quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Sobre brutos monstros e pequenos corpos



Por Germano Xavier


será possível uma solidão maior do que eu?



aqui nesta prisão
(alguns a chamam de Vida),
onde os ventos esbarram à porta
impedidos de trazer sementes,
haveria uma fresta
por onde passe a resposta?
haverá uma abertura esquecida
por onde escorregue a paz?

aqui nesta prisão alarmante
cheia de monstros brutais,
há pequenos corpos interrompidos
condenados a lembrar.

aqui (onde) sou invadido de catástrofes silenciosas,
acorrentadas aos meus dedos em alianças eternas,
sou alvo claríssimo de investidas sórdidas,
de insuspeitas recusas que
não me deixam ser.

então, (in)existo e engasgo.

meus pés reduzidos à marcha
não alcançam o querer
e só um ser que rasteja
sobrevive em mim.

aqui, nesta prisão
(alguns a chamam de Lar),
medo, dor e repulsa
povoam largas memórias
(apenas o entorpecimento liberta).

/esquecer é desviver/



aqui, onde
respirar é ofensivo e vergonhoso,
meu corpo todo é nudez
e espasmo e espanto
a implorar pelo fim.

(a minha paz é descuido
e vazio)

aqui, sim, bem aqui, lembro bem
minhas carnes rasgadas num silêncio criminoso
onde o grito
não ultrapassa o muro.

na prisão,
não há ouvidos
nem socorro:

só ironia.

contra a parede fria,
meu corpo, vencido, suplica:

“fuja, alma minha!,
esconda-se entre as nuvens,
para não me ver desistir..."

aqui nesta prisão
(algumas a chamam de Vida),
onde imploro por respostas,
onde escavo sentidos,
a divindade me assiste -
sádica ou impotente?

então...
fico quieto e resisto
ou esbravejo e (in)existo
além da minha dor?

aqui nesta prisão,
ainda há vida (?)
há(,) amor?


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Interior-com-corpo-2-131209598

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