sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Circulares

*

Por Germano Xavier


#1

Era um microconto, no máximo, a história de amor dos dois. Nunca passou de alguns encontros muito desencontrados em constantes reencontros para novos desafios de voar. De tentar ser. De viver o ser. De. Nos primeiros dias eram leves e afoitos, atrevidamente livres. Insurgentes. Mais pela própria insurgência do que pelo que quer que fosse que sentiam um pelo outro. E não sentiam a mesma coisa. Nem de longe. Para cada um a experiência tinha cor, sabor, valor e significado distintos. Tudo era vivido em dimensões tão distintas e distantes quanto o inverno e o verão. Ele vivia o momento, ela vivia ele.


#2

E sobre aquela tua eterna pergunta, "porque você insiste tanto em...", nós dois sabemos que você sabe a resposta tanto quanto eu. Tudo tem menos a ver com nós dois do que com toda a minha história, minhas experiências traumáticas e com tudo o mais aquilo que sabemos. Então, apenas ignore as farpas, as agressões verbais sem sentido, as provocações e afins. Atribua tudo a isso. Àquela teia tão extensa e confusa quanto a minha complexidade. Quanto filtrar tudo, você sabe o que ficará. Aquilo que sabemos bem. Ou sabemos nada. Por isso mesmo, nosso. Só mistério. Acima do bem e do mal. Poesia.


#3

E quanto aos arranhões, é a minha natureza, em suma. Sou cacto. Tu sabes. Não sou cacto de nascença, mas de transmutação, de assimilação de. E tu já viste cacto espalhar doçura por aí? Cacto é solidão, é agressivo, é áspero. Cacto é um insulto ambulante. Sem carisma e sem delicadeza. Não é enfeite para olhos entediados, nem é chamariz de afabilidades. Cacto é resistência em ação contínua. Ele só tem uma missão; sobreviver. Impor-se sobre tudo, sobre todos. E para isso, não importa o quanto tenha de se afastar das flores (ele geralmente nasce longe delas. Num lugar tão inóspito que nenhuma delas duraria um dia sequer). Ser cacto é destino e herança. Porque ele sabe (em sua natureza solitária, defensiva e beligerante) que não será escolhido para embelezar o jardim de ninguém. Ele sabe que será, a priori, rejeitado por sua falta de beleza e atrativos, ou por sua reputação de antissocial (o que é um equívoco, ele apenas defende-se). O cacto é um guerreiro solitário, em suma. Ele sabe que quando o procuram, quase sempre é por algum motivo egoísta. Quando o assediam é porque querem eliminá-lo ou usá-lo para alimentar o gado (alimentar o gado, entenda bem. O gado!). Então, não é à toa que ele desenvolve espinhos e os usa, quando preciso, para defender-se das mãos perversas que o perseguem. Cacto não é flor que se cheire. Cacto é flor (e o cheira apenas quem ele queira e deixe e só alguém capaz de sentir o seu cheiro. Raros seres entendedores de cactos).


#4

Os outros, os "normais", não entendem porque existem cactos e nem a função deles no mundo. Eles não compreendem, coitados, que o valor do cacto está nele mesmo, em sua alta capacidade de ser cacto, de ser forte, de ser. A sua função está no símbolo de resistência, de sobrevivência, apesar de tudo e de todos. Apesar de seu deserto particular, de sua aparência assustadora, de sua aspereza defensiva, de sua ausência de graça (a sua única graça é ser mesmo ele), tem o seu brilho. Ele é um ser único. O cacto é, antes de tudo, cacto. E não precisa ser nada além disso.


#5

PS. E o mais triste de tudo, meu bem, o mais triste das tristezas, é que num inferno particular não cabem dois.


#6

no primeiro dia do ano fez calor.
fiz silêncio para ouvir a voz de Deus,
só ouvi o silêncio me ouvir.
deduzi que há algo errado com meus ouvidos
ou com a voz de Deus.

saí para correr
(correr é cortar o tempo com o corpo
e ficar inteiro no final) e havia pipas no céu
e meninos no final delas.
li um livro assustador da mulher que extrapola a humanidade
(Clarice não clareia. dinamita a calma).
recebi um afago na alma com toque familiar.
ouvi que ela estava bem e senti algo que voa.
escrevi um poema e guardei para o passado.
li um estonteante "poema-de-vida-inteira" e gostei de estar vivo.
desejei que o ano passe depressa
e me leve para mais perto... de mim.
do caminho que me leva mesmo quando não caminho.
fechei os olhos. e vi o sempre.


#7

Saudade de você. Está tudo bem, responda quando puder, preciso de você. Tu ainda precisas de mim em tua vida?


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Filastrocca-158456473

Nenhum comentário: