domingo, 30 de julho de 2017

Borboletas mortas tatuadas pelo vento



Por Germano Xavier

para ler ao som de "The Fosse", de Wim Mertens



tanta coisa andou perambulando por minha cabeça. tanta coisa e tanto era o tempo. depois de todos aqueles desastres vividos, a grande hora. uma das grandes horas da minha vida até aqui. no fundo, era tudo um desejo particular. foi sendo. o certo é que peguei minha motocicleta e catorze horas depois eu descia naquele estabelecimento, mais sozinho que um monge tibetano. aquela gente toda e eu ali, à espera. um estrangeiro repleto de borboletas mortas tatuadas no casaco pelas mãos do vento. escorado. um tinto mistério. um homem íntimo do nada, do vago, do sem, endereçado à sorte dos braços de uma mulher estrangeira, como eu. foi bom ver você no mundo. chegando. entrando. quase incomum. bonita, simples, poética, meio triste. mochila nas costas. deu-se o imprevisível. ali. sol imenso. lua acesa no dia. desde a sua aparição você se desnudou para mim. você era nua para mim. e eu com os meus escombros semânticos aflorados no pátio cheio de vagas. quase nada importava mais. nem as pessoas naquele dormitório. só a saudade dos braços de uma mulher como você. de uma mulher repleta de dor. você não me desconheceu. você soube. você compreendeu. eu disse que o insustentável era o que ainda sustentava o mundo. você ria de minhas frases de efeito. fechou a porta do quarto antes mesmo de eu entrar com dois passos. você toda antiprogressista. largou tudo sobre a cama. ainda acha que aquela penumbra representa a nossa penumbra? que penumbra era a nossa? tudo tão desconfortável no peito. correspondência de caos. o que você diria sobre a penumbra? eu iria gostar de ler a penumbra de seus olhos, de seus lábios e de seu coração. se fosse tudo hoje. começamos ali a viver um mundo nosso. você gostou de mim. muito. dali, sempre fomos. havia um cansaço em nós. tudo bem, meu bem. eu e você. sabemos que nossas almas nunca farão acordos com a mortificante rotina. pão, apenas. o corpo é quem alimenta a fome. não o contrário. e que nossas asas jamais sossegarão em gaiolas, também sabemos. temos sede de novo até agora. de mistérios. conhecemos águas profundas e turbulentas. algo em mim era movido a paixão. e como hoje, minhas engrenagens necessitavam de conflito. dor, saudade e sobressaltos. a paz que me acomoda não aperfeiçoa a minha veia. não burila a minha alma. somos contra atrofias. não queremos nos deformar. não éramos pessoas comuns. havia o caos. havia a poesia. sabíamos. que mesmo em silêncio, sentiríamos uma turba. sinto. porque você tinha olhos e ouvidos na alma. no corpo. você estava consciente. estávamos acordados enquanto o mundo delirava. sabemos. não dormimos o sono dos inocentes. nem dos iludidos. vigiamos enquanto o mundo queima. nossa sina. nosso lema. e tudo virava cinzas. e choramos. como se nossos sentidos todos sentissem que o mundo não faria sentido. só a poesia faz sentido. porque é gratuita. porque é perfeita. porque é eterna. porque é. só a poesia não se consome no tempo, meu bem. por isso somos. é bom ter você aqui dentro. não encontro você fora de você. jamais encontrei. todos são banais e iludidos. era a sua voz contra a minha numa paz verdadeira. não posso imaginar você se reduzindo à massa, à multidão. ou acreditando por acreditar... ou sendo apenas normal. somos o tempo errado. seguirei escrevendo o tempo errado. escrever é um verbo que se lança. não cabemos no mundo. não percebe? estamos em outro lugar. somos um rio. cursos infinitos. as margens de nós mesmos são a eternidade. vileza querer nos deter. a penumbra não pretende ser sombra. havia rebeldia. resistência. para sermos e ser. eu queria te comer porque você era o mundo. o mundo em que eu acreditava naquele instante. o mundo existe. o instante existe. o mundo em que acreditamos não é o de amanhã. não é. onde viveremos. é o que inventamos, onde não estaremos. o que moldamos. com nossa vontade e nossos sonhos. o mundo que nos cabe. o que é o mundo hoje, meu bem? sempre te olharei e verei você naquela penumbra. você sempre estará lá. lá sou feliz. porque a penumbra tem limites. você me contou sobre você. e se abriu em pernas como uma flor avulsa no meio do seco. sua primeira aventura no mundo. sua história me colocou numa órbita inesperada. eu entrei em tua história. na história de suas dores. você sabe que é preciso doer para amadurecer. quem não conhece a dor não conhece a humanidade. nunca fui o mesmo depois de você, depois de suas coxas, depois seus seios. as sensações novas, as inéditas, as vertigens. foi tudo tão intenso e novo e assustador. não há nada mais absoluto que ver uma mulher se transformando numa deidade sob e sobre o seu próprio olhar e zelo. você se tornou mulher em mim. só sobrevivemos a tudo porque somos fortes. e sabemos demais o outro. perder-nos seria um desperdício. de vida. de poesia. seria um fracasso. e somos dos que resistem. às vezes, por pura teimosia. por rebeldia boa. por muita humanidade. sigamos, meu amor. escrevendo o tempo errado. do nosso jeito. você está lá na penumbra. comigo. seu toque. perfeito tempo errado. só um tempo errado pode ser perfeito. tempo torto. porque fica intocado no tempo. imaculado. como um ser humano que não chegou a nascer, mas que teve nome e rosto. sua boca. suas bocas em teu corpo pequeno. o prazer naqueles dias era tão natural. nem precisávamos tentar. ele vinha. você me deu muito prazer. você escolheu minhas mãos. como minhas. como parte do corpo que queria. doamos. lembras? saudade de minhas suas mãos em mim. saudade do que em você adentrei. foi fácil e rápido. como se sempre. nossa plantação. no tapete. o tapete mágico. a cama baixinha. e o céu. da nossa madrugada. minha religião da literatura universal. e Borges como profeta maior. eu devia ter comido você naquela varanda. olhando a rua. enfiar meus desejos em você. ficar dentro. porque não cabemos no mundo. seria poesia. só cabe na poesia. porque fazemos poesia. é o que mais soubemos fazer juntos. sempre precisaremos de poesia. beijo suas bocas. como sou em teu pensamento? você tem muita imaginação. o pensamento é seu. você sempre foi o que quis. no tempo maior de nós. gostosamente terrível. em qualquer tempo nosso. sintonia. com atenção e cuidado. prestando atenção em cada toque. respirando as sensações. ou apenas sentindo. sem pressa e sem medos. como quem explora uma montanha. sim. o encaixe. sem cálculos. padrão jamais alcançado. nosso tempo errado. naturalidade. reconhecimento. acho que a música ajuda a gente. e o distanciamento de tudo. um espetáculo intraduzível. a palavra chegando antes da razão. você e aquele seu corpo pequeno. você me entendeu. com profundidade. somos livres em nós. só nós no tempo errado. faz falta essa possibilidade. sua voz. voz em marcha. voz cheia de sentimentos, de histórias. voz cheia de mundos. que raios é isso que não morre, que nunca morreu?


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Bloodshot-168-365-636535882

2 comentários:

Iara disse...

Não foi ao som de The Fosse, ainda... Mas essa nossa religião deixa a gente comovido... Essas suas orações me tiram do prumo. Obrigada por isso, Capitan! Dias com prumo não foram feitos para nós, embora sejam nossa maior oferta...

Germano Viana Xavier disse...

Estamos juntos nessa lida, Condessa. Para sempre e em sempre.
Obrigado por.