domingo, 15 de outubro de 2017

Eu ainda te falarei do amor



Por Germano Xavier



aqueles mares, amor,
onde quase nos salvamos,
eram reais demais para
pássaros,
longe demais da terra,
perto demais do absurdo.

...

parei de ponderar
o imponderável.
agora, simplesmente,
paro o mundo
e mando descer
o intruso.

...

já eram verdes antes,
mas não eram musgo
(ainda).
aqueles felinos olhos
(chamas, eclipses, auroras)
viraram musgo
ao devorar
mil mundos.

...

venha aqui, amor.
sente aqui comigo,
observe aquela senhora subindo a rua.
percebe o quanto ela hesita?
talvez pense que não faz diferença
um passo a mais ou a menos.

talvez pense que o peso
em sua alma não suporte mais um metro,
não aguente mais uma casa bonita
que nunca será sua
ou mais um senhor distinto
que não a enxerga.

talvez, amor
(e não deixe de considerar as sombras),
aquela mulher que já esqueceu
de que é uma mulher
seja agora e apenas
uma pedra levada pelas marés,
ora coberta de água
ora queimada de sol.

mas é fato, ainda, amor,
que aquela mulher
é parte de nossa morte.
a cada não-passo seu
morre um pouco
de toda a humanidade.

...

você vê, amor?
jamais foi escrita
a nossa história
nos calendários
obrigatórios
dos dias contados.

a história,
nós a fizemos carne
e a comemos em horas
fatais, em dias infindos,

na geografia acidentada dos corpos.
no reino imperfeito das palavras,
perfuramos a vida
em busca da penumbra
onde o tempo é amor
e o silêncio é pacto.

amanhã, noite clara,
cheia de miúdas belezas:
o dia que mais te amei.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/praia-bancadas-bicicleta-moto-1835036/

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