sexta-feira, 7 de julho de 2017

Recado ao poeta quasemorto-quasevivo

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Por Germano Xavier


"Se as páginas deste livro consentem algum verso feliz, perdoe-me o leitor a descortesia de ter sido, 
previamente, por mim usurpado. Nossos nadas pouco diferem; 
é trivial e fortuita a circunstância de que sejas tu o leitor destes exercícios, e eu seu redator".
(Jorge Luis Borges)


ousadia (você sempre ousava ir mais longe da multidão, ir mais perto das pessoas, dos abismos, dos segredos, dos prazeres, das proibições, das dúvidas, dos centros, dos arredores, das sombras. você sugava o tutano da vida e seguia invencível, irresistível. você ia. sempre ia onde o coração mandava (e os instintos também), nunca deixou de ir onde precisava ou morreria uma parte. ousadia maior do que o próprio ser. dessa paixão incontrolável e vital que torna os homens e mulheres especiais, como você, pessoas que merecem ser lembradas porque viveram suas vidas sem amarras, sem castração, sem covardia, sem desistir de quem são, sem falsos moralismos, não sem medo, mas com resistência e ousadia (cada palavra que você deixa de escrever, quando ela vem, é uma pequena violência que comete contra si, contra a poesia, contra a tua natureza. é autossabotagem, é auto-traição). você é um grande homem. soube desde que te conheci. é infinitamente maior do que todas as regras que te cercam e do que todas as forças que tentam te deter. você é um deus aberto. pedi a ajuda de Rilke. ninguém melhor do que ele falou da impossibilidade de um escritor de verdade ficar sem escrever. "morreria se lhe fosse vedado escrever?" morre-se de não poder ser o que se é. morre-se de amor que não. morre-se disso lenta e diariamente. e não apenas quando se desce ao túmulo. "sou forçado a escrever? se a reposta for "sou", então construa a sua vida de acordo com essa necessidade... depois, procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde". a caneta está grudada em tua mão, em teus olhos, em tua alma. você olha o mundo com as palavras. teus olhos enxergam em cores de poesia. teu mundo é feito de palavras, sentimentos, beleza, dor, poesia e amor multiforme. "por isso, caro senhor, ame a sua solidão e carregue com queixas harmoniosas a dor que ela lhe causa. diz que os que sente próximos estão longe. isto mostra que começa a fazer-se espaço ao redor de si. se o próximo lhe parecer longe, os seus longes alcançam as estrelas, são imensos. alegre-se com esta imensidade para a qual não pode carregar ninguém consigo... mas a sua solidão há de dar-lhe, mesmo entre condições muito hostis, amparo e lar, e partindo dela encontrará todos os caminhos. todos os seus desejos estão prontos a acompanhá-lo e minha confiança está consigo". por isso e por tudo o que sei que és, te seguirei de perto sempre, mesmo se longe, como amigo poeta. estarei perto e tua palavra estará dentro.

sinto falta de paixão em tua escrita. de fúria. de fé. e me dói saber. havia muita. havia antes. há um bastante indolente sentimento de fim. de perda. de parada. de cansaço. você soa pessimista. mesmo quando não. você soa vencido. parece, às vezes, um animal enjaulado em si e no mundo. mas é muito maior do que as grades invisíveis. só precisa saber e ser. você era uma voz em chamas, não pode ser apenas uma voz trágica. chamas no corpo, no coração, nas letras. tu. tanto que incendiavas sempre quem chegasse mais perto... floresta incendiada por tuas chamas multiformes. hoje sinto peso em tua voz. o peso de teus ombros, a lida desgostosa de teus dias, a falta de tua crença... tudo dói em tuas letras. dói em consonância com a minha dor... para mim, você é sempre a mesma chama inteira. e longe. sei o que traz dentro. e sinto. eu falo da paixão em cada letra. da vida embriagada de beleza que você via nas coisas. da rebeldia em descrever cruamente mesmo o que poderia chocar os olhos dos hipócritas. da originalidade do olhar, do ponto marginal de onde você via o céu das coisas. um céu só teu. da naturalidade com que expunha tanto o belo quanto o asqueroso, o abjeto. da escolha estonteante das palavras, sem pensar na mediocridade de quem vai ler, mas na integridade e beleza do que você vê. da sua fidelidade às origens, na escrita... é disso que estou falando. escrever sem filtros. sem pensar antes, sem podar os galhos mais preponderantes. são eles que melhor te representam. entregar-se à tua escrita. isso você fazia. escrevia inteiro, sem negar-se, sem esconder-se. sem considerações prévias, sem medos de repressão. você é que impunha medo. você se impunha. você empunha seu verbo e todos que saiam da caminho.

se eu pudesse resumir em uma frase a tua escrita atualmente, seria: você está escrevendo de olhos abertos. e de olhos abertos, toda escrita é cerceada. citei Borges acima (não apenas porque a ele você ouviria), mas também porque ele fala aqui da indissociabilidade do autor e escrita e leitor. são uma coisa só quando se juntam os três. por isso, o que há no escritor é o que chega ao leitor, sejam quais forem as cores dele. elas que chegarão. sempre. por mais ficção que seja a escrita. ele diz também que primeiro é o escritor que sente o prazer, a paixão, a dor ou o que quer que seja que o poema, o texto, a arte em si possa revelar ao leitor. se ele não sente, tampouco o leitor sentirá. o leitor sentirá apenas o que tiver atravessado a obra, do coração do autor até os olhos e corações do leitor. o sangue vem junto, ou não. quando não vem, é estéril para quem olha. quando vem, a gente é fuzilado pela arte e morre feliz. morre de amor e de beleza e de espanto bom. eu morro sempre com teus textos. morro porque sinto você neles. morro de prazer de ver o invisível e sentir o que estava em você e compreender tão bem, mesmo que não os tenha vivido. é preciso estar cego de paixão para escrever apaixonadamente. e não importa pelo que. pode ser até paixão por uma cebola. mas é preciso paixão. vital paixão. e eu gostaria de dizer: apaixone-se por algo, mas nós dois sabemos que paixão, assim como o amor, é algo que não se fabrica, não se planeja e não se controla. paixão é bala perdida.

sobre escrever de olhos abertos, penso que está censurando a sua escrita antes mesmo de ela ser um feto. está matando-a no ovo, ou seja, em teu coração. tua escrita está desvinculada de tua célula-núcleo. você a está enfraquecendo e disfarçando-a ainda na fonte. tua escrita não tem te representado de fato e de verdade. apenas ao homem público que você tenta ser (ou não). você a está cortando-a, mutilando-a, disciplinando-a, domando-a (por mais motivos do que eu possa imaginar). mas imagino que um deles seja pensar no efeito dela em a, b ou c (o que a pensará disso que escrevi?) isso eu não posso expor, isso eu não posso revelar, isso eu não posso assumir, isso eu não posso insinuar, isso eu não posso sentir, isso eu não posso criticar, isso eu não posso assumir, isso eu não posso desejar... isso eu não posso por nas entrelinhas. e se eu por, terá que ser bem simbolicamente, bem incompreensível (assim a clareza dos poemas é comprometida, porque por mais "pós-moderno" que um texto possa ser, precisa ser minimamente compreensível aos leitores médios, ou será apenas um quadro abstrato, surrealista, inacessível, impossível...) lembra de quando as pessoas vinham se identificar com teus textos dizendo que você escreveu exatamente o que elas vivem? era porque você escrevia o humano visceralmente. assim que é a vida, humanos em redemoinhos, em conflitos, em desalinho com o outro, com o amor, com o mundo, consigo. é o homem em desejos insanos, em êxtases de prazer e de dor, em descobertas do novo, em tentações de sensualidade, em tentações de "pecados", em quedas e arrependimentos, em paraísos provisórios que acreditam eternos, em perdas e danos, em quedas livre, em subidas ao céu, em apocalipse, em arrebatamento. enfim. é o caos. somos caos. escrever humanamente é escrever sem restrições, sem medo de expor as vísceras, sem pudores. mas você "civilizou" demais a sua escrita. e assim, você cria um código de "honra" para a sua literatura, um cânon, uma limitação, um território pré-definido, uma fronteira intransponível, uma vida literária reduzida ao "politicamente correto" de sua atual vida atual. tua literatura tão livre e descomprometida antes, você agora tem tentado moldá-la aos padrões aceitáveis ou mais recomendáveis e assim, destituindo-a de tua própria essência (ícone maior de tua escrita, ela própria, em suma). sem tua essência (apaixonada, febril, inquieta, impulsiva, corajosa, um pouco inconsequente, atrevida, sensível demais, curiosa, camicase, solitária, filosófica, divergente, insurgente, resistente...) a tua escrita é apenas um compêndio estética e tecnicamente produzido e organizado por um homem que escreve muito bem e até impressiona. mas só. mas como Capote falou, com o dom, vem também o chicote. é a tua essência que dá energia, brilho e sedução à tua escrita. com a tua essência a tua literatura impressiona, apaixona, aprisiona, fascina, gruda feito gosma verde, feito lodo velho, feito barro novo, feito placenta. sua escrita está aprisionada em sua mente. ela é livre em seu coração, mas você não permite que ela chegue ao papel como foi concebida. você a "trata" em sua mente, perdendo assim a rude beleza de sua forma original. e sabe de uma coisa... conhecer você é um abismo maior do que eu. porque você me desconhece. me desconhece profundamente. não que não me adivinhe, até imaginas como sou. mas não te interessas em saber por que. e não é porque ache que não saber é poesia. porque sei como é o teu querer, o teu querer é foice, facão e salto. quando queres com paixão, arrebentas os muros, as cercas, as convenções. e me dói saber que não fazes mais isso. nem por nada. e eu quero te ver fazendo isso, não importa por qual razão. me sentiria melhor em saber que estás doentemente apaixonado por... e sendo o vulcão que sempre foi do que estando tu apenas vegetando a vida, sem paixão e sem audácia... você se domesticou. se tornou um bom homem dono de casa, dono de nome, dono de um jeito pré-definido de agir. está cortejando a massa, embora ainda não seja ela. ainda sejas um sujeito-além, uma voz em chamas e um destino a se construir. sabemos que os altos, os montes, as estradas, as praças, os monumentos, as favelas, as tribos, os vales, os horizontes, as distâncias, as delícias, o imprevisível e os dias sem agenda te esperam, você ainda não se inaugurou em muitas coisas. não pense que já. o melhor, o que ainda não, ainda está por vir. assim, sinta a palavra sem cálculo tocando na pele como um raio de sol, simples como uma gota da chuva de ontem à noite, deixa ela chegar sem pensar e passar de teus olhos para o coração e escorregar para os dedos sem passar pela cabeça. assim, beije a palavra sem nojo, sem assepsia, sem necrópsia, sem autópsia, sem anomalia. corpo natural sem prosódia, sem retórica, sem gramática. como palavra nua. assim, a palavra é a saliva doce de quando beija a vida e faz amor com a poesia.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/But-I-Would-115270038

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