quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

As revelações dos remos



Por Germano Xavier

/após O velho e o Mar, de Hemingway/



finquei-me na esperança de não ter esperança
(além da necessária em alto-mar).
obriguei-me apenas a aprumar o leme,
singrar as águas, matar as feras,
manter o rumo, salvar a vida.

(erigi em meu lastro roto, um monumento único,
Eternizado em marés contínuas; a dúvida)

finquei-me na espera de ver a luz
cortar a noite, fisgar a alma,
anunciando um razoável fim.

finquei-me no solo movediço de minha fé,
enquanto perdia as carnes de minha crenças,
pedaço a pedaço devoradas ferozmente
pela natural envergadura da vida:
a luta.

finquei-me na memória inexata
de meus sonhos inúteis e já agora
derrotados

pelas bocarras dentuças da realidade.

e eu que fui tão longe,
e tão alto,
e tão só
no mar alto
a me perseguir,
nunca me achei e nem fui.

já agora em fase terminal de sangrenta investida,
perdi o sentido, os sentidos.
perdi o arpão
(meu fiel definidor de identidade, de força,
de vontade, meu pulso, coração!),
perdi os remos, o orgulho e a ilusão.

restaram-me, apenas,
mãos feridas e incrédulas,
um corpo quase-meu

e uma carcaça estupenda como prova,
como prova de que vivi.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Caminhos-111610952

2 comentários:

Anônimo disse...

Viver nao é preciso. Navegar é preciso.
Camilla tebet

Germano Viana Xavier disse...

Bem assim, Tebet.