domingo, 1 de janeiro de 2017

A terceira perna

*

Germano Xavier


"Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui."
(Clarice Lispector, em A Paixão segundo GH)


a perna
que perdi,
quando conquistei a dor,
fez-me depressa viver o engasgo
do mesmo, do nada, do susto.

sem coragem,
tive de me erguer e sequer pensei
na organização de todo o esforço.
a liberdade era aterradora.

arrumei o passo, fiz-me estável
e na marra me fui somente. ausente,
silente, voltei para onde me perdi.

cães ladravam na rua vazia - estrangeiros
seríamos. um viver da carne, do muco, da seiva.
o corpo enquanto ideia.

rumei remos.
fui. pastei. ovelhas inúteis me mentiram.
achei saídas. nunca antes me soube.

prisioneiro, o vão. a perna que perdi.
meu maior medo de medo maior.
a perna que me insistia ano após ano
na brutal desorganização.
a perna-sem-caminho.

foi uma criação a perna que ganhei
depois que a perdi, ainda sendo igual a dor,
o tempo e idêntico o mal do que veloz me fez acaso.

a perna
que ganhei
foi minha garantia de ilusão.


* Imagem: http://tajemniceziemi.blogspot.com.br/search/label/Niezwykli%20Ludzie

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