sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Paixão de meus ossos



Por Germano Xavier



arrastou-se pela vida nos escombros do tempo,
aberto o coração como um grande arco,
como uma imensa fábrica de anos, em frestas.

deteve-se na hora de ir embora, impossibilitado
o corpo impensado no sorriso adiante,
disse não e teimosamente insistiu em continuar ali.
resistiu, exatamente.

ficar vivo e ser é tudo o que resta.

nascer assim, livre e indestrutível, o aquilo-tão,
e seu fim não estar previsto em nenhum livro.

viver em qualquer penumbra, apesar de quaisquer apesares
(porque feito em poesia) /decidir que era e foi,
em resistente protesto,

amor.

//ouvir a nossa música hoje
e a cada nota milhares de pedacinhos
de mim te reencontrar, completo em meus olhos
deslizando segredos em minha pele//

aquele dia de nascimento
inaugurou um nós em mim inteiramente livre,
exclusivamente nosso.

seus olhos em meus olhos fundaram uma nova poesia absurdamente forte,
doída e humana.

e fomos felizes por horas eternas e por instantes infinitos
de palavras e olhares.

e na penumbra além-mar escrevemos humanidades
de encontros e re-encontros num livro cuja capa denunciava discretamente:
amor.

essa paixão de meus ossos... houvesse um jeito
de criar invernos e fazer as águas todas
se juntarem embaixo de nós, eu faria uma casa de vidro
para te proteger

em meus domínios.
assim, diante da feroz felicidade, fecharíamos os olhos
para não morrer a dois.


//e nos algodões da partilha,
esta leve invenção do ritmo, ou na vertiginosa
imagética do verso-verbo da vida, o trigo
que queda pra cima de nós (tempo-inteiro),
cantar a morte-mais refletida em cada toque, em cada mágico
o instante presente, em pensar sobretudo através das ânsias
pelos frutos futuros do absurdo nas mangas inversas do tempo,
no azeite que fumega a essência de todos os rumos:
amor.


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Still-Life-Violin-and-Shark-Plushie-698495144

2 comentários:

Iara disse...

Li e as águas todas se juntaram...

Germano Viana Xavier disse...

Então foi uma boniteza só, Condessa.
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