sábado, 25 de novembro de 2017

Indícios de nada para vazios cheios de tempo



Por Germano Xavier



A vida não é mais como antes e pouca coisa sobreviveu daqueles anos, de quando o sonho ainda era algo puramente possível. Uma questão de tempo. O futuro, antes visto como certo e determinado, hoje é apenas uma sombra, uma incerteza cheia de medos.
...

Alterou seu rumo para não perder o chão. Alterou os sonhos, refez cálculos. Não batiam. Talvez a vida não seja uma ciência exata. Talvez a vida apenas não seja. Talvez seja tudo um sonho essa ilusão de dias e noites.
(Se não fosse o amor, sequer se localizaria no Tempo).
...

Mas ele ainda vai ver um filho crescer. (Não faltarão mãos que o agarrem para a canoa da existência-comum. Não faltarão vozes que o coloquem na estrada-mãe, na coluna central da sociedade. No (p)rumo. Com todas as pompas e papos. Com roupa de gala e ocasiões-obrigatórias. E ele, como um cordeirinho livre-e-feliz, deixar-se-á arrastar-se para a feli(z)cidade do dever-cumprido). Talvez seja por isso que as pessoas se casam e têm filhos, para verem outra vida em suas aventuras, para terem um chão suficientemente concreto para pisar e para, talvez, tentar evitar, no outro, os próprios erros, e para, distraído, desviar-se da própria decadência.
...

Curiosamente, ele não perdeu massa-de-sonhar. Ao contrário dos passantes de seu tempo, ele remontou-se em pequenos quadro-de-si feitos inteiramente de porvir(es).
...

O poeta traz no rosto as marcas das grandes-guerras em seu quintal-de-existir, onde as árvores o combatiam, testando sua resistência e eternidade. Onde as tempestades, por vezes longas e insanas, o arrancaram de seu paraíso-quadro para radicá-lo nas nuvens de seu destino-só. Porque poetas são homens grandes-demais para um só. Por isso, encarnam muitos. E por eles todos, sofrem cada dia. E, mais raramente, por eles todos, amam intensamente. E por isso doem mais do que as carnes podem aguentar e, às vezes, decidem matar-se lentamente, afastando-se de seu centro, tão cheios de vidas, de sonhos e de distâncias. Mas não podem. Poetas são vagalumes que não conseguem apagar-se, brilhando até quando deveria simplesmente dormir.
...

Aquela poeta de meus dias, equador de minhas vidas, mais do que todos, embrenhou-se na vida, e, perdendo os pés nas nuvens onde habita, despencou de si, caindo lentamente nas garras de seus dias.
...

... Porque ela(e) sabe que já perdeu-se inteiramente num abismo onde nada poderá salvá-la(o). Aquela ilusão-mor, o Amor.
...

Alguém já te entendeu? Duvido de que alguém te tenha decifrado todo. Nem mesmo tu. Admito que alguns tenham te conhecido (inclusive eu), mas se alguém ousa dizer que te entende, suspeito que é porque não sabe nada de ti. Tu não és lógico. Tampouco cíclico. Nem óbvio. Tu és mistério em expansão. Vento sem fronteiras. O Aleph. Um abismo de sentimentos voláteis e volúveis. Rocha e água. Tudo em ti muda e não muda. Tu és uma revolução. Igualmente sem razões compreensíveis. E nunca sabemos quando terminou. Só sabemos que dói e que dá prazer e que aprisiona e que apaixona e por vezes mata e salva. Isso tudo e o sangue a correr.
...

Quanto a mim, fico a pensar se sabes realmente o que são as palavras que me dizes. Se sabe o que elas significam do lado de cá. Do lado de um coração conquistado para quem qualquer sorriso é motivo para sair voando.
...

Fico imaginando se não sabes que palavras podem construir reinos e destruir impérios de vidas que acreditam nelas. Fico imaginando teus motivos para achar que dizer que me ama é uma boa-ação razoavelmente justificável, dada a minha carência de ti.
...


* Imagem: https://pixabay.com/pt/est%C3%A1dio-linhas-de-assentos-2921657/

Nenhum comentário: