domingo, 22 de abril de 2018

Darcy Ribeiro e o vazio que ele deixou



Por Germano Xavier



O Brasil tem poucos filhos ilustres de quem se orgulhar. E quando se trata de políticos, a lista é ínfima. Mas um deles é, inquestionavelmente, Darcy Ribeiro. Ele não foi apenas um político sério (o mínimo que se espera de um político e que não deveria ser motivo de distinção, elogio, mas pré-requisito básico), mas também um homem extraordinário. E o extraordinário, nos homens, é sempre escasso. Talvez um gênio (apesar de essa palavra estar muito banalizada). O fato é que ainda não apareceu quem provasse que Darcy Ribeiro não era o que dizia ser ou não vivia conforme pregava (e olha que procuraram bem de perto). 

Sem mencionar os seus méritos de educador, antropólogo/historiador, escritor, político, comunicador e tudo o mais (é mais fácil enumerar o que ele não foi ou não fez), Darcy era vivaz, persuasivo, cativante, elétrico. Um fenômeno de boa retórica e entusiasmo. Ouvi-lo (ou lê-lo) é sempre fascinante. Nunca um tédio, pois suas falas mais se aproximavam da linguagem do povo do que do pedantismo acadêmico.

Era um comunicador, em suma. Ele compreendia a importância da sua fala na vida real dos povos sobre/com quem vivia/estudava e acreditava no efeito positivo de sua intervenção/pesquisa/ação nas sociedades latino-americanas. Ele sabia que estava construindo algo sobre o qual a autoestima do povo brasileiro se apoiaria e poderia se orgulhar. Um dia.

Darcy era um homem que gerava paixões. A favor ou contra. O tipo que se ama ou se odeia. Era um homem de grandes ideias, mas também de grandes ações. Talvez por isso fosse tão incompreendido e fosse tão temido. (Homens de ideias e de ações geralmente não vêm no mesmo pacote). Uma personalidade que não se encontra facilmente por aí. Uma mistura rara de inteligência, bom humor, autoconfiança e consciência.

Darcy Ribeiro era incisivo (sem ser raivoso), era realista (sem ser melancólico), era realístico (sem ser pessimista), era otimista (sem ser piegas). Era sonhador (sem ser megalomaníaco - embora o acusem largamente de o ser - na falta de algo mais consistente ou mais negativo para criticar nele). Era um sábio. Um visionário. E muito coerente. Viveu e morreu defendendo as mesmas causas e sustentando o mesmo discurso. Humanista, progressista, socialista, inclusivo, justo (embora seja sempre temerário usar a palavra justo/justiça para qualquer coisa... mas para ele eu abriria uma exceção). Ele era um apaixonado pelo ser humano, pelo humano no outro, pelo conhecimento humanizado. Um homem que possuía o conhecimento, mas o conhecimento não o possuía (os sensíveis entenderão).

Hoje nos falta patriotismo. E ética. Coisas que sobravam em Darcy Ribeiro. Um homem que respeitava os seus adversários com a elegância dos que sabem do próprio valor. E com a calma de quem sabe que não precisa gritar para ser ouvido (embora a placidez não fosse, exatamente, o seu forte). Ele era combativo, sim. Beligerante até. Mas ainda muito distante de ser um pregador da violência. Era um verdadeiro intelectual, um humanista. Seus livros deveriam ser leitura (não obrigatória - porque isso já perderia todo o sentido de liberdade que deve ter a leitura - mas largamente incentivada e valorizada nos ambientes de ensino brasileiros) necessária.

O educador mineiro/brasileiro, homem para quem o Brasil tinha um potencial de "nova Roma", um homem quase um "Policarpo Quaresma" , dizia que Brasil era um gigante acorrentado que poderia (a qualquer tempo e facilmente - se seguisse o rumo político pelo qual ele batalhava) subjugar seus opressores e conquistar o seu lugar ao Sol.

É impossível não pensar no que ele diria do Brasil de hoje, da "República de Curitiba", das prisões e escândalos, das loucuras e aberrações políticas que o Brasil está parindo. (Novamente?). Mas, enfim, este é o nosso dilema. O mal e o desafio de nosso tempo. E para aumentar a nossa desgraça, ele não está mais aqui (em carne e imponência verbal) para nos mostrar um norte, uma esperança, por menor que fosse.

E o que mais pesa contra nós (brasileiros) e sempre pesará é que, o homem que fundou o Museu do Índio, o Parque do Xingu, a Universidade de Brasília, que escreveu uma inestimável (e pioneira) obra sobre a formação do País e tanto mais que não caberia em cem livros é, no entanto, menos conhecido no Brasil do que Neymar ou Geyse Arruda. Isso dói. Dói.

Mas, como ele já disse, o brasileiro é um povo que se distinguia pela "inverossímil alegria e espantosa vontade de felicidade". Eu diria que nunca foi tão inverossímil. A alegria. E nem tão espantosa. A vontade de felicidade. E a espantosa vontade de felicidade segue salvando o dia (entre sambas, novelas e futebol...) mas o futuro, quem salvará?

Tanta confiança num País que até então (e até hoje?) só existia em seus sonhos e palavras (proféticas?), está cada vez mais distante e difícil de se compreender. Mas admiramos. Respeitamos. Quem dera imitássemos. Porque, afinal, se o Brasil foi capaz de produzir um Darcy Ribeiro, ainda há alguma esperança no horizonte Tupiniquim.


* Imagem: https://www.revistaprosaversoearte.com/sou-um-homem-de-causas-vivi-sempre-pregando-e-lutando-darcy-ribeiro/

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