terça-feira, 14 de novembro de 2017

Teoria do amor-algum



Por Germano Xavier


para ler ao som de Handel



1 |

em minha saudade, meu bem,
só a tua imagem me consola.
e choro e tremo e brinco

e obrigo o tempo
a te escrever em mim
e te trazer em ondas, em letras, em pixels,
em sonhos que nunca virão.



2 |

você salva o meu dia
do final,
dos finais,
porque escapa ao que é útil,
ao que é certo,
ao que é finito.

você é a minha eternidade
enquanto presente.
você (como o amor e a arte)
não precisa de motivo.



3 |

não é mistério
nem metafísica
(talvez melancolia).

não preciso do
sobrenatural para te amar
(amor arde como dor de dente).

preciso apenas
de um fio de esperança
e um bocado de teimosia.



4 |

e se viver
é descobrir poesia
no (es)correr do tempo,
amar é t(s)er poesia
no curs(o)ar da vida.



PS. Sinto falta de teus olhares sobre o simples. Sobre os rumores das esquinas, os passantes das ruas, os olhos partidos, os medos negados, os choros escondidos que sempre vês. Onde tens andado que não tens tempo de revelar teu mundo do mundo? Sinto falta de teus segredos sobre. Onde estão os teus inéditos olhares? Não pense que é preciso a suprema inspiração (aquela...) para merecer teus espantos de poesia, de encanto bom, de revolta ou dor partilhada com a humanidade. Teu olhar é bom demais para apenas uma direção de... Alargue teus olhares poéticos. Há tanto mar para o teu olhar. Há tanta poesia para tuas palavras. No mundo ainda tens um reino. A descobrir. A conquistar. O mundo todo (o visível e o intangível) ainda é teu. Não desperdice com o que já foi um você que ainda pode ser. Creio que me entende. O mundo e a Poesia te merecem ainda. Ao menos o que ainda não foi perdido. O que ainda não te feriu. O que ainda não perdeste. O que ainda não descobriste. Abra a mesma janela e veja o que nunca viu.

Desculpe-me por. Te.

2 comentários:

Nadine Granad disse...

Escolhi ler acompanhada pela "Ária: Every valley shall be exalted".
Lindo, não tenho palavras suficientes para descrever a beleza de seus versos e das observações (tão poéticas quanto).
Vemos, pois, na composição clássica a habilidade meticulosa em comunicar através da orquestra. Nessa caso, a palavra "vemos" está correta, quase é possível ler as notas escolhidas.
Na poesia os sentires estão acima das palavras... Em seu poema sentimos, depois lemos.
A poesia está em ti, assim como as flores estão para a primavera, o sol para o verão. Embora as estações algumas vezes apresentem-se invertidas, seus olhos de poesia a tudo escrevem, ao cotidiano trans-forma. Por isso, gosto dessa poesia do dia, da noite. A poesia que tocamos e cheiramos, que nos molham os olhos e nos secam as angústias.
Sabe quando precisamos sentir algo nas linhas alheias e o acaso mostra-se casual? Aqui senti.
Obrigada por manter-se no comando dessa nau!
Desculpe-me as muitas linhas.

Germano Viana Xavier disse...

É por reverberações assim que a poesia sempre seguirá, ávida.
Obrigado pela entrega, Nadine. É incrível saber de tudo isso.