terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Um poço no centro

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Por Germano Xavier


Ofegante e com o corpo embalado por uma, já íntima, dor pulsante, puxa mais um balde de amor à superfície. "Trabalho inútil", pensou. Há quanto tempo fazia aquele trabalho? Nem lembra mais. Desde que ele... Sim. Havia muito tempo. Tempo demais para nominar. O corpo, esse sim, sabia tudo. O corpo sempre sabe o que a palavra ainda não descobriu. Secar aquele poço era uma tarefa de tempo integral. Baldes e mais baldes retirados daquele poço de amor que parecia - será mesmo? - inesgotável. Aquele líquido pegajoso, quente, fluido, parecia zombar de seu esforço, brotando incessantemente quanto mais ela tentava secar a sua fonte.

Mas precisava continuar. Há anos aquele poço de amor estava ali no centro da sua vida, no fundo de seus olhos, no âmago do seu respirar e ali também, no meio do seu quarto. Ela sabia que se não o detivesse, em pouco tempo ele transbordaria além de todas as suas margens, inundando tudo, arrastando em suas correntezas toda a sua estrada, os seus sonhos, os seus contrastes, o seu futuro e suas certezas, e transformando todo o seu mundo em um caos molhado. Era preciso, portanto, continuar a secar o poço, encher os baldes, curvar o corpo, deter a fala, surrar a alma naquele extenuante trabalho de deter o amor. Aquele líquido sagrado, fatal, vital... Aquele líquido que, a essa altura da relação, já era a sua própria vida. Sem ele em suas mãos, abarcando o seu corpo, ensopando suas roupas, já não sabia o que seria, quem seria e o que fazer para preencher os seus dias. Aquele poço era, afinal, a sua essência em luta, a sua alma em arte, a sua resistência.

Sorri, consolada.

Percebe em grata constatação que aquele poço será, afinal, a única companhia que sempre terá. Chega a desejar, apesar do corpo em exaustão, que ele, aquele seu poço de amor em teimosia, nunca seque.
Ter esperança é o caminho mais curto para a decepção?

Não se sabe.


Não é verdade. Nós dois sabemos que nada daquilo que falei sobre você é verdade. Nós dois sabemos que foi apenas um grito violento pela dor de tua ausência, de teu silêncio. "Como fere e faz barulho o bicho que se machucou, viu!" E, embora eu saiba que nada justifica aquelas acusações absurdas e infundadas, preciso te pedir desculpas por ter falado... Acredito que você tenha levado a sério, e me consola saber que não se magoou, pois seria terrivelmente angustiante imaginar que te feri. Não tenho o direito de te julgar em nada, nem de te cobrar nada... Aprendi que o único valor é o que temos de bom... Só sinto coisas boas por você. Não quero agir como se nada tivesse acontecido - de ambas as partes. Só preciso que saiba que estou bem, que nunca te quis mal, que nunca te esqueci um minuto sequer, sempre em bons sentimentos e que, tudo de bom que chega a mim me lembra você.

A Poesia insiste em me trazer você o tempo todo. E é a única doçura que consegue atravessar a minha couraça de pessoa racional, desconfiada, cética, ácida e infeliz. Não quero nada de você. Há algo em mim que só vive com você. É essa parte que preciso que viva. Ou serei apenas um vegetal. Compreende? Parte daquela decisão é válida, pois preciso de serenidade, como falou. O resto todo é vazio. Inverídico e espero que considere nulo. Peço perdão, mas vou entender se não me perdoar. Não precisa fazer/falar/sentir nada. Apenas leia o que te escrevo, por favor, pois vivo melhor em teus olhos. Vivo Poesia em teus olhos. Não sou suficientemente equilibrada para ter você muito perto. Sou intensa demais e não sei como agir com o que é mais forte do que eu. Compreende? Apenas fique, por favor. Saberei que estás. Eu sentirei. Eu sei. Eu sei que você sabe.


O fato é que te escrever é uma tarefa doce e gentil. Quando delicada e pacificamente, sem estar sob o controle de paixão e ciúme, é um momento poético e feliz. Acredito que seja o caso agora. Até as paixões arrefecem e se transformam em amor ou costume ou conforto ou quentura, ou devoção. Devoção é o caso. O meu. Amor eterno, amigo. Amor incondicional. Não vou cair naquele clichê de tentar descrever o indescritível e nem de incomodar com pieguices comuns. Percebi que os sentimentos nobres, dignos de nós pela vida toda, não se justificam ou se explicam com palavras. Elas passam, se apagam ou se perdem no esquecimento. Eles se justificam apenas no tempo. Na passagem do tempo, na resistência em si, na existência paralela a tudo. Na constância. Na sobrevivência às tempestades, às decepções, às mágoas, às distâncias, aos silêncios, às fugas, às faltas... Quando depois de tudo isso, olharmos do lado e ele - o amor -, ainda estiver lá, como uma sombra por dentro, então saberemos que é aquele, aquilo.

Então, se eu tenho de ter uma fraqueza na vida, uma humilhação que seja, uma derrota, uma grave vulnerabilidade, um calcanhar de Aquiles, uma fragilidade, que seja isso. Ao menos sei que é algo digno de mim. Um amor além de minha maldade. Uma Poesia que me aquece, me amolece, me torna humana, por vezes, doce. E nesses momentos em que sou só ternura, sinto que sou grata pela vida, pelas raras sensações de vida plena, como hoje, quando o vento me fez quase voar e te encontrar em algum lugar meu. Nas nuvens desconhecidas. Então sorri e não tive vergonha. Era a vida dando graças e me fazendo saltar por dentro. De pura noção de estar no amor certo. O meu.


P.S. Gostaria de saber: já viu o suficiente para se convencer de que eu estava certa (em questionar) e você errado ao repetir irresponsavelmente que me ama? Será que agora a autoridade dos fatos te persuadiu da clara realidade de que você é inconsequente com as palavras (especialmente com a palavra amor)? Você tem, repetidamente, agido com leviandade com os sentimentos alheios. Você trata as pessoas como se elas fossem experimentos. Olha as mulheres como se elas fossem "espetáculos" e não seres humanos vulneráveis, crédulos, carentes e facilmente feridos por pessoas frívolas como você.

Eu já tinha ouvido (direta e indiretamente) que você era um homem perigoso, malicioso, mentiroso, "canalha", "cafajeste", cheio de artimanhas e galanteios, mas que, depois, deixava as mulheres que convenceu de que eram especiais para você extremamente feridas e decepcionadas. Não acreditei.

Com relutância, constatei que você é realmente cínico, sonso, dissimulado, escorregadio e, pior de tudo, sem remorsos. Tenho dúvidas se você alguma vez já refletiu sobre o resultado de seus atos/palavras sobre a vida das pessoas e se realmente se questionou sobre a verdade íntima do que diz. Lembre que não existe uma verdade para você e outra para o resto do mundo. Há a verdade dos fatos. A única que pode ser comprovada, mensurada e é irrefutável. Talvez seja assim na Literatura. Mas na vida real as pessoas sangram sangue real. Não de mentirinha. Não de palavra. Duvido que tenha noção de que suas palavras/atos são interpretados literalmente e – naturalmente - aceitos por quem ouve como verdade. Assim, sendo tão contraditório, como espera que seja levado a sério? Ou ainda, sendo tão inconsequente no que fala, como espera não ser levado a sério?

Crenças, sentimentos e preferências são relativos e direitos de cada um. Não se pode questionar ou julgar. Mas há uma ética que é universal e todos, por mais torpes e endurecidos que sejam, em algum momento se darão conta de que aquela atitude é ou pode ser prejudicial para alguém. Mas você, mesmo questionado diante da realidade, continua afirmando coisas incoerentes e inconsequentes, sendo leviano com o coração alheio. Amar alguém ou compartilhar momentos é escolha de cada um. Nunca deve ser julgado ou questionado. Nunca te julguei por não me amar. Questiono exatamente o contrário; o dizer que sim. Quando – claramente - não.

Não tenho a intenção de te ofender gratuitamente - isso doeria mais em mim do que em você -, apenas de te alertar para as tuas atitudes/falas/promessas. O mundo está cheio de pessoas feridas, descrentes ou esperançosas de amor, de cumplicidade. Acreditar em alguém não é fácil e acreditar e depois ver que não é sincero e nem recíproco o afeto, o cuidado e o valor à amizade/amor é extremamente desanimador, em alguns casos, pode ser a gota d’água para a completa incapacidade de acreditar novamente em qualquer verdade dos sentimentos humanos. Algo tão sério não deveria ser tratado tão levianamente, especialmente por pessoas que consideramos mais evoluídas/conscientes/verdadeiras.

Talvez - no fim de tudo -, seja isso o que você esperava... que, finalmente, eu enxergasse a verdade e te colocasse no cesto das pessoas comuns. Fez um bom trabalho em me deixar ainda mais incrédula na humanidade e em todo e qualquer sentimento nobre além dos obrigatórios e/ou convencionais. Você me fez ver a fragilidade dos afetos gratuitos e o potencial engano das palavras. Mas não há culpa. Há apenas fatos. Há negligência e falta de princípios de nobreza e consideração. Há leviandade e falsidade, mas não creio que tenha sido intencional. Foi leviano, covarde e cruel, mas não proposital. Mas isso não muda os fatos e nem diminui os danos.

Sim, finalmente te coloquei no cesto das pessoas que me feriram muito, por isso as descartei de minha vida, por isso as apaguei de minha memória afetiva e espero mantê-las longe de mim. É uma questão de sobrevivência, de prevenção e de bom senso. É autopreservação. É lógica. Não faz sentido continuar colocando-se no lugar de sofrimento ou dedicar-se a quem não quer e não valoriza o seu afeto. É insanidade e é inoportuno.

Finalmente, estou sim te deixando em paz. E esta não é uma despedida, nem uma tentativa de te ferir por nada. Tenho plena consciência de que nada do que eu te falo sequer arranha a tua consciência ou motiva a menor ação/pensamento teu. Sei que és imune a qualquer palavra/apelo/confissão minha. Falar-te é falar ao vento. Mesmo assim precisava te falar como me sinto (por mim). Mas sei que será tão inútil quanto toda a nossa vida/história juntos. Mas sim, há algo positivo em tudo isso. Aprendi um pouco mais sobre a natureza traiçoeira/egoísta/frívola da humanidade. E aprendi a nunca subestimar os homens. Seu poder de destruição ainda é muito obscuro e imprevisível. Melhor ficar longe e fechar os ouvidos. Você é uma pessoa boa, mas um homem não muito bom. Na verdade, um homem bem homem. Um humano muito humano. Por isso mesmo, perigoso.

No mais, cuide-se e prometo-te - caso haja, apesar dos gritantes fatos contrários, alguma genuína preocupação comigo - que me cuidarei e tentarei aproximar-me mais do equilíbrio do viver simples. Sem grandes sonhos, sem largas esperanças e sem aberturas para ilusões.

Até um dia qualquer. Na Poesia ou no Desconhecido.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/wish-you-were-here-36799648

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