria opulência.

eu fui ontem
e a palavra que formo
desestrutura a forma, que é
incessante e impossível.

eu sou ontem
e meu poema é polissêmico,
já que mil bocas me ancoram
sem me saber nem suspeitar
de que há algo maior que já existe
(e no que já existe)

e sei que meu verbo
é apenas um processo de sentir
dentre tantos.

eu sou ontem
e afronto a vida
me afastando dos impasses,
aprofundando-me no tempo
quanto mais desconfio
das solenes extremidades,

ao passo em que me torno grotesco
quando me alinho
ao que sou não sendo,
pois ora sou signo ora sou coisa,
sou coisa-signo,
signo-coisa - ultrapassagem,
escassez, amplidão.

quem fui eu em mim?/
o que sou eu de mim?/
o que em mim me continua?//

eu fui ontem
e o desespero do coração
que me impulsa, inglorioso narrador
de meus avessos, é o pleno herói
de minhas crises.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Challenge-5-Zillion-Wish-of-Sand-643801016

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