sábado, 21 de abril de 2018

Por que não gosto da Academia



Por Germano Xavier



Em primeiro lugar porque ela reflete a sociedade: tradicional, racista, machista, engessada, intolerante, continuista, elitista, tendenciosa, etc, etc. Com refletir a sociedade, quero dizer que ela navega ao vento do poder, ou seja, de quem paga mais ou de quem manda no momento. (Vide pesquisas encomendadas e/ou estudos mentirosos que sustentam o sistema dominante, como as grandes corporações, multinacionais, indústrias, etc.

A utilização do conhecimento como forma de dominação é histórica. A produção do conhecimento (formal), que deveria ser um espaço de liberdade e exercício do livre pensamento é, na prática, um espaço intransigente, onde o novo é desencorajado e onde as regras de formato e estática são mais importantes do que o conteúdo.

A censura é tamanha que é praticamente impossível se produzir um trabalho sério (que seja reconhecido como tal pela comunidade acadêmica) sem que isso seja uma tortura emocional e um trabalho exaustivo. Sem contar que cada sílaba deve ser milimetricamente referenciada (ou seja, o novo está descartado) e pautada no anteriormente escrito e famoso e não necessariamente na qualidade do conteúdo. Ou seja, os novos (e livres) pensadores (ordinariamente) não encontrarão espaço no ambiente repressor da Academia.

Felizmente, ao longo do rio principal existem os afluentes. Paralelamente à História do conhecimento formal contada pelos "donos" da pena, sempre se produziu um conhecimento tido como alternativo ou clandestino. Sempre um vanguardista ou um destemido resistente escapou da tirania do silenciamento e deixou um rastro, uma pequena luz vinda de um lugar da margem. Muito desse pensamento clandestino, condenado, 'espúrio", chegou até nós e serviu de base para uma (supostamente estabelecida) liberdade de expressão de que gozamos hoje.

Ao priorizar a estética, o formato, as regras ridículas e obsoletas, a Academia se posiciona como antiquada e ineficiente. O pensamento original não é apenas desencorajado, é punido e excluído. Inclusive com reprovação, que é o ápice da estupidez. Julgar que alguém que supostamente compilou meia dúzia de pensamentos (não raro defasados e/ou já ultrapassados cientificamente, historicamente, eticamente) é capaz ou incapaz para algo é de uma ingenuidade alarmante. Para não dizer que é má fé.

A incontestável distância entre o que se produz nesses ambientes (com raríssimas exceções) e a vida real da sociedade é gritante. Quanto realmente se aproveita? Quanto se tornará relevante de alguma maneira? Toneladas de material (teoricamente novo) produzido e arcaicamente armazenado nos porões das universidades são produzidas por ano. Para onde vai tudo isso? Para o mesmo lugar de onde veio. Para a inutilidade. Para o vácuo, para a estagnação onde a Academia dorme ornada de seus adereços aprisionadores, como a bata, o anel, a placa e outras caduquices.

Felizmente (e graças aos livres pensadores, quase sempre, marginalizados) o mundo muda. Lentamente. Mas muda. Com o Renascimento e tudo o que ele trouxe de livre e novo, chegamos à internet, à literatura, à poesia, às redes sociais, aos movimentos sociais e a todos os movimentos de libertação que realmente vêm do povo e para o povo. Não negando o valor das instituições formais de ensino, muitas das ideias que mudaram o mundo nasceram nos becos e nos lugares desprezados. Hoje, a internet, a livre circulação de informações e as redes que se formaram no mundo todo permitem um trânsito do saber mais libertário e democrático. Ou seja, o conhecimento chega sem muitos intermediários. Em alguns casos, nenhum. Mas ainda estamos muito longe de uma efetiva inclusão no mundo do conhecimento formal ou da Academia.

Como a Educação Básica, a Academia vive de um passado que já não existe num mundo que ela ainda não conhece. Ensina-se o que ninguém mais precisa saber. A pensar livre é tudo o que ela não ensina. Num resumo superficial, a Academia continua vivendo na Idade das Trevas. A velha masturbação intelectual interminável. Um jogo de egos. Uma dança primitiva em torno da fogueira da arrogância e da intransigência. Enquanto o mundo se transforma e fervilha, a Academia delira entre quadros de giz ou brancos e livros empoeirados.


P.S.: Tem gente que sofre de citacionite aguda. Uma síndrome que se manifesta pela incontrolável vontade de citar, citar e citar. A cada dez coisas faladas, nove são citações. Essas pessoas são exibidas ou engessadas demais para serem originais ou talvez tenham uma autoestima muito baixa e tentam repor a falta de confiança tentando impressionar os ouvintes com citações (quanto mais raras e exóticas, melhor). Com sua costumeira falta de noção, apostam no efeito dramático e até conseguem impressionar os incautos. Infelizmente, essa prática, no mínimo deselegante, não é privilégio da classe acadêmica. Há citaciopatas em todos os lugares, embora os acadêmicos e intelectuais ainda preservem a primazia. Um pedantismo do qual poucos conseguem escapar. Esses (que geralmente são os poucos que sabem do valor do conhecimento informal e da experiência como saber) são os que já aprenderam a ouvir, enxergar e refletir o lugar do outro no mundo. São os que vivem e deixam viver.


* Imagem: https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=117

2 comentários:

Iara disse...

Enfim, encontro um respaldo à minha opinião sobre a academia. E olha que, trabalhando diretamente nos administrativos de um órgão municipal de educação, trilho um caminho por onde títulos são as joias da coroa: títulos a quilo, conseguidos na superficialidade da citacionite aguda e na megavalorização dos arrogantes PHdeusesdesorientadores... Obrigada por me mostrar que tenho par, Capitan.

Germano Viana Xavier disse...

Sigamos, Condessa. Apesar de.