segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Corrida



Por Germano Xavier


Saiu eufórica. Já havia alguns dias que não corria. Adorava sentir a endorfina inundar o corpo, a alma, a esperança. Porque talvez houvesse uma. E hoje, mais do que em qualquer outro dia, ela precisava correr para encontrar. Se não a esperança, ao menos uma porção de imensidão, de possibilidades ou apenas de endorfina. Começou a correr devagar e logo o corpo estava lá. Naquele lugar onde podia voar. Com ele. Ele sempre vinha fazer companhia quando corria. Ali em sua cabeça ele era só dela. Podia imaginá-lo deitado na cama, olhando para o teto com os seus belos olhos verde-musgo, olhando para o teto, contando histórias com a mão no rosto. Ali, em sua corrida, ele respondia a todas as perguntas e em intervalos pequenos olhava para ela, de lado, rapidamente, e todo o mundo parecia se concentrar em sua voz. Ali, em sua mente e em sua corrida, ele era mais do que uma memória, era o voo. A memória era combustível. Para os músculos, para os olhos, para o coração. Corpo inteiro movido, movendo-se. O horizonte se transformava e a cada passo dado o mundo parecia girar completamente. O chão se movia. O parque rodopiava como a estar sob um eixo imaginário. A respiração era simples e forte. Havia naquela corrida um momento de frenesi. Saiu eufórica. Como ontem. Adorava sentir a endorfina invadir o corpo, a alma, a esperança. Porque, convenhamos, talvez houvesse uma. E hoje, mais do que em qualquer outro dia, ela precisava correr para encontrar, para chegar perto, para beirar. Se não a esperança, ao menos uma porção de imensidão, de possibilidades, de perigo ou apenas de endorfina. Começou a correr devagar e logo o corpo estava lá, aceso. Naquele lugar onde podia voar, como quando assim desejava. Com ele, voar. Ele sempre vinha fazer companhia quando corria. Era deveras um mistério. Ali em sua cabeça ele era só dela. Ela o possuía. Podia imaginá-lo deitado na cama, olhando para o teto com os seus belos olhos verde-musgo, olhando para o teto, perdido em si, contando histórias com a mão no rosto daquele jeito que sempre fazia. Ali, em sua corrida matinal, ele respondia a todas as perguntas e em intervalos pequenos olhava para ela, de lado, rapidamente e efusivamente... E todo o mundo parecia se concentrar em sua voz, em seus suspiros, em seus rumores. Ali, em sua mente e em sua corrida, ele era mais do que uma memória, era a certeza do voo. Mas também, e principalmente, da aterrissagem.


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Crossing-Borders-435642079

Nenhum comentário: