sábado, 21 de abril de 2018

Pedagogia do oprimido uma ova!



Por Germano Xavier



Hoje as coisas se inverteram na escola. Quem é o oprimido é o professor. Oprimido pelo sistema político e educacional, oprimido pelos alunos, oprimido pelos pais, oprimido por todos. O paulofreirismo prestou um desserviço à Educação do País ao propor um sistema de ensino que privilegia o lugar do aluno e tira toda a autonomia, a autoridade e a voz do professor. Ele é apenas um intermediário (hoje quase desnecessário) em sala de aula. A culpa é sempre do professor. E dá-lhe Paulo Freire neles. Endeusado como única voz sensível (ou humana) da Educação Brasileira, questioná-lo é quase um crime.

É indiscutível o valor de sua obra e seu senso educacional humanista, construtivista, afetivo (embora não seja autor, apenas difundidor, vide Vygotsky, com total influência marxista). O único problema é que não funciona. Décadas de fracasso provam isso. Alguém pode argumentar que é o governo que não ajuda, a corrupção, a falta de investimento, a falta de estrutura, a formação precária do professor, etc, Mas ninguém ousa questionar o método. O método de ensino é ineficiente. Ineficaz e viciado. É fato e estatística. É a realidade do estudante universitário que não sabe redigir um parágrafo. É a lanterna vergonhosa em todos os testes que mostram os indicadores da educação no mundo. Do professor que não lê, da sociedade que não muda, da escola que não progride porque parou há décadas no tempo. É preciso, urgente, uma reforma de base na educação do Brasil. Começando pelo método pedagógico, passando pelo currículo, pela formação do professor, pela estrutura da escola, os referenciais para a educação, a LDB (que mais parece um conto de fadas) todas as leis que norteiam a educação, enfim, por todos os setores da sociedade que refletem na escola.

A proposta paulofreirista de ensino seria perfeita se implantada na Suécia, Alemanha ou qualquer país sério onde já tivesse uma estrutura educacional/escolar/política formada, estruturada e funcional. O problema é que o Brasil sequer encontrou o seu rumo em qualquer aspecto. O paulofreirismo exigiu demais dos professores. E só deles. Esperava e espera um milagre em cada sala de aula. Mas o milagre não vem. Por inúmeros motivos. (desnecessário citá-los). O Brasil abraçou desesperadamente o paulofreirismo sem sequer testar suas ideias antes, dadas as carências do momento histórico, quando a maior parte dos brasileiros eram moradores rurais e analfabetos. Serviu bem aos políticos a alfabetização para o voto. Mas ninguém quis avançar além do elementar e a Educação desceu ladeira abaixo. No aspecto da educação, o mundo avança enquanto o Brasil fica assim, afundando com Paulo Freire e toda a sua filosofia ultrapassada.

Ouço muitos relatos (de décadas antes do construtivismo paulofreirista) de como a escola pública era excelente, apesar de inacessível a grande parte da população. Pioramos a escola e não encontramos um caminho alternativo. A educação básica virou uma anarquia onde só o professor paga a conta. Todas elas.

Rejeitar uma metodologia de ensino mais realística e viável, como a bancária, por exemplo, levou o País a ter uma Pedagogia fantasiosa (não é à toa que a chamam de “Demagogia”), idealista, defasada e precária. O currículo/grade dos cursos de Pedagogia é o mais delirante das humanas. Quase um desperdício total. O estudante sai de lá com um bocado de teoria inútil na cabeça e nenhum conhecimento da realidade da sala de aula. Ridículo. Para ser elegante. Num resumo rasteiro, a Pedagogia paulofreirista aprisionou a Educação no Brasil. Aprisiona o professor e aprisiona o futuro. A pergunta que não vai calar é: Até quando?

O paulofreirismo tem em si uma contradição estrutural que demonstra a sua ingenuidade. Essa ideologia (aplicada em toda a educação básica no Brasil) só faria sentido se o mundo fosse socialista. No entanto, (e infelizmente) ainda é um mundo capitalista e opressor que impera. Não há contos de fadas. Doutrinar o aluno para o socialismo é o mesmo que incapacitá-lo para a vida num mundo realístico.

O aluno sai da escola sem aprender matemática, informática, ciências, inglês, leitura, dentre outras habilidades essenciais, sem dominar as ferramentas básicas do saber que precisará para exercer o seu direito de cidadão. Doutrinar os jovens com o romantismo do socialismo é quase má fé. Chega a ser irresponsável. É preciso preparar o aluno para a vida. Ele precisa sair da escola com as habilidades essenciais dominadas e sabendo os conteúdos que realmente serão úteis em sua vida. Priorizar as habilidades socioemocionais (também importantes, claro) em detrimento dos conteúdos é de extrema inocência.

O que os paulofreiristas não entendem é que não são incompatíveis uma educação humanista e libertária e o ensino dos conteúdos (a que chamam de educação bancária). Um pouco de disciplina nunca fez mal a ninguém. No ambiente escolar então, é imprescindível. Hoje, se o professor piscar já é processado. É preciso juntar os benefícios dos dois, pensando no bem do aluno a longo prazo e no agora e não fincar o pé num fanatismo retrógrado. Demonizar os conteúdos e a memória é negar-se a atualizar-se no tempo. O fato é que são exatamente essas “coisas” que serão cobradas do aluno (vestibulares, Enem, concursos, provas externas e internas, entrevistas de emprego, autonomia no mundo, etc), memória e conhecimento de conteúdos. São imprescindíveis. Não importa o quanto ele for livre e pensante, se não souber matemática, por exemplo, será renegado à exclusão no mundo atual.

Para o sonho a própria vida o levará. É preciso ter casa, comida e segurança para poder sonhar com o pé no chão. Sonhar de "barriga vazia" é perecer em vão. A questão fundamental é que o paulofreirismo não é apenas um sistema de ensino, mas uma doutrinação sistemática para o socialismo. O problema é que o aluno não vive num mundo socialista. Não será transportando, num passe de mágica, para um mundo idealista. Pelo contrário. Ele se depara com um mundo onde o conteúdo e a memória serão exigidos, caso contrário, ele não terá condições de competir com igualdade no mercado de trabalho, no mundo globalizado, na vida. Não há que se falar em libertação da opressão política/ideológica estrutural sem que se forme o aluno para a vida real. Negar isso ao jovem é a verdadeira opressão.


P.S.: Caro leitor, talvez um dia eu volte neste tema com pesquisa, embasamento, esperança, tempo e vontade. Hoje esse assunto só me causa indignação e desânimo. (É o tipo de trabalho que nunca seria publicado na Academia, por exemplo). Só um desabafo mesmo. Desabafo de quem está nisso há 14 anos. Espero não ter te escandalizado.


* Imagem: http://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-humanas/estudo-transcreve-manuscritos-ineditos-de-a-pedagogia-do-oprimido/

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